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Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

22
Jan26

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'CAMILO CONTRA-ATACA' [ 20 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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«Em 1887 vinha a lume o Óbolo às Crianças, publicação organizada com intuitos filantrópicos, escrita na sua quase totalidade por Camilo, sob o pseudónimo de Egresso Bernardo de Brito Júnior, e por Francisco Martins Sarmento, esse com o pseudónimo de Fr. Fagundes. Com exsudada melancolia, inseria Camilo nesse livro as chamadas procissões dos moribundos e procissão dos mortos ou o registo dos defuntos e sobreviventes da geração de que fazia parte e que se abeirava do ocaso. (...)»
 

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«Os dois períodos seguintes chegam para exemplificar o ressentimento que lhe merecia em seu desdém para com a herança literária representada por ele e mais moribundos.»
«Haja quem faça hoje o rol dos escritores das gerações subsequentes à minha, e demonstre, para crédito das letras pátrias em progresso, que toda a obra dos operários, entre os quais eu martelei quarenta anos, não pode sequer envaidecer-se como escaleira por onde trepou a geração nova. Ah, meus velhos camaradas, não nos envergonhemos da nossa rude e despremiada empresa de cabouqueiros quando a gente moça, saindo às janelas da casa que edificámos, baldear chocarrices sobre a nossa profissão de moribundos que vão passando e caindo!»...
 

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«Semelhante desabafo certifica-nos da repercussão dolorosa que levantou em Camilo a hostilidade dos naturalistas, a cuja escola acabara por render preito não só com reconhecer a renovação técnica que imprimira à literatura como em se adequar seus métodos. Em verdade, como já dissemos, o grande agravo que Camilo podia invocar contra Eça e seus corifeus, era o menoscabo a que o lançaram. Está na índole de todos os movimentos revolucionários passar-se de sapatos brochados sobre o que se encontra no caminho.Todo o existente é detestável e inútil. Mas numa cadeia de factos e ideações, como é a literatura, um fusil coliga com outro; o segundo não se compreende sem o primeiro.»
 

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«Portanto, o naturalismo português, por muito afrancesado que fosse, tinha que ter um antecessor, entroncar nele, e dele receber a flux subsidiária, léxica à falta de melhor. E assim sucedeu. O romantismo  português, personificado em Camilo, forjou duma língua de frades e de poetas, toda enfática e chorona, uma língua viril com módulos e acentos para qualquer género de acção e de pensamento. Desarticulou-a, acepilhou-a [*], introduziu-lhe ralé e vivacidade. Tornou-a um órgão de gama opulenta, quando não passava duma espécie de flauta pastoril com um orifício para o sopro, outro para a modulação.»
 

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«Bem justo que Eçaaté certo ponto Ramalho trouxeram a arte do epíteto, professada em França pelos Goncourt, Flaubert, Daudet. Mas o vigor linguístico do verbo, sua variedade dinâmica, seu expressionismo peculiar, sua impressiva e cromática fisionomia, deu-lha Camilo melhor do que ninguém. Neste particular, os naturalistas ficaram a muitas léguas de distância do poderoso lavrante das letras. Eça foi um joalheiro de ritmos novos e finura insuperável na entomologia do adjectivo. Mas, tenhamos a coragem de o dizer, há nisso um esforço de paciência, que no fundo não é outra coisa senão o recurso de quem é pobre de ideias e pouco esperto de facúndia e facilidade. Arte menor, sensual até nos seus voos subjectivos, cheia de sugestões e requebros, esta do Eça; incomparavelmente mais robusta, se bem que desordenada, a de Camilo. O desdém que Eça sempre manifestou pelos predecessores transparece dos períodos atrás reproduzidos, coados pela sensibilidade de Camilo.
 
«Depois das páginas, sem dúvida, de alta beleza de Eça, no prefácio dos Azulejos, Camilo não era homem que se limitasse a regougar. Com vir à baila o nome de José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, pai de Eça, um dos moribundos, autor do poema idealista o Castelo do Lago, ofereceu-se-lhe o ensejo de calar viseira e acometer.»
 
