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Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

20
Fev24

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 87) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Ladrões das Almas»

I - Jardim das Tormentas. 1913

Manuel Pinto
(...) «Ao lado, num toalhete, servia Joana os mesmos pratos ao abade e ao filho, apenas para estes o pão era do alveiro e trazia-lhes o vinho, em vez de cabaça, numa pichorra de Molelos.
Como era muito desembaraçada, acocorava-se no chão, e, lenço descaído sobre os ombros, repartia-se entre as duas mesas; dum lado, a debulhar batatas, a manejar a gadanha, ou trinchante; do outro, de rainha Santa Isabel, apaziguar as testilhas entre Isaac e o pai, suscitadas por dá cá aquela palha, inclusive as vezes que tinham bebido, que a senhora Doroteia, dona de casa muito económica e regulada, mandava sempre uma escassa medida de vinho. Nunca os dois levavam a termo a refeição sem que barulhasssem; isto divertia os operários e obrigava Joana a proferir na sua rude sinceridade:
  -- É uma vergonha para pessoas educadas! Vejam lá se acabam!
Ao fim, os homens punham-se a pé de um pulo, e o Zé Cleto, o mais desembaraçado, chegava-se ao padre:
  -- O senhor Reitor hoje não tem um cigarrinho para a gente?
A resmungar, porque resmungar era próprio da sua índole, entregava-lhe dois maços de kentucky que Isaac já havia maquiado.
Joana arrumava a loiça, depois de varrer as migalhas para o Moiro que, de olhos fitos e cauda a abanar, estivera desde o princípio a fazer namoro à pitança. Ajudada pelo padre, que lhe punha o cesto de duas asas à cabeça, enfiava no braço direito a cesta-brez, onde ia o panelão do caldo, e, dando as boas-tardes, despedia.
Lá adiante, a coberto do tronco dum castanheiro, Isaac chamava-a:
  -- Olhe aqui, que lhe quero uma coisa!
Suspendia-se; aproximava-se num requebro, meio dissimulada, parlamentar:
  -- Então que quer? Diga!
O moço buscava-lhe a boca com a boca e cingia-a pela cinta. Abandonando-se, murmurava:
  -- Olhe que podem ver! Dianhos, uma mulher da minha idade!
Mas só trocavam beijos, não era propícia a hora. E prosseguia, lépida e mais frescal, para casa do senhor padre, onde a esperava a gralhada dos filhos com mira nos sobejos. A senhora D. Doroteia, ainda que velha e com muita lida, era mulher para pôr tudo direito numa volta de mão. Num ápice vasculhava caçoilas e tachos, arranjando um bazulaque com que atestava uma almofia em que os pequenos se atufavam até às orelhas.
E ambas, enquanto lavavam a loiça, se entretinham de Isaac, um homem doido pelo mulherio, sem emprego e sem lei, que, por aquele caminho, acabava com uns alforges às costas a pedir esmola.
  -- Veja prò que a gente os cria, senhora Joana!
E, arrastada na adulação, sabendo que o grande axe de Isaac era o femeaço, Joana dizia:
  -- Pra consumição e trabalhos, senhora D. Doroteia! Ai, ele há lá gado mais ruim que as mulheres!?...» ...
                                                                              (continua)
 

Testilhas lutas, brigas, altercações.
Maquiar surripiar, desfalcar.
https://alcancaquemnaocansa.blogs.sapo.pt/glossario-sucinto-para-melhor-29693

19
Fev24

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 86) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Ladrões das Almas»

