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Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

25
Set23

"JARDIM DAS TORMENTAS" (1913) (Contos) Carta-Prefácio de CARLOS MALHEIRO DIAS - [p. 1 de 15]

Manuel Pinto

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CARLOS MALHEIRO DIAS

(Porto, 13 de Agosto de 1875 - Lisboa, 19 de Outubro de 1941)

 

 

AO SR. AQUILINO RIBEIRO.
                                        
«Acabo de voltar, lentamente, a última página do seu livro, como se me despedisse com saudade de alguém. Conservo ainda vivas as intelectuais emoções que a sua arte me provocou. Esta ruma de páginas, húmidas do prelo, considero-a como um organismo animado pelos seus pensamentos e aparatosamente vestida pela luxuosa beleza da sua arte. Um livro que se leu assim é quase como uma mulher que se possuiu, em cujas têmporas e em cujo peito, sob os nossos lábios, sentimos palpitar as artérias e arfar os pulmões. Posso dizer-lhe de memória os sítios mais belos da sua obra, onde os meus olhos se demoraram com mais regozijo, como um amante sabe lembrar-se das mais harmoniosas curvas, dos mais doces beijos, das mais inebriantes carícias, entrevistas, sorvidas e partilhadas em um lindo corpo desejado.»...
                                               (Continua)
 
 
 

 

24
Set23

"JARDIM DAS TORMENTAS" (1913) (Contos)

À MEMÓRIA DA GRETE, ELÍSIA SOMBRA, TUTELAR ORA E SEMPRE NO

Manuel Pinto
                                              Nota Preliminar
 
«Há quase cinquenta anos que não entrava neste jardim de arbustos espinhosos. Encontrei muitos ramos secos e muitas folhas mortas pelo chão.
Como fui eu o jardineiro, novel jardineiro, não se me pode levar a mal que pegue do podão e do sacho, corte, monde, rape o musgo, areie mesmo as ruas. Tudo muito ao de leve -- sem um pé de roseira a mais, nem um pé de roseira a menos, arrancar, sequer, uma silva -- de modo a manter intacta a feição primitiva.
Voltassem -- além da figurinha gentil a cuja invocação foi consagrado o Jardim e vive no meu peito -- Gualdino Gomes, esse príncipe do espírito que perdura na memória dos meus contemporâneos, embora sem um livro, sem o nome na esquina duma rua, e Malheiro Dias, pena vibrátil e malograda, meu liberal apresentante no mundo das Letras, e é ponto de fé para mim que nada teriam a estranhar.
Dessa presumida constância me prevaleço hoje para tornar a oferecer aos meus leitores fiéis esta plantação de cardos meio exóticos, um ou outro coroado ao alto duma flor rubra, que lhe dá o ar de lança que acaba de varar a ilharga um justiçado, e plantação ainda de escarapeteiros que picam as mãos.»
                                                        A. R.
                                  Lisboa, 1960.
 

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23
Set23

Aquilino Ribeiro, "É A GUERRA-Diário", (Paris, 1914). Publicado em 1934.

Manuel Pinto
PARIS/MCMXIV

 

QUARTA-FEIRA, 23 DE SETEMBRO 

 

«Estou farto de ver rostos macilentos e olhos alucinados e de adivinhar pungentíssimas tragédias por debaixo de fisionomias graves e valorosas. Tenho também, pejo de viver, válido e moço, a meio duma população de velhos, mulheres e crianças, e de arrastar por esta pobre e grande terra, coberta de luto, lavada de sangue e de lágrimas, a insolência da minha neutralidade. Espreitam-me ao passar, com suspeitosa interrogação. O estanqueiro que padece do peito diz-me com voz humilde, receoso de escorregar o freguês:

         – Ah oui, ah oui, vous n’allez pas, vous êtes étranger…

Sou estrangeiro, mas sinto a guerra como qualquer alma que esteja em espasmo, suspensa aos ruídos que chegam dos campos de batalha, interessado não pelo êxito deste ou daquele beligerante, mas dolorido sobre os infelizes que matam e morrem. Sinto-a e, ao mesmo tempo que tenho náuseas do mundo, toda se confrange em dor inútil e impotente a minha humanidade. Vou-me embora, vou fugir do adorado Paris, de tudo o que esta terra mimosa dava à farta ao gosto que tenho pela vida. Vou para a aldeia, antípoda da capital excelsa, vegetar, dormir, esquecer, pondo apenas a cabeça de fora a saber se já terminou o horrendo ataque de epilepsia universal.»

 

 Aquilino Ribeiro, "É A GUERRA-Diário", (Paris, 1914). Publicado em 1934.

