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Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

20
Out23

INTRODUÇÃO... (A OBRA E O HOMEM - Aquilino Ribeiro) de Manuel Mendes, Editora Arcádia, 1ª edição - Junho de 1960.

Manuel Pinto


MANUEL MENDES livro Aquilino --a obra e o homem.jp

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« (...) Impossível é, num breve e sumário estudo, mais de evocação do que de análise e crítica, dar a medida da figura do escritor, e apenas uma sombra da importância e significado da obra, tão vasta na densidade e variedade dos seus livros, ao mesmo tempo complexa pela intenção, admirável de originalidade, rica pelo poder de realização. Diremos do homem, em resumo, que deveras encarna o que a subtileza de Cecília Meireles viu nele -- o que é «tão português como o próprio Portugal» --,  e melhor não se pode definir, decerto, o artista que trouxe a nossa Terra e o nosso Povo para o tablado da ficção romanesca, criando obras imortais, em que no conflito das dores e alegrias, nas imprecações e nos sarcasmos, o Povo representa o primeiro papel, sobre o fundo de um cenário a que desde sempre se afeiçoaram os nossos olhos. Isso bastará para inteiramente o definir, nas justas proporções da sua estatura, na realidade de tão impressionante presença.
O leitor vai ouvi-lo, em algumas páginas de confissão, em trechos em que descreve a sua vida, evoca certas idades, nos fala principalmente de si. Apreciará o seu engenho, saboreará a sua magnífica prosa. Isso basta. Acrescentaremos, para bem o colocar no quadro da nossa época, que a sua arte sabe ao que é eterno, o seu nome de escritor e a sua obra ficarão como imorredoiros padrões da nossa literatura -- «clássico vivo» lhe chamam --, e isto constitui para nós, homens do seu tempo, motivo de bem justificado orgulho, espectáculo de grandeza que nos é dado desfrutar.»
 
             Ajuda, Janeiro de 1960.
 

MANUEL MENDES.jpg

 Manuel Mendes, 1944
(Lisboa, 18 de Janeiro de 1906 -- Lisboa, 7 de Maio de 1969).
 
 

consultorio dr Pulido Valente.jpg

O grupo do consultório do professor Pulido Valente” (1955) (Abel Manta,1888-1982)

(Da esquerda para a direita e de cima para baixo, respectivamente – Vasco Ribeiro dos Santos, Mário de Alenquer, Fernando Lopes Graça, Manuel Mendes, Sebastião Costa, Luís da Câmara Reis, Abel Manta, Aquilino Ribeiro, Ramada Curto, Carlos Olavo, Pulido Valente, Alberto Candeias)

 
19
Out23

SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (a.6)-IDENTIFICAÇÃO

Manuel Pinto
«A minha obra contrasta com as condições em que foi realizada. O meu livro, Terras do Demo, o mais «terra-a-terra», aquele em que camponeses e animais vivem uma vida primitiva (estabeleço para os animais do Pai do Céu um estado civil como Jules Renard) compu-lo no meu gabinete D. João V, sobre uma mesa de boa talha, cercado por gravuras e quadros, de um estimável e bem agradável conforto. Em compensação, Filhas de Babilónia, cujo tema é do mais requintado, foi escrito numa porta deitada sobre dois troncos em x. Esta dualidade de existência e de inspiração, devo-a a um diabrete astuto que me acompanha desde o berço e do qual espero fazer um herói de romance para me vingar. Afinal é a vida outra coisa? No meu gabinete tenho diante, no muro da esquerda, um Cristo, acentuadamente gótico, contraído pela dor. Um pequeno Sileno, em mármore de Paros, que me trouxe da Grécia um cônsul amigo dos homens de letras, ocupa uma prateleira à direita. A minha vida literária oscila assim entre o espiritual e a realidade.»

Jules Renard.jpg

     Jules Renard 

(Châlons du Maine, Mayenne, 22 de Fevereiro de 1864 - Paris, 22 de Maio de 1910) 

