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Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

26
Out23

SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (a.11)-IDENTIFICAÇÃO

Manuel Pinto
«Que seria da língua portuguesa sem tal desvio? Sabe-se lá! Os humanistas refrearam a língua de uma vez para sempre. Ao observá-la no ponto preciso da quebra, imagina-se quanto teria desenvolvido as qualidades de pitoresco, de graça expressiva que já possuía e, segundo o trabalho operado em três séculos, podemos concluir que conseguiria assimilar todos os seus componentes: o euscara, o céltico, o latim, o germânico, o árabe, sem deixar que nenhum impusesse seu predomínio parcial. Em vez disso, temos o português de hoje, idioma difícil, magnífico, com uma morfologia um pouco difusa, pobre em psicologia, embora rico em vocabulário, excelente para o género épico, oratório e lírico, que não precisam de muitas ideias para seduzir. Graças a Deus, a língua retomou a sua evolução. Quem julga Os Lusíadas um cume intransponível, esquece que as línguas são como as árvores de folhagem persistente; só secam quando o tronco morre. O povo português não tornou a descobrir o caminho para a Índia, mas anda a ver se moderniza a casa. Quanto a literatura regionalista, do que o dialecto é a base, temos conversado. O português só deu origem a verdadeiros dialectos nas colónias. A extensão territorial da metrópole é tão reduzida, que a variante seria inexplicável. Nem há mesmo subvariantes regionais importantes.»...
 

Canto I dos Lusíadas.jpg

Dicionario de Camoes.jpg

25
Out23

SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (a.10)-IDENTIFICAÇÃO

Manuel Pinto
...«Eis o lado detestável da Renascença em Portugal. Todavia, e ainda que animados desse espírito humanista, alguns escritores de génio, como Camões e Gil Vicente, põem-se a aperfeiçoar a língua e, apesar da escassez do vocabulário, causada em parte pela expurgação dos falsos puristas, apesar da imperfeição gramatical, criam, arranjam, adaptam.
Camões, ourives maravilhoso, resgata, na corrente do classicismo bem entendido, a obra de sujeição e de empobrecimento, executada pelos manuseadores do torno. Encarados sob este aspecto de coordenação e de construção linguística, Os Lusíadas valem a Divina Comédia. Os Lusíadas são a grande prova da língua portuguesa quando tornou a ser lusitana.
Como poema épico, não há nada de equivalente nas literaturas modernas. É a última obra-prima epopeica. Por outro lado, continua a ser o mais belo monumento da língua, desviada do seu curso natural, mas brilhante, colorida, cheia de grandeza e magnífica de movimento. Pelo seu sentido, sempre profundamente nacional, são os Vedas dos portugueses. Pelo ritmo ligeiro e sonoro, pode considerar-se este poema superior à Eneida. Não o vou comparar à  Odisseia.
A Odisseia paira acima de tudo! É o livro supremo.»...
 

Camoes e os Lusiadas 1.jpg

Esta imagem foi obtida do « DICIONÁRIO de LUÍS de CAMões », Coordenação de Vítor Aguiar e Silva, 1ª edição (Setembro de 2011). Editorial Caminho.
24
Out23

SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (a.9)-IDENTIFICAÇÃO

Manuel Pinto
 
«No falar corrente, vê-se que a língua é um instrumento feito pelo povo rude, destinado às democracias. Nem sempre é graciosa, mas é rápida e directa. À medida que se eleva, afasta-se do latim, o latim de forma um pouco sumptuosa como é próprio dos escritores do Lácio, sobretudo os da primeira fila, género Virgílio e Horácio.
E, de repente, a catástrofe! Surgem sábios e doutores em letras. Conhecem o latim a fundo, são ferozes no seu humanismo bebido nos belos espíritos da antiguidade. Que tesouros podia apresentar o novo idioma, comparado com o latim ou o grego? A cantiga do jogral, a historieta ingénua do hagiógrafo, a crónica do clérigo ao serviço do rei... Era pobrete! Ao mesmo tempo que professam um olímpico desdém pela língua vulgar, os mais puritanos rompem a compor em latim; os outros excluem do português toda a expressão duvidosa e toda a palavra que não é "castiça", isto é, que não tem raiz latina. O latim é nobreza. Banidos pois os termos cuja origem era inexplicada, e extravagâncias do falar, que tinham sem dúvida grande beleza, mas cuja fonte era suspeita, e ainda as construções que os gramáticos não podiam submeter à sua disciplina. O primeiro que codifica as regras de sintaxe, Fernão de Oliveira (1536), propõe-se trazer novamente o português ao caminho do latim: o seu esforço aplica-se na justificação da sua teoria por analogias estabelecidas entre as duas línguas. Os lexicógrafos não compõem senão dicionários latinos, um deles é célebre, uma raridade bibliográfica. Dictionnarium Latinum-lusitanicum et vice-versa Lusitanicum-latinum (1569). Um outro, em 1759, apresenta a lista de palavras e expressões a sacrificar, sob o título: "Enfermidades da língua", e deita à toa, na vala comum, verdadeiras riquezas e algumas asnidades. A gente de bom tom já não escrevia em português; o idioma elegante era o latim. Por vezes ia-se até ao espanhol. Um dos livros que gozou de justa fama na Europa, traduzido em quase todas as línguas, intitulava-se: De rebus Emanuelis gestis.»...
 

