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Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

27
Jul25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'PRIMEIROS ESCRITOS' [ 2 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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(continuação)

«Surgiu a decantada questão de Coimbra, que, enfim de contas, mal arripiou a quietude pantanosa da vida mental portuguesa. Nós hoje, avaliando-a pela soma de pólvora que parece ter-se queimado de parte a parte, pelo palhagal de papel impresso que produziram os prelos, pelo ardor duns, a iracundia e ressentimento de outros, consideramo-la uma tempestade magnífica, espécie de convolvo sísmico que demoveu para outros eixos as coordenadas  da esfera literária.»

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«Entretanto Eça, ensaiados os primeiros passos nas letras, ocioso pela certa, sob o acicate porventura da necessidade, aceitou dirigir, melhor, confeccionar o Distrito de Évora. Em realidade dentro da gazeta provincial é nem mais nem menos aquele jornalista que na Voz do Distrito, em Leiria, figura no Crime do Padre Amaro: Agostinho fazia o fundo, os locais, a correspondência de Lisboa.
Aquela folha para ele teve o mérito de ser a pedra de esmeril onde afiou e damasquinou a pena. De número para número, o gongórico alija as louçanias de mau gosto e a mania de remascar o esquisito. O pensamento, as raras vezes que pensa de sua cabeça, clarifica-se. O estilo ganha simplicidade sem perder os tons de joalharia importada da Rue de la Paix. De facto escreve, se não veste ainda, pelo figurino francês. A frase vai adquirindo aquela curva melódica que a balanceia da proposição principal para as coordenadas mercê dum desenvolvimento expresso por epítetos duma cromática inédita e luminosa. Mas que chuveiro de barbarismos!»
 

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«Eça, primeiro, depois Fialho, com o desdém que lhes merecia um idioma aviltado por uma choldra de plumitivos sem miolos nem originalidade, ao serviço dos dez réis de Eduardo Coelho e do caciquismo de S. Bento, instituíram a escola do arbitrário em literatura. E os discípulos acorreram em récuas.
Pois que se voltava ao caos, quem quer luzia nome de escritor. As três dimensões da língua, que são o sujeito, verbo e atributo ensinados pelos caturrentos padres-mestres, passaram a não regular coisa nenhuma. Cada um escrevia como lhe dava a real gana.»
 

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«Além da francesia da forma, torna-se visível a quem compulse os seus primeiros escritos, que Eça de Queirós não punha grande recato em aproveitar-se do que era dos outros. Em aproveitar-se, chamando-lhe seu. Uma frase com sainete, uma adjectivação feliz, um pensamento singular; aquilo que é de bom quilate e por azar não brotou ao bico da pena; a imagem que assentaria como uma luva em tal ou tal lance da narrativa e que não ocorreu aos olhos do entendimento; a nota psicológica que vai a matar no indivíduo de tal e lhe dá carácter como o grão de beleza põe especial salero na face duma mulher bonita -- desde menino que se habituou a tirá-los para o seu cofre de jóias lá donde estivessem. E não seria ele capaz de forjar outras iguais, se não superiores? Se era! Pois que as tem de sua lavra, aquela pecha entra para o seu complexo de inferioridades, manifesto desde que pela primeira vez pegou da pena para exercer a maravilhosa sina. Até ao fim da carreira, Eça sofrerá de cleptomania literária.  Zoilos e críticos honrados andaram pelo sua seara mondando o que não era estrictamente seu; enchem uma algibeira essas belas insignificâncias doutros senhores. Mas ele não precisava de descer a tão mesquinhas e breves deselegâncias, estamos certos disso. E que o fizesse por menos consideração para com os lorpas da sua terra; pela tentação que exercia em seus sentidos a rutilante gema preciosa; por equívoco mental, acabando por confundir-se-lhe na retina o seu, que era admirável, com o alheio, que admirava; por menos escrúpulo de consciência -- ele próprio, um nababo, teria pejo, chamado ao pretório, pelas migalhas especiosas de que indevidamente se apropriou.»
 

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«Esse caderninho que Eça trazia no bolso cimeiro do jaquetão e que, imprevistamente no meio da conversa ou no decurso das leituras, sacava para anotar um dito, uma facécia, um qualificativo invulgar, que não nos desse a procedência, dar-nos-ia a amostra das pedrarias preciosas que apanhou assim às rebatinhas e engastou a primor nos adereços e cruzes abrolhadas da sua obra deslumbrante.»
 
 
* * * * * * *
 
23
Jul25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'PRIMEIROS ESCRITOS' [ 1 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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«Quando em 1866 surgiu na Gazeta de Portugal o nome de Eça de Queirós, a revista estava em franco declínio. Descortina-se isso hoje perfeitamente com a nitidez de visão de que beneficiam as coisas espirituais a distância. Estava em franco declínio e tal facto explica o acolhimento que acertou receber Eça, estreante de prosa apocalíptica, destituída de bom senso e de gramática, mascavada de francesia -- bárbara veio a titulá-la um seu compilador e figura relevante do cenáculo.
Na Gazeta pontificava António Feliciano de Castilho, hierofante na reverência que lhe tributavam e ele exigia, e, ainda que meteoricamente, aparecia Camilo com um destes retalhos de prosa que ofuscavam todo o resto.»

