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Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

09
Out23

"JARDIM DAS TORMENTAS" (1913) (Contos) - Carta-Prefácio de CARLOS MALHEIRO DIAS - [p. 15 de 15]

Manuel Pinto

 [p. 15/15]

AO  SR.  AQUILINO  RIBEIRO

«As letras portuguesas possuem hoje mais um admirável artista, que se incorpora na dinastia dos grandes escritores. Eu me considero feliz, Sr. Aquilino Ribeiro, de admirá-lo e de estimá-lo, pois são para mim inefáveis prazeres — e tão raros vão sendo — o poder admirar e o saber estimar.»

Lisboa, 1913.

                                                       CARLOS MALHEIRO DIAS

 

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08
Out23

"JARDIM DAS TORMENTAS" (1913) (Contos) - Carta-Prefácio de CARLOS MALHEIRO DIAS - [p. 14 de 15]

Manuel Pinto

[p. 14/15]

AO SR. AQUILINO RIBEIRO

«Tão-pouco me atrevo a revistar e inventariar os encantos e as intenções de cada uma das onze peças literárias que constituem o seu livro.

Se me atrevesse a entrar nesse labirinto de beleza, só depois de demorada excursão conseguiria encontrar a saída. A sua obra não é das que necessitem de um cicerone e a mim se me afigura impertinente pedantismo apregoar como num leilão as jóias do seu estilo e aplicar-lhes a lupa duma enfatuada análise para quaisquer avaliações estimativas. O escritor que traz à literatura portuguesa esses quatro contos que são À Hora de Vésperas, A Pele do Bombo, Os Ladrões das Almas e O Remorso, fica-lhe desde esta hora devendo um romance regional onde formigue, reanimada pela vida do seu talento, toda a comparsaria rústica da Beira, pois é preciso ascender até ao Dostoievski dos Irmãos Karamazov para encontrar, na vidência genial que dos humildes possuía o espantoso eslavo, um termo de comparação para algumas das suas pinturas veementes de almas. Por menos que se afeiçoem às minhas predilecções de impenitente idealista os assuntos em que de preferência se exercitam as suas curiosidades inexoráveis de analista, e embora deplorando vê-lo desperdiçar um tesouro opulentíssimo de imagens com um velho tema como o da satiríase sacrílega do arcebispo de Córdova, o sortilégio da sua frase permanentemente me enleva. Páginas como a da descrição da Catedral, nesse citado conto; outras duma tão atilada filosofia, vertida numa prosa sonora em que se cuidam ouvir reminiscências auditivas do ritmo majestoso de Flaubert; e as desse elegante Os Senhores de Montalvo, cuja acção, tão magistralmente conduzida, lembra a do Barba-Azul, são verídicas obras-primas.»...

                                               (Continua)

07
Out23

"JARDIM DAS TORMENTAS" (1913) (Contos) - Carta-Prefácio de CARLOS MALHEIRO DIAS - [p. 13 de 15]

Manuel Pinto

[p. 13/15]