Fernao Oliveira - gramatica.jpg    gramatica fernao oliveira 2.jpg

de rebus emenuelis regis.jpg

23
Out23

SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (a.8)-IDENTIFICAÇÃO

Manuel Pinto
« (...) Certos críticos acusam-me de renovar o vocabulário, à custa da fala do povo. Em muito pequena percentagem, e todavia nunca inventando. Por via de regra, detesto o neologismo. Só por necessidade.

A verdadeira língua viva foi o povo que a fez. Uma cidade com as suas fábricas, os seus museus, os seus palácios, o seu roteiro complicado, tudo isso não é nada como obra humana comparado ao trabalho da língua. Nenhuma alma existiu que não tivesse colaborado nessa admirável construção. Sem engenheiros, sem direcção fixada antecipadamente, abandonada a si própria em absoluto, formou-se lentamente, com segurança, tornando-se cada vez mais hábil, subtil, apta a representar os fenómenos do Mundo, tanto objectivo como abstracto. Como tudo o que tende para a harmonia, tem a preocupação do menor esforço. Tem aversão ao rococó, ao mesquinho, a tudo o que é dengoso. Não gosta de constrituras e só contra vontade aceita a disciplina. A gramática como um enfaixe de múmia. Com a língua portuguesa produziu-se o mesmo fenómeno que se deve ter produzido com as outras línguas neolatinas. A filologia deitou-lhes correias em cima porventura demasiadamente cedo... Quer dizer: antes que ela tivesse adquirido a robustez precisa, para opor as resistências necessárias... Ninguém ignora que o português deriva do latim colonial, misturado com as línguas dos aborígenes, muito provavelmente o euscara, e digo muito provavelmente porque alguns problemas etimológicos, tidos como insolúveis, resolvem-se, presumo eu, com a ajuda de um dicionário basco. Este misto sofreu ainda o cunho dos povos que invadiram a península Ibérica, e beneficiou com o seu comércio considerável.Tudo leva a crer que o elemento linguístico, que se manteve preponderante, foi o elemento original, e que o latim agiu nele à maneira de um enxerto numa árvore. O germânico e o árabe incorporaram-se sucessivamente a esta seiva úbere, depois de terem deposto o que tinham de particular, como línguas já constituídas. A evolução começa a fazer-se com celeridade. Nos fins do século XVIII, o português é um idioma com estrutura própria; é mais que o latim sob a "vestimenta" bárbara. A sintaxe é irregular, a ortografia indecisa, mas encontrámo-nos, apesar disso, diante de um órgão propenso à expressão do pensamento, dotado já de coerência e clareza. Em breve viria a ser a língua musical dos trovadores e dos cronistas: é bárbara na pronúncia, mas canta sobre os lábios; não é morfanha.»...

 
21
Out23

SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (a.7)-IDENTIFICAÇÃO

Manuel Pinto

1695980691069.jpg

 
«Porquê e para quem escreve? -- perguntar-se-me-á. Não me dirijo de preferência a esta ou àquela classe. Exerço uma actividade que certo dia me pareceu tão honrosa como outra qualquer, a de lenhador por exemplo. Em Portugal há ainda um pouco de prevenção contra um ofício que mal sustenta o obreiro. Entre nós o livro não constitui um produto de primeira necessidade. Se não se quiser dormir ao relento é preciso ser mais alguma coisa do que escritor. Para o bom burguês de Portugal, a nossa profissão significa boémia. As tiragens são muito restritas. Atingir o vigésimo mil é um sucesso fabuloso. Portugal lê pouco e o Brasil procura substituir o português por uma algaraviada da mesma casta do jazz. Se o escritor de segunda ordem não pede esmola é por vergonha. O escritor desdobra-se habitualmente, em manga de alpaca. Eu fui conservador na Biblioteca Nacional como o falecido sr. Anatole Thibault. Hoje sou só romancista. Nem mesmo eleitor. Vivo das letras, o que me dá muita honra. Tenho um público fiel; gente escolhida. O povo, a terceira classe, interessa-me como matéria plástica, não como clientela. Primeiro não sabe ler e, mesmo que soubesse, não compraria livros.
Enfim, a minha obra sou eu próprio. Mas, as personagens a que procurei dar vida não são desdobramentos de mim mesmo. Frequentemente são apenas remates lógicos das personagens que cada um traz em gérmen na maneira de ser e de pensar, mas somente em gérmen. E estes gérmens desenvolvem-se nos romances, com a amplitude que permite a transposição. Houve quem se comprouvesse em me reconhecer no protagonista do romance O Homem que Matou o Diabo, fazendo o trajecto de Castela a Navarra, para ir lançar-se aos pés de uma "star". Viram-me ainda na pele do herói de um outro romance A Via Sinuosa e Lápides Partidas. Não é nada disto. A identificação tem limites.»
 
 

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