«Vale a pena extractar a página na íntegra, pois que é a última, que se saiba, na peguilhada desavença com Eça.»
«Este meritíssimo magistrado em instância superior e par do reino escreveu versos, na sua mocidade académica, irisados e subjectivamente petrarquistas, dos melhores que então se melodiavam no alaúde trovadoresco. Entre as suas produções dessa época subsiste um poema de extenso fôlego, scoteano, intitulado o Castelo do Lago. Todavia, a estremada emanação literária do insigne magistrado é seu filho sr. Eça de Queiróz, o implantador da novela realista na charneca lusitana. Tem este escritor dois notórios livros, os primeiros, de factura solida, humana e perdurável, que jamais poderão ser desvalorizados pelas duas obras paradoxais, com que a sua caprichosa fantasia esteve brincando alguns anos -- o Mandarim e a Relíquia. É a primeira uma espécie de apólogo, encardido pelo tempo, reflexo de quimeras obsoletas, umas fabularias chinesas, de todo espúrias na actualidade das nossas condições biológicas e exigências do espírito.»
 
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acepilhou-a [*]
“acepilhar”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
 
(continua)

 

14
Jan26

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'EÇA VOLTA A ATACAR' [ 19 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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(continuação)
 
«Em matéria da inteireza com que o naturalismo observa a vida, sem receio de fazer corar as meninas, estribando-se em Feuillet, pedagogo dos bons costumes para uso de donzelas, poderiam os românticos perguntar a Eça pela página do autor citado que assoalha axiomas tão escarlates.
É intuitivo que na ordem de argumentos aduzidos por Eça convinha Octave Feuillet, o romancista dos panos quentes e não os Goncourts, que faziam gala em escalpelizar as podridões sociais sem rebuço nem tamiz [*], e de quem é a frase relativa à candura das meninas da primeira comunhão.» 
 

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«Neste meio tempo, Camilo publicara Vulcões de Lama, onde um crasso naturalismo parece decantado da burla e achincalhe para ficar obra estrénua de escola. 
Eça, quase simultâneamente, aparecia com a Relíquia, obra encantadora não obstante o compósito. De certo semelhante trabalho é um daqueles em que são mais visíveis as qualidades e defeitos do autor: uma ironia irreverente e procurada; uma prosa embaladora; pouca imaginação e muito espírito-santo de orelha; uma rapsódia com acordes alheios, destes que teimosamente mais que voluntariamente obssidiam o cérebro. Este livro em cuja tecitura se vêem passar as sombras eliseanas de P. Gattina, de Flaubert, de Renan, de Rollinat, foi desde logo objecto de acerbas críticas. Nas demais obras de Eça, este desplante em se enfeitar com as jóias dos outros está mais ou menos disfarçado. Aqui Eça não se deu a essa hipocrisia.»
 

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«Camilo que estava à espreita das produções da escola realista, mandou adquirir a Relíquia, pois que Eça não lhe oferecia os seus vient de paraître e anotou-o. Logo no ante-rosto se lê no exemplar existente em Seide: «Tirante as descrições topográficas de alguns pontos da Palestina -- de certo exageradas por tintas fictícias -- este livro como romance é uma pochade, em que todos os caracteres são caricaturas e armadilhas às gargalhadas da baixa comédia. Os plágios são frequentes.»
 
(...) Na última página lançou um juízo severo: «Este livro tem duas partes: 1ª, porcaria, 2ª, maçada. É uma pochade à Paul de Kock: chalaças hiperbolicamente inverosímeis; uma vontade despótica de fazer rir à custa de tudo. Mas não é isso o que o torna um mau livro. É a falta absoluta de bom senso e de bom gosto. Pode considerar-se uma decadência por ter sido escrito depois dos Maias que deve ser melhor.»
 
«O singular é que a Relíquia, impregnada do tonus das Memórias de Judas de Petrucelli della Gattina, tenha sobrenadado à flor da literatura portuguesa; e que a obra paradigma tenha sossobrado com o nome do autor no mare-magnum das letras estrangeiras. Que absurdo destino é este, o dos livros, ou que estranho desnível de méritos há da nossa plana literária para a plana internacional?»
 
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tamiz [*] (tamis)
 “tamis”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
      Disponível em: 
 
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07
Jan26

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'EÇA VOLTA A ATACAR' [ 18 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

 