AO SR.  AQUILINO RIBEIRO

«Decerto, para que toda a orquestra dos seus sentidos assim atingisse este grau de afinação, é que os instrumentos eram excelentes. O Sr. Aquilino Ribeiro tinha em si estradivários... E eles começam soando maviosamente, exalando notas que extasiam! Mas, para quem imagina estar escrevendo as suas sábias sinfonias de palavras? Porventura acredita que existem na república duas dúzias de sensórios organismos que o entendam? Há, para exemplo, no seu conto irregular, se bem que prodigioso, a que chamou Inversão Sentimental, arpejos de pensamentos penetrantes, no estilo dos de Anatole France no Lys Rouge, que, sendo do melhor que a sua argúcia produziu, hão-de sempre ficar para os seus leitores portugueses incompreensíveis. Nessas páginas deixou, pelo contraste entre a Surflamme e a nacarada Ninette, a mais surpreendente, subtil anotação do instinto voluptuoso da mulher que de há muito meus olhos de leitor têm encontrado em tantos livros folheados, percorridos com tédio ou com deleite. Viu por dentro, com o espéculo, todo o mistério do sexo inimigo. Ter uma mulher, possuir uma mulher de temperamento libidinoso, integralmente, desde o mais imperceptível arrepio da carne ao mais volátil pensamento do cérebro — eis aqui uma ambição que só ainda o homem pré-histórico que é o português pode abrigar, e que só ele talvez possa obter de alguma Ninette da província. Quanto mais avança no espaço social e no tempo, mais a mulher se intensifica em sensitiva, à qual se não adaptam já as obsoletas regras da análise masculina... Tenho eu um amigo, espécie de Musset fundido em árabe, que amou até ao delírio uma dessas mulheres sensitivas, que o adorava e mentalmente lhe era infiel a cada instante. «Tira-me daqui — dizia-lhe uma noite, num cabaret de Montmartre, essa amante escrupulosa. — Pois tu não sentes que, sem deixar de amar-te, os meus sentidos te atraiçoam a cada perfume que passa, a cada carícia que surpreendo, a cada olhar de vício que descubro?» E este homem feliz, que possuía esta feminina avis rara, era infeliz como um pobre tolo... Na aspiração da sua Surflamme de ter mil almas... para dar quinhentas ao seu amante, guardando as restantes quinhentas para dissipar à toa, o Sr. Aquilino Ribeiro desenhou toda a mulher na contextura mais íntima da alma. Não tento sequer a empresa árdua de refazer, com variantes de palavras, nesta prolixa referência, as suas subtilezas analíticas. Desejo apenas entremostrar-lhe que as entendi e saboreei.»...

                                                              (Continua)

06
Out23

"JARDIM DAS TORMENTAS" (1913) (Contos) - Carta-Prefácio de CARLOS MALHEIRO DIAS - [p. 12 de 15]

Manuel Pinto

[p. 12/15]

AO  SR. AQUILINO RIBEIRO

«Mas são bem, na verdade, contos todos os seus contos? Não se melindrará a sua presunção, se eu lhe disser que como tais a alguns não considero? Os seus entrechos revelam-se tão frágeis que se quebram antes de chegarem ao fim. Pulverizam-se. Lembram-me repuxos de cristalina água, que no cume do jacto se desfazem numa húmida e irisada poeira. A sua acção, como o jorro de água, eleva-se impetuosa, mas logo, mal as iluminações dos seus pensamentos a toucaram e a matizaram, dilui-se num nevoeiro radiante. As suas acções são, por vezes, meros temas sinfónicos para desenvolvimento de motivos orquestrais. Assim, em A Tentação do Sátiro, a narrativa da noite com seus trilos de aves, os seus suspiros de rouxinóis, os seus sussurros maviosos de águas e as suas aragens balsâmicas de floresta e de jardim, a narrativa de D. Mafalda no leito me aparecem como pinturas literárias da mais esplêndida inspiração, quer na originalidade primorosa da composição sintáxica, como na vibração emocional que as electriza. Pelo arranjo e cadência do estilo, esse seu conto lembra o do Enforcado, do Eça. E já que este nome prestigioso do grande artista desceu a esta epístola, devo mais dizer-lhe que outro escritor ainda em Portugal como o Sr. Aquilino Ribeiro não conseguiu surpreender e aplicar os segredos da sua esbelta e fina arte e da sua adjectivação elegantíssima à sonora linguagem portuguesa. Com a sua imponderável e imanente lição de bom gosto, Paris parece adestrar as penas dos homens de letras por via duma sugestão imperiosa...»

                                            (Continua)

 

05
Out23

"JARDIM DAS TORMENTAS" (1913) (Contos) - Carta-Prefácio de CARLOS MALHEIRO DIAS - [p. 11 de 15]

Manuel Pinto

[p. 11/15]

AO SR. AQUILINO RIBEIRO

«Poucos, talvez, tenham a admiração mais pródiga do que eu: mas ninguém tem a lisonja mais avara. Admirar é um dos predilectos recreios do meu espírito. Lisonjear é um dos irreprimíveis aborrecimentos do meu carácter. E, posto isto, eu preciso declarar-lhe, sem mais formalidades, sem cuidar em pensar se estes dizeres o sensibilizam ou ensoberbecem, que esta linguagem vibrátil, nervosíssima, onde há cordas sonoras que vibram às ondulações mais imperceptíveis, dos seus contos, soa aos meus ouvidos como a linguagem de um Cellini da prosa, e quem a escreveu na sua idade juvenil é, desde agora, um dos grandes virtuoses do estilo.»...

                                                     (Continua)

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