18
Out23

SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (a.5)-IDENTIFICAÇÃO

Manuel Pinto
«O meu primeiro livro, contos, teve por título, Jardim das Tormentas. Com isso evocava Mirbeau que admiro ainda. O principiante, à procura de um título, acaba muitas vezes por escolher um, que não é senão o pobre eco, ou a má adaptação do título de uma obra célebre.
Editado em Paris, em 1913, foi saudado pela crítica como um bom presságio. Na realidade, anuncia a minha obra. Revela os meus gostos e as minhas tendências sociais, as influências sofridas, os assuntos que já me atraíam e que, com a continuação, viria a tratar. Foi a première do meu teatro de fantoches. O homem infeliz, o eterno sofredor e por outro lado o homem erguido acima da sua condição por um golpe da sorte ou da vontade, esses tipos principais na minha obra, fazem aqui a sua aparição. Já aí me mostro apaixonado da natureza, à maneira dos impressionistas. A natureza goza, nos meus livros, de uma insuspeita personalidade. Para mim o homem só conta no seu meio, tanto físico como social. Quero-o evolucionando no cenário que lhe é próprio. E cada ser ou cada coisa à volta, um amigo, um cão, uma árvore, desempenham o seu pequeno papel, têm pelo menos importância documental.
Podia-se, facilmente, assinalar neste livro, além da influência de Anatole France e um pouco de Barrès, a de Tolstoi e dos portugueses Fialho e Eça. Neste «jardim» circulam, com efeito, os vagabundos e os sonhadores que se encontram em todos os meus romances, mas ao lado desta gente, que professa um desprezo plausível pelo Mundo, há aqueles mais numerosos, que trincam avidamente a maçã da vida. Esses são projecções do meu eu. Tanto amo a vida nos seus prazeres eternos, aqueles que já conhecia o nosso pai Adão, a boa mesa, o amor, a ociosidade depois do trabalho, como nas belas coisas que nos oferece o progresso, a maquinazinha com que escrevo os meus livros, e o automóvel que me permite transportar-me para a minha casa serrana. De resto, ama-se a vida com certa precaridade. É uma espécie de paludismo. Hoje, pela sombra que se espalha sobre o Mundo, pela baixeza dos preconceitos de que a animalidade humana está cada vez mais envenenada, que valor se pode dar à vida!»

Mirbeau.jpg

Octave Mirbeau

(Trévières, França, 16 de Fevereiro de 1848 — Paris, 16 de Fevereiro de 1917)

17
Out23

SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (a.4)-IDENTIFICAÇÃO

Manuel Pinto
«Mergulhando as suas raízes num tal húmus, a literatura espanhola reveste-se de um cunho singular, muitas vezes impenetrável. Ela é, sobretudo, rica no sonho e na caricatura. Para o espanhol, o homem mais insatisfeito do Universo, tudo serve de pretexto ao sarcasmo. O sarcasmo da amargura. Os pintores, os filósofos, os dramaturgos, os romancistas, Velasquez, Goya, Raimundo Lulle, Cervantes, Calderon, no que mais brilham é na incisão duma máscara, no fazer surgir estados de almas atormentadas e místicas. Aí reside o génio inimitável da raça. Ora numa proporção, mínima talvez, creio ter herdado essa qualidade soberba dos nossos irmãos espanhóis. Se não a herdei, admiro-a, pelo menos, e esta admiração bastaria para explicar que uma influência da literatura espanhola, sobretudo a picaresca, se note em mim. Quem lê Cervantes, o seu Dom Quixote ou as Novelas Exemplares, não pode esquecê-lo. Alcoviteiras e casamenteiras; gata-borralheiras de estalagem e meninos bonitos depravados; aristocratas piolhosos e velhos aldeões enriquecidos pela usura; lágrimas caídas dos olhos dos anjos e risos que fazem ranger os dentes negros do demónio, eis o mundo feérico e destravado de Cervantes, que não deixa de atormentar o pensamento de qualquer romancista, de tal forma é espantoso de vida e de dor.»
 

Cervantes.jpg

Miguel de Cervantes 
(Alcalá de Henares, 29 de setembro de 1547 – Madrid, 22 de abril de 1616)

 

16
Out23

SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (a.3)-IDENTIFICAÇÃO

Manuel Pinto
«Quanto a influências, é provável que a minha obra tenha sofrido o ascendente da literatura espanhola do século XVII. Li-a bastante e é difícil escapar ao seu ácido realismo, ao vigor dos seus quadros de uma humanidade viva e borbulhante. Em Espanha, há sempre que explorar. Pegue-se num castelhano: é uma contradição desconcertadora. Que poderia produzir a fusão da personagem fantástica, heróica e orgulhosa, sonhadora e extremamente activa, de que Aníbal fez o guerreiro temível que os romanos venceram mas não curvaram, com o árabe audaz e desconfiado, sem escrúpulos morais e imbuído de pundonor? Sem dúvida o espanhol, como o português, deve mais ao tipo de origem do que às raças que vieram enxertar-se no tronco ibérico. Os romanos colonizavam como fazem hoje os ingleses, sem grande desgaste dos seus. Os bárbaros correram através da província e foram perder-se em África. E a invasão árabe não foi senão uma torrente, depressa estancada. Os árabes, contudo, deixaram em Espanha a espuma do seu génio. Isso bastou para dar um aspecto característico ao temperamento espanhol, que daí resultou complicado, absurdo e versátil. Vejamos Séneca, que nasceu em Córdova: não é o mais inverosímil dos filósofos?»
 

Seneca.jpg

Séneca (Córdova, 4 a.C. – Roma, 65 d.C)

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