[p. 13/15]
AO SR. AQUILINO RIBEIRO
«Decerto, para que toda a orquestra dos seus sentidos assim atingisse este grau de afinação, é que os instrumentos eram excelentes. O Sr. Aquilino Ribeiro tinha em si estradivários... E eles começam soando maviosamente, exalando notas que extasiam! Mas, para quem imagina estar escrevendo as suas sábias sinfonias de palavras? Porventura acredita que existem na república duas dúzias de sensórios organismos que o entendam? Há, para exemplo, no seu conto irregular, se bem que prodigioso, a que chamou Inversão Sentimental, arpejos de pensamentos penetrantes, no estilo dos de Anatole France no Lys Rouge, que, sendo do melhor que a sua argúcia produziu, hão-de sempre ficar para os seus leitores portugueses incompreensíveis. Nessas páginas deixou, pelo contraste entre a Surflamme e a nacarada Ninette, a mais surpreendente, subtil anotação do instinto voluptuoso da mulher que de há muito meus olhos de leitor têm encontrado em tantos livros folheados, percorridos com tédio ou com deleite. Viu por dentro, com o espéculo, todo o mistério do sexo inimigo. Ter uma mulher, possuir uma mulher de temperamento libidinoso, integralmente, desde o mais imperceptível arrepio da carne ao mais volátil pensamento do cérebro — eis aqui uma ambição que só ainda o homem pré-histórico que é o português pode abrigar, e que só ele talvez possa obter de alguma Ninette da província. Quanto mais avança no espaço social e no tempo, mais a mulher se intensifica em sensitiva, à qual se não adaptam já as obsoletas regras da análise masculina... Tenho eu um amigo, espécie de Musset fundido em árabe, que amou até ao delírio uma dessas mulheres sensitivas, que o adorava e mentalmente lhe era infiel a cada instante. «Tira-me daqui — dizia-lhe uma noite, num cabaret de Montmartre, essa amante escrupulosa. — Pois tu não sentes que, sem deixar de amar-te, os meus sentidos te atraiçoam a cada perfume que passa, a cada carícia que surpreendo, a cada olhar de vício que descubro?» E este homem feliz, que possuía esta feminina avis rara, era infeliz como um pobre tolo... Na aspiração da sua Surflamme de ter mil almas... para dar quinhentas ao seu amante, guardando as restantes quinhentas para dissipar à toa, o Sr. Aquilino Ribeiro desenhou toda a mulher na contextura mais íntima da alma. Não tento sequer a empresa árdua de refazer, com variantes de palavras, nesta prolixa referência, as suas subtilezas analíticas. Desejo apenas entremostrar-lhe que as entendi e saboreei.»...
(Continua)