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«Com um pequeno intervalo de semanas, rompia de Bristol nova investida contra o romantismo. Eça de Queirós aproveitava-se do ádito das obras, a que o chamavam como padrinho, à laia de plataforma de tiro. No Brasileiro Soares, primeiro, logo a seguir nos Azulejos do conde de Arnoso. Qualquer dos livros roçava pela mediocridade, mas tratava-se de amigos, de pessoas de tom, e Eça não sabia resistir à solicitude cortesã.
Pois nesse prefácio, a certa altura aponta baterias ao campo inimigo. Eça não era um polemista na vera acepção da palavra. Para o polemista, tal como o concebiam ao tempo, todo o floreio externo se damasquinava de zombaria, troça, ridicularização e verrina. Estes efeitos estavam fora de toda a possibilidade para um temperamento como o dele. No que levava a palma, era na ironia. Mas a ironia não suporta o embate do sarcasmo. A ironia é por sua natureza monovalente. Eça poderia escrever páginas superiores, sobre as quais o adversário acabasse por chafurdar na sua mesquinhez e insignificância, vencido e humilhado. Mas para a esgrima literária, tal como a praticava Camilo a cada passo, florete, partasana, moca se necessário fosse, não contassem com ele. Quando saía a combater fazia-o inopinadamente; despejava a sua aljava, onde havia graça, chiste, epigrama, agudeza, formas cromadas da ironia, e metia-se em copas. A farsa, a sátira, a descompostura não sabia o que fossem. Francamente combativo, jamais a sua combatividade o obrigou alguma vez a recarregar o adversário. Nisto era diferente de Camilo como da noite para o dia.»
 
 

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Escrevia Eça de preliminar a Azulejos:
«Não temes que o teu livro, flor de literatura, casta de aroma e de cor, seja tratado como um desses frutos podres que ama o naturalismo? Frutos medonhos que têm depravado o paladar das multidões, a um ponto que só eles apetecem e só eles se vendem, e já ninguém vai feirar aos gigos onde vermelham os frescos morangos acabados de colher no morangal do romantismo!? (...)»
«Mas como tu sabes, amigo, nesta capital do nosso Reino permanece a opinião cimentada a pedra e cal, entre leigos e entre letrados, que naturalismo ou, como a capital diz, realismo -- é grosseria e sujidade! Não tens tu reparado que quando um jornalista, copiando no seu jornal com pena hábil a parte da polícia, que é o roast-beef da imprensa um bruto que proferiu palavras imundas, nunca deixa de lhe chamar com uma ironia cujo brilho raro o enche de justo orgulho -- discípulo de Zola? -- Não tens notado que nos periódicos, quando se quer definir uma maneira especial de ser torpe, se emprega esta expressão consagrada -- à Zola? Não tens tu visto que, ao descrever um caso sórdido ou bestial, o homem da gazeta acrescenta sempre com um desdém grandioso: para contar bem como tudo se passou precisávamos saber manejar a pena de Zola? Assim é, assim é! Estranha maravilha da asneira! O nome do épico genial de Germinal e da Oeuvre serve para simbolizar tudo o que em actos e palavras é grosseiro e imundo! (...) Também em França e Inglaterra, há quinze anos, houve a mesma opinião sobre o naturalismo; também gritaram grosseria, sujidade os néscios e os malignos ao aparecerem essas vivas, rijas, fecundas, resplandecentes criações do Assomoir e de Nana.»
 

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«De tal sorte, que assistimos a esta cousa pavorosa: os discípulos do idealismo para não serem de todo esquecidos agacham-se melancolicamente e com lágrimas represas bezuntam-se de lodo! Sim, amigo, estes homens puros, vestidos de linho puro, que tão indignadamente nos arguiram de chafurdarmos num lameiro vêm agora pé ante pé enlabuzar-se com a nossa lama! Depois soerguendo bem alto a capa dos seus livros, onde escreveram em grossas letras este letreiro -- romance realista -- parece dizerem ao público, com um sorriso triste na face mascarada: -- Olhem também para nós, leiam-nos também a nós... Acreditem que também somos muitíssimo grosseiros e que também somos muitíssimo sujos.»

(continua)

30
Dez25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'BRASILEIRO ROMÂNTICO E REALISTA' [ 17 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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(Continuação)

«À data em que Eça escreveu o prefácio do Brasileiro Soares, 1886, tinha Camilo, sagitário por excelência, várias vezes despejado o carcás de flechas envenenadas contra a escola realista, algumas vezes alvejando Eça particularmente. Este mais ironista e menos sarcástico, mais discreto na vida das relações e menos combativo, mais desdenhoso que denodado, não perdia agora a ocasião de responder com o seu virote, acobertadamente ou não.»
 

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«O prefácio do Brasileiro Soares era dirigido ao peito de Camilo, e o paspalhão obsceno que Eça tinha na retina devia ser nem mais nem menos do que o barão do Rabaçal, Bento José Pereira de Montalegre, que esmalta com a sua pachouchice e retorcida armadura áurea o Eusébio Macário.»
 

