ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 58) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DO BERÇO À NAU S. BENTO» {c. XII de XVIII} * [ vol. I ]
XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.


«Proventos de Luís de Camões. A poesia era um pequeno mester remunerado.»
«O Cancioneiro Geral regista nada menos de duzentos e oitenta e seis nomes de poetas no período compreendido entre a metade do século XV e os primórdios do século XVI. A primeira impressão é que proliferavam como os gafanhotos e que deviam cantar apenas uma sazão como as cigarras nos trigais do Alentejo. Mas seriam todos vates? Possivelmente não. Todos eles se apresentavam, sim, à hora própria nos serões, nos jogos florais ou nada mais que a depor no regaço das noivas ou namoradas, com o camafeu romano, a peçazinha rimada encomendada ad hoc ao bom versejador. Versejar era mester afim do iluminista ou do calígrafo...»
«Estava-se longe do conceito estético -- arte pela arte. Não se faziam versos pelo prazer espiritual de obter rimas de cadência melódica ou pensamentos ternos suspensos de rendas verbais. Versejava-se sempre com um fim: cortejar uma dama, lisonjear personagem influente, comemorar acontecimento de importância familiar ou patriótica, celebrar o beato taumaturgo. Foi preciso que viesse o romantismo para que os poetas obedecessem à inspiração ou voz interior que os manda cantar como aos rouxinóis. A poesia heróica, tão florente que não há batalha que não tenha o seu épico, documenta aquele conceito de boa utilidade.
Os vates quando teciam os seus vilancetes sobre um mote obedeciam pois a um propósito. As trovas de Camões feitas para acompanhar a oferta duma carta de alfinetes o estão a confirmar. Presidia sempre uma objectividade específica à lavra poética. E todas estas glosas, tantas dessas voltas em heptassílabo podem considerar-se como que produtos cognatos das quadras que vêm picadas nos vasos com manjericos que se vendem pelo Santo António e São João.»



«A vida dolorosa do poeta.»
«Supondo que os amigos do poeta eram bastos como tortulhos e poderosos como cônsules, não impediu que duas vezes, pelo menos, catrambiasse no Tronco, e uma vez com certeza fosse parar ao degredo, marcos miliários da interminável via da amargura que foi a sua existência, tanto ou tão pouco espinhosa que a mão de D. Gonçalo Coutinho, movida não se sabe a que impulso, lhe gravou na campa a legenda justiceira e tremebunda: Viveu pobre e miseravelmente e assim morreu...»
(continua)






