I - Jardim das Tormentas. 1913

Manuel Pinto

ladrao das almas.jpg

Ordinariamente despegavam todos três ao sair dos gados, deixando em casa a Luísa, de doze anos, com os dois pequenos, um de seis e outro de quatro, muito bonitos e louros, duma pelagem que não tirava nem ao Cleto nem a Joana. Quando voltavam à noite, após as Trindades, era para se estirarem na enxerga, insensíveis e moídos como a terra dos caminhos.
Naquele Inverno, o padre Claro ocupou-os semanas inteiras, nas sachas a princípio, depois no desmonte dum morro em que porfiava experimentar bacelo. Para isso mandara rogar numerosa chusma, pondo-lhe à testa práticos, expressamente chamados do vale.
E, durante um mês, a orquestra bárbara de pás e alviões espantou os gaios que forrageavam nas carvalheiras. De garnacha pelos ombros, fumando o cigarro e peitorreando, o padre fiscalizava. À sombra duma árvore, Isaac lia Zola, suspendendo-se de tempos a tempos a observar os trabalhadores. Entre os homens, coberto de pó e de suor, ninguém distinguiria Norberto, o filho mais novo do padre, se não fossem as objurgatórias e os recados repetidos do pai, que ele partia a executar aborrecidamente porque já não esperava galardão. Duas vezes vezes, de sol a sol, vinha Joana trazer-lhes o comer. Estendia a estopa sobre a relva e, acocorados em volta ou de joelhos, troncos moldados na camisa branca, a malta deglutia de ar truculento e voraz, sendo como era à custa da barba longa. Ninguém era tolo que metesse obreiros a comer, se não queria ficar esburgado até os ossos. Mas o padre tinha a peito dar vazão à muita feijoada que colhia nas terras de regadio, e acalentava a santa ilusão, poupando ao salário, que assim lhe saía mais barato. O que valia -- comentava o filho -- era deitar contas às despesas ao fim da empreitada, senão paravam ali as obras, para nunca mais.» ...
                                                                (continua)
 

 

Objurgatória — censura áspera.
https://alcancaquemnaocansa.blogs.sapo.pt/glossario-sucinto-para-melhor-29693
Peitorrear
n verbo
produzir som rouco ao falar, em decorrência de afecção dos brônquios etc.

Esburgado
n adjetivo 
que se esburgou
1 de que se tirou a casca; descascado
2 separado dos ossos (diz-se de carne); descarnado
3 Derivação: sentido figurado. Uso: pejorativo.
muito magro, sem carnes; macérrimo
 
"Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"
15
Fev24

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 85) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «A Pele do Bombo»

I - Jardim das Tormentas. 1913

Manuel Pinto

(...) «Aquele episódio fugitivo sugeriu ao garrano caduco a sua mocidade longínqua. E, apercebendo-se do desejo impetuoso dos cavalos e da arisca e arrebatada luxúria das éguas, num relincho disse ao grotesco e heróico potro do moleiro:
  -- Aí, aí, seu valente, aí! A velhaca está a arder!
E, em voz rápida, o outro respondeu:
  -- Lá vamos, meu velho, lá vamos!
Chegou ao cimo do teso, pensativo e melancólico.
Contra uma lage o filho do Cleto aguçava uma faca. E o garrano que estava ressentido com ele arreganhou os dentes, ameaçador. O rapaz, com um safanão que se perdeu no ar, repeliu-o.
O Cleto prendeu-o a um carvalhaliço, depois do que lhe vendou os olhos com o lenço. E outra vez fez o seu reparo: 
  -- Mas que endróminas são estas?!
De repente sentiu um beliscão desagradável no pescoço e uma queimadura, estreita como chicotada, que lhe apanhava a garupa de lés a lés e se perdia por debaixo da pele. E pouco a pouco começou a achar-se leve, leve, como se um pé de vento fosse capaz de o rebalsar pelo espaço num galão vertiginoso. Ao mesmo tempo, por detrás do farrapo vermelho, os seus olhos pareciam ver com diversa claridade. Ah, lá em cima, a poldra e o cavalo mordiam-se num abraço grandioso. Também fora pimpão e chibante, e a dentada com que ferrava as éguas pelo cachaço tão raivosa era de cio que elas tremiam abanadas como um canavial. Desabava sobre elas com a rapidez do nebri, e recordou-se... Uma vez rebentara a retranca para saltar na égua aluada dum passageiro que o provocava da argola da taverna com gemidos langorosos. Outra vez fugira para a serra mais a potra do mestre ferrador, com meio mundo à cola: Aqui vão as pegadas! Rincharam além! Arreta, aqueiba! Quando os pilharam, tanto ela como ele, saciados, ripavam placidamente a ervinha duma fonte.