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«Na meia dúzia de páginas que precedem o Brasileiro Soares, fulgura o monóculo olímpico e impertinente do escritor, e ouve-se o tinido melodioso e imprevisto da sua adjectivação sardónica e maliciosa. Todavia o discurso é mal articulado e para cúmulo falho de justiça e equanimidade. Não, o romantismo não construia o brasileiro única e exclusivamente consoante o figurino que Eça se apraz descortinar. Havia um ror deles desde o torna-viagem, que era sem dúvida o mais simpático e digno de respeito, e que nem sempre coincidia em representar o odre de vento que cobria a terra natal de não prestas. Sobre o seu contributo de formiga do vasto formigueiro emigratório assentava o equilíbrio económico das sete províncias mães. Os outros tipos, encarados no ângulo literário, tinham mais interesse, mas este era o são, o honrado, o lidimamente português em seu labor ímprobo e humildade.
Ora não foi este que Eça surgiu a defender da calúnia romântica no proscénio a que o atraiu Luís de Magalhães.»
 

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«Camilo, através da sua centena de romances, usou duns e doutros em barda. Virou-os do avesso, depois de pintá-los do direito, analisando-os com tenta ora faceciosa, ora cruel, segundo os vários prismas que podia oferecer o espectro. Fixou o sórdido e o generoso, o culto e o boçal, o soberbo e o modesto consoante as necessidades do drama, mas fugindo sempre a falsear o homem»

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«Percorrendo a galeria camiliana, basta que seja de fugida, que tipos de brasileiro se nos deparam? Na Mulher Fatal Carlos é um simples e poético bom rapaz: nem joanetes nem boçalidades; no Retrato de Ricardina o brasileiro é igualmente pessoa de bem, generosa e mesmo providencial: desprovido de joanetes e quanto a boçalidade nada; na Vingança sai-nos um émulo de Cagliostro, misteriosos e até equívoco: mas também ninguém dá fé dos seus joanetes nem da sua boçalidade; na Carlota Ângela tampouco o brasileiro, para mais civilizadíssimo, acusa joanetes ou bajoujice; nas Vinte horas de liteira perpassa um brasileiro que, mostrando-se fura-bolos,não deixa de ser sensato e apresentável; nas Estrelas propícias rompe-nos um brasileiro viajado, lido e mundano de todo: mãos finas, boas maneiras; na Filha do doutor Negro temos um autêntico brasileiro do Brasil, fero de alma, mas sem grotescos; no Comendador esse brasileiro torna-viagem é cheio de bondade e lisura: nada também de taras constitucionais; no Cego de Landim o brasileiro é uma incarnação do Vautrin, um Vautrin abeberado de vinho verde, mas ainda esse sem cachuchos nos dedos e sem as ridicularias anexas; no Eusébio Macário, como já notámos, nos Brilhantes do Brasileiro, na Brasileira de Prazins, de acordo, erguem-se esses famosos padrões da estupidez endinheirada, crassos de banhas, bestiais nos desejos, burlescos dos pés à cabeça, tais como Eça se aprouve classificá-los únicos e exclusivos da coorte[*] romântica. Quando muito, o sibarita de Bristol tolerava que variassem  a sua casaca de alpaca como Fregoli. Por dentro, em sua relojoaria e em seu dar horas, eram o sempre mesmo barão do Rabaçal.»
 
«Este foi um dos aleives, com que Camilo pôde bem, e de que era legítimo pedisse contas ao confrade mais novo e mais feliz, como gratuito que era.»
 

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«Agora não deixa de ser curioso que Eça acusasse a escola romântica precisamente daquilo que tem de se lhe levar ao activo das virtudes: o obséquio a uma realidade, que, para mais, constituía um preceito realista, o estudo patológico-social de indivíduos ou de efemérides da vida colectiva; para o nosso caso, o estudo da pessoa multiforme e proteica que foi o brasileiro que Deus haja.»
 
 

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coorte [*] 
“coorte”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa. Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/coorte 


27
Dez25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'BRASILEIRO ROMÂNTICO E REALISTA' [ 16 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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«Discursivamente ficou dito tudo o que o problema literário, já não dizemos económico, comportava? Supomos que não.
Por todo o século XIX e primeiro quartel do XX, o brasileiro era um quarto estado  em Portugal. Devia ensinar-se nas escolas a seguinte nomenclatura das classes: clero, nobreza, povo e brasileiro. Hoje já se não nota a prevalência do brasileiro. Uma sorte de cataclismo varreu a prestimosa e imensa instituição e o país está estropiado em sua orgânica. 
Escapou algum exemplar para amostra? Provavelmente, não. Mercê de muitas e várias causas, entre as quais deve ter preponderado a guerra, estancou de todo o carreiro de formigas que descrevia através do Atlântico a horda portuguesa com seus sacos de chita e baús encoirados de pêlo para fora e arabescos e iniciais de brocha amarela. Estancou, e é de crer que se não renove jamais no seu movimento recíproco de fluxo e refluxo. Não há dúvida que muita gente por essas províncias além está à espera que lhe seja possível emigrar. Se se abrissem os portos, seria um êxodo à antiga. Êxodo fatal. Uma boa maioria da que sai não volta ao berço. Além da terra portuguesa estar cada vez mais áspera para o habitante, mostra-se do mesmo passo imprópria à super-população.»
 