 
23
Set23

"AQUILINO RIBEIRO - Através do seu Ex-Líbris", (1955)

Manuel Pinto
Luís de Oliveira Guimarães, "AQUILINO RIBEIRO - Através do seu Ex-Líbris", (1955)


 

«Quem folhear os livros de Aquilino, encontra em regra, no verso de uma das primeiras páginas, a marca do autor. Essa marca é representada por uma águia, de asas abertas, encimada pela palavra 'Aquilino'. Sabendo nós que águia e Aquilino pertencem à mesma família, não nos causará estranheza que o romancista da "Via Sinuosa" e das "Terras do Demo" haja escolhido uma águia para marca do seu sinete. Estranheza poderá causar o facto de o romancista se chamar Aquilino -- nome tão raro como os corvos brancos. Mas, melhor ou pior, tudo tem neste mundo a sua explicação e por consequência, o nome de Aquilino não podia deixar de ter a sua.O escritor nasceu em 13 de Setembro de 1885. Nessa época, e se digo nessa época porque o calendário sob este aspecto não é imutável, o dia 13 de Setembro era consagrado a Santo Aquilino. A mãe do escritor, senhora muito religiosa, quis que o filho tivesse o nome do Santo do dia em que ele nasceu, e assim foi. Esta circunstância não veio a ter -- porque ocultá-lo? -- grande influência, sob o ponto de vista litúrgico, na vida espiritual do escritor. Se não temesse ser indiscreto, eu contaria mesmo que uma dama gentilíssima mandou, um dia, a Aquilino Ribeiro um registo de Santo Aquilino acompanhado de algumas profundas palavras de catequese. Aquilino sorriu e limitou-se a comentar:

    -- Se existe já um Santo Aquilino, para que é preciso outro?
(...)
Não é, porém, aquela águia de asas abertas, que constitui propriamente o ex-líbris de Aquilino Ribeiro. Aquela águia não é senão a marca do sinete com que Aquilino chancela os exemplares das suas obras: o seu ex-líbris é diferente. Representa um cavaleiro a galope, seguido fielmente, por um cão, e tendo esta frase por legenda: «Alcança quem não cansa». Desenhou-o Leal da Câmara!
A simples citação deste nome evoca em todos nós um grande artista de múltiplas aptidões; mas evoca em mim -- e em Aquilino também -- um amigo inolvidável. Leal da Câmara!»
 
                              *
 
Examinando o ex-líbris de Aquilino, facilmente se colherá a filosofia que dele transparece. Não se torna, com efeito, difícil adivinhar que aquele cavaleiro, aquele cão e aquela legenda significam, na sua expressão alegórica, que, neste mundo, quem se cansar depressa nunca ou quase nunca alcança. É a velha história do cavaleiro e do dorminhoco. Certo caminhante, indo de jornada, encontrou uma fonte, sentou-se junto dela e adormeceu profundamente. A dada altura, foi despertado pelo tropear dum cavalo e viu um cavaleiro, esbelto e fogoso, parar junto da fonte, apear-se, beber água, dar de beber ao animal e preparar-se, rapidamente, para retomar a sua marcha:
    -- Aonde ides com tanta pressa? -- perguntou-lhe o dorminhoco, bocejando.
E o cavaleiro respondeu, logo partindo a galope:
    -- Aonde tu nunca irás, se continuares aí, dormindo!
Sim! Na vida em regra, só os que não cansam, alcançam. Ao olhar o ex-líbris de Aquilino Ribeiro, ao observar aquele cavaleiro, e o  cão e a legenda que o acompanham, vejo eu (e, por certo, todos vêem) não uma mera fantasia gráfica, embora conceituosa, mas uma síntese simbólica da infatigável existência, física e espiritual, sempre fiel a si mesma, do próprio Aquilino. Já, há quarenta anos, no prefácio do "Jardim das Tormentas", Carlos Malheiro Dias descrevia Aquilino fustigando o corcel com a sua rédea de bronze e caminhando, veloz, de feltro ao vento, sem um desfalecimento, sem um abandono, na ânsia de chegar ao Ideal, porventura inatingível, que ele próprio criara. Há quem diga que o Ideal e a Ilusão se assemelham às folhas das árvores que vão caindo, uma a uma, quando a nossa vida se aproxima do Inverno. Sem dúvida, --  excepto para certos espíritos privilegiados. Para esses, existe sempre Primavera.
(...) 
Uma tarde, encontrava-se Carlos Malheiro Dias trabalhando no seu gabinete de director da "Ilustração Portuguesa" quando lhe anunciaram a visita de Aquilino Ribeiro, que ele não conhecia pessoalmente ainda. Mandou-o imediatamente entrar, e preparou-se para receber, senão um revolucionário tremendo, de façanhuda "lavallière" preta, capaz de incendiar o mundo com a ponta dum cigarro, pelo menos um boémio insubmisso envolto numa ampla capa aventureira. Qual não foi, porém, a sua desvanecedora surpresa ao deparar-se-lhe um rapaz risonho, correctíssimo, olhos castanhos, duma grande doçura idealista vestindo um fato claro e ostentando o mais pacífico e o mais comunicativo dos sorrisos. Conversaram largamente. Acerca de política? Um pouco. Mas, sobretudo, acerca da literatura. Meia hora depois de Aquilino ter saído, entrou Rocha Martins.
    -- Sabe quem aqui esteve há pouco? -- perguntou-lhe Malheiro Dias.
    -- Não.
    -- O Aquilino Ribeiro.
    -- E que lhe pareceu o rapaz?
    -- Pareceu-me que tem boa pinta e, se fizer uma revolução, há-de ser nas letras!»
 
 

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