Na cernelha a torrente lépida lembrava um afago da mão de Joana, que nunca lhe fizera mal. E sentia-se bem, inundado dum gozo desconhecido, quando lhe faleceram as forças e baqueou. Uma vez em terra, através da venda ofereceu-se-lhe um horizonte imprevisto, mais diáfano e arroxeado que certas púrpuras do Poente para os lados do mar. Tinha vontade de dormir. Oh, como o chão era macio! Qualquer coisa parecida com a asa dum passarinho ou o primeiro arrebol do dia roçava-lhe a pelagem, suave, suavemente.
Joana ergueu-lhe o lenço dos olhos e por hábito novamente beijou a mão cujas meigueices há pouco vinham temperadas de tristeza. O ar, diante dele, era menos que um sopro que não basta para encher os bofes uma vez. Ao longe, para lá dos montes, avistou um corpo afogueado que descia. E vagamente interrogou-se:
  -- Será o sol?
Depois, lembrado da poldra e do garanhão que galopavam para as núpcias ferozes, considerou:
  -- É o amor dos cavalos.
No horizonte, a grande rosa caiu arrastando o ar todo. E às escuras se engolfou no escuro nada.» ...
                                                                                      (continua)                        

 
Nebri — ave de altanaria, falcão.
Rinchar — relinchar, guinchar.
Aqueibar — cortar o caminho à rês esparvada. saindo-lhe pela frente.
 
arrebol 
n substantivo masculino 
1 cor avermelhada do crepúsculo
2 Derivação: por metonímia.
a hora em que o sol está surgindo ou sumindo no horizonte
"Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"
14
Fev24

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 84) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «A Pele do Bombo»

I - Jardim das Tormentas. 1913

Manuel Pinto

(...) «Naquela manhã não lhe abriram a porta. Como tivesse fome, depois de relinchar, relinchar, até lhe doer a goela, pôs-se a catar no estrume as paveias e a farfalha dos sargaços. O Cleto trabucava lá fora e, sentindo-lhe o manejo, idas e vindas, estava indignado e cheio de ferocidade.
À tardinha apareceu finalmente o chilandrão do dono, com a felpa ruça do peito a esflocar-se da camisa rota. Pôs-lhe a cabeçada de corda e ele, esquecendo-se logo do desprezo, deixou-se muito submisso conduzir pelo rabeiro. Na rua, Joana deu-lhe uma côdea de pão e, a passo vagaroso, tomaram os três o caminho do monte, onde cresciam escarapeteiros e outras plantas bravias e as pegas vinham no lume baço da tardinha ensaiar-se em suas saraivadas farândolas. Havia lá cisternas de minas abandonadas, corcovas do desmonte por entre o urgueiral, e, porque sempre se temera de lugares solitários, em sua estranheza, perguntava:
  -- Que diabo vimos para aqui fazer?
Joana caminhava ao lado de Cleto, de mão a apanhar a saia, para que não roçasse a lama.
E ele lambeu-lha, balda velha que ganhara com os mimos que lhe dava, distinguindo-a em sua simpatia da manápula bruta do Cleto. Desta feita a mão terna e blandiciosa, apenas tomada de tremura, acariciou-lhe a estrela corrida da testa, em que nunca deixava de fazer reparo quando se dessedentava nos poceiros. E afagos assim morosos e tristes mais o fizeram desconfiar.
A chuva lavara o céu e nele os perfumes das giestas e da bela-luz pareciam andar boiando, não mais voláteis que nimbos brancos, matinais, à flor dum rio. E, trespassado dos eflúvios, com a fome concentrada, aspirou e arfou regaladamente, como nos atalhos quietos, quando as maias despejavam sobre ele seiras de incenso.
Mas ao passo que ia pela arreata, inebriado, sorvendo o ar, mascava e remascava a sua filosofia suspicaz de vagabundo.
Ao chegar a meio do cabeço, uma poldra passou a correr, veloz, narinas cheias de escuma e clinas ao vento. Corria como um raio, mal tocando a terra e roçando as urzes. E, na peugada, galopava o cavalo branco do moleiro, ridículo, com a carga na barriga, fumegando e arrifando. Homens de cabeça ao léu e aos gritos iam-lhes no rasto.» ...
                                                                                         (continua)

Chilandrão — homem acabado e pobre, alarve.
Farândola — pândega, farraparia, maltrapilhos, dança, azáfama.
https://alcancaquemnaocansa.blogs.sapo.pt/glossario-sucinto-para-melhor-29693

seiras

n substantivo feminino 
1 cesta ou cesto de esparto, junco ou vime, onde se guardam ou transportam frutas
2 Derivação: por extensão de sentido.
cesto de tais materiais us. para o acondicionamento ou transporte de diferentes objetos
3 Regionalismo: Portugal (dialetismo).
cesto de esparto us. para conter as azeitonas moídas no momento de espremê-las no lagar; capacha
sinónimo : ceira
 "Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"

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