«No século XVIII um corregedor de Viseu dizia para o sábio Linck em digressão botânica pelas comarcas interiores: "Portugal é pequenino, mas é um torrão de açúcar". Ora,  persistindo igualmente pequeno, ou mesmo diminuto, salvo o espaço geográfico, o que possuía de doce, de blandífluo ao paladar, derreteu-se deploravelmente.»
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«Acontece que sendo cada vez mais frouxos os laços nativos, se roboram em contraste os vínculos que prendem o íncola à nova terra. Contentemo-nos em saber que no cadinho prodigioso de raças que é o Brasil, cadinho ainda em ebulição, o contingente português ir-se-á renovando de modo a manter a categoria de primeiro elemento no  «substractum» étnico de que há-de provir em definitiva o tipo histórico brasileiro

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«Com a mutação que se operou no domínio económico-social, baralharam-se da mesma forma os dados do problema literário. O brasileiro foi uma mina nas letras pátrias, rica e inesgotável como as do Rand. Camilo extraiu daí alguns dos seus diamantes pretos, e o próprio Eça, que arremeteu quixotescamente contra os literatos que não punham escrúpulo algum em requentar essa olha podrida, por lá fez transitar o pandilha do Basílio e o abalisado e bem falante senhor Castro Gomes.»
 
«Hoje ninguém lê o Brasileiro Soares de Luís de Magalhães. Ninguém o conhece, embora o romance não seja chalado de todo. Mas quantos lêem português conhecem o prefácio de Eça que saiu inserto nas Notas Contemporâneas. Ao contrário do que se infere das páginas do paraninfo, o protagonista em nada destoa do tipo clássico, crédulo, boçal, matéria de logro, espertado em sua luxúria serodia, e que para coincidir em absoluto com o padrão severamente romântico dá um tiro no peito, desvairado em seu amor traído. As personagens que gravitam à volta deste Soares, como os trocatintas do Levante à volta de Pluto, são mais postiças umas que as outras, a começar pela heroína, aquela Ermelinda, talhada à contra-luz de Eça, que punha sempre pecadoras em suas intrigas, mas que, além de pintá-las com tintas suaves, nunca por nunca deixaria de cercá-las da sua infinita piedade. E condição sine qua non, pode dizer-se, nunca lhes faltava com a sua graça.»
 
«Luís de Magalhães tirou esta Ermelinda da ignorância edénica duma aldeola minhota, insuflando-lhe a moral de megera num belo físico de hetaira [ * ]. Só por isto o livro devia desagradar a Eça, que punha uma grande dignidade em contracenar com perversos e sobretudo em julgá-los. E estamos a ver o escritor embaraçado naquela manhã de Bristol em que o correio lhe pôs em cima da mesa o manuscrito a prefaciar do seu amigo.»
«Luís de Magalhães, além de persona grata, era grande influente na sociedade portuguesa, por conseguinte destes trunfos que, mais não seja, um homem precavido, sem deixar de ser digno, vai com obsequiosa solicitude conservando de reserva para um apuro, uma adversidade imprevista.»
...
 

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«O brasileiro em questão não é, bem entendido, o habitante do Brasil, mas o nosso desgraçado compatriota que, obrigado pela miséria da lura, abalou para a terra tropical, mourejou, penou, levou muito pontapé na bunda, casou com a sinhá, filha do patrão, ou não casou, mas de qualquer modo enriqueceu e, voltando um dia a penates, trouxe toda a sua ignávia antiga, acrescida das múltiplas pechas do engorgitamento. É lógico, próprio da condição humana que assim venha a suceder, e está mesmo previsto no livro sapiencial dos Provérbios: Se queres conhecer o vilão, mete-lhe a vara na mão. A vara, está sabido, deu-lha o dinheiro.»
 

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(continua)

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hetaira [ * ]
“hetaira”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa. Disponível em:
 https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/hetaira 


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