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Out23
SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (a.11)-IDENTIFICAÇÃO
Manuel Pinto
«Que seria da língua portuguesa sem tal desvio? Sabe-se lá! Os humanistas refrearam a língua de uma vez para sempre. Ao observá-la no ponto preciso da quebra, imagina-se quanto teria desenvolvido as qualidades de pitoresco, de graça expressiva que já possuía e, segundo o trabalho operado em três séculos, podemos concluir que conseguiria assimilar todos os seus componentes: o euscara, o céltico, o latim, o germânico, o árabe, sem deixar que nenhum impusesse seu predomínio parcial. Em vez disso, temos o português de hoje, idioma difícil, magnífico, com uma morfologia um pouco difusa, pobre em psicologia, embora rico em vocabulário, excelente para o género épico, oratório e lírico, que não precisam de muitas ideias para seduzir. Graças a Deus, a língua retomou a sua evolução. Quem julga Os Lusíadas um cume intransponível, esquece que as línguas são como as árvores de folhagem persistente; só secam quando o tronco morre. O povo português não tornou a descobrir o caminho para a Índia, mas anda a ver se moderniza a casa. Quanto a literatura regionalista, do que o dialecto é a base, temos conversado. O português só deu origem a verdadeiros dialectos nas colónias. A extensão territorial da metrópole é tão reduzida, que a variante seria inexplicável. Nem há mesmo subvariantes regionais importantes.»...