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«A revista em decadência, a meter água, de colunas em branco, as colunas dos hebdomadários à míngua de colaboração, longas e desesperadoras como léguas das velhas, pegou do manuscrito que lhe levava o inesperado samaritano (Eça) sem lhe provar sequer o travor. A estreia devia ter sido bafejada por estes ventos mornos do descampado.
Riam-se dele? Sim, riam-se dele, uns com a conspícua suficiência de quem eram, outros bolónios de todo. Parece que o próprio director, António Augusto Teixeira de Vasconcelos, o não tomava muito a sério. Realmente não se podia conceber nada de mais rebarbativo para o tempo que a forma das Notas Marginais : ...

... ... ...

Este fraseado que arrepelava a sintaxe e o siso do discurso: "rasgavam com os ossos dos cotovelos as carnes moles" e "voluptuosidades mais mórbidas que os orvalhos da lua" era para fazer dar pulos de sagúi ao velho bonzo do Castilho e arrancar uma gargalhada de gozo, se a hipocondria o não atanazasse, ao cenobita de Seide.»

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«Camilo, é verdade, começou a olhar para o jovem criminoso com ar divertido. Embora espírito alevantado e sensível a todas as radiações novas, mas com centro de gravidade no senso comum, nada mais natural que se sentisse em relação a ele como Hércules perante um súbdito da rainha Pigas. Em carta dirigida a Castilho, datada de 1866, quando Eça já ia levado imperturbavelmente Gazeta em fora, lavrando em todos os números o mesmo pechisbeque, perpassa um breve frouxo de mofa: "Esperemos a primavera. Olhe que isto aqui está frio. O quintal está plantado de couve, fava e ervilha. O sol tem umas frialdades moles, como diz um Eça de Queirós nos folhetins da Gazeta de Portugal"

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«Camilo, anos andados, lançava, sim, uma profecia que equivale à diagnose segura da carreira que Eça mal começava de tentear: "Este rapaz vem  tomar a vanguarda de todos os romancistas". Palpita no intuspectivo de tais palavras a fatalidade inexorável a que está adstrita a evolução das coisas. Mas com elas também é certo que o gigante queria exprimir que tão pouco tinha medo de competições como das sombras que subiam do Orco para o tragar.»

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«Não é menos fora de dúvida que um escritor da craveira de Camilo olhe com mais curiosidade para o nascer do sol do que para o ocaso. Todos os que apareciam a bater um coturno singular ou com ares de novo no proscénio das letras o interessavam. Aos cadáveres embalsamados da Acrópole tratava, sim, com obséquio formal. Nem sempre lhe era despiciendo o seu pitoresco; a sua experiência filológica; a sua cortesia circunspecta; a seriedade por vezes cómica das suas dramatis personae.
Embora a correspondência trocada pareça testemunhar comércio útil e fervoroso com este e aquele, nada no fundo mais fátuo. Camilo era um homem que possuía em grau muito inferior o poder de iludir-se.»
...
«Sempre que o móbil pessoal, estima ou desafecto, não lhe influenciava a pena, o parecer e crítica de Camilo eram modelos de acuidade e de observação».

 

(continua)

15
Jul25

ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 71) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DO BERÇO À NAU S. BENTO» {c. XVIII de XVIII} * [ vol. I ]

XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.

Manuel Pinto

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«Resgate. Inscreve-se para a milícia do Oriente. Os registos da Casa da Índia. A absurda falsificação. Soldado raso. Erros seus, má fortuna...»

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«O alistamento revestiu o fácies duma imposição, de modo algum de acto voluntário. A carta de perdão é clara. Naquele tempo, faziam-se soldados, libertando-os das cadeias a troco de resgate da pena, ou de meio resgate como sucedeu com Luís de Camões, que, desembolsando quatro mil réis 'pera piedade', cobrou como antecipação do seu soldo a avultada quantia de dois mil e quatrocentos réis. O indulto tem de ser interpretado como um bom negócio para a fazenda real.»
...
«É de notar que no primeiro assento que se lavrou do alistamento do poeta para a Índia se lhe acentuem os traços característicos da fisionomia, como barbirruivo, e não venha indicado que era cego de um olho, não cego de gota serena, o que poderia iludir os oficiais do serviço, mas olho vazado, consoante o pintam.»

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«O facto de Luís de Camões ter sido arregimentado para servir na Índia nas tropas de linha, ter indicado vinte e cinco anos como sendo os da sua idade, quando para o alistamento se requeria gente moça e viril, levam a crer que tivesse aquela Idade ou menos ainda. Só com a temperatura dos verdes anos se coadunam os feitos de impulsivo que o levaram à cadeia.»
 

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«Partiu Luís de Camões de Lisboa um Domingo de Ramos, em plena Primavera, com a morte na alma e lágrimas nos olhos. Embora tivesse vinte e cinco anos, ao seu coração pesado nem era elastério a esperança
 

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«Segundo a carta expedida já da Índia (*CARTA TERCEIRA) as últimas palavras que proferiu seriam as de Cipião Africano: Ingrata patria, nom possidebis ossa mea. (Ingrata pátria, não possuirás os meus ossos.). Camilo, que nunca viu o mar, chasqueia destas palavras prosopopaicas, mas doloridas. O pobre tê-las-ia escrito sem aquilatar, ou pelo menos, medir em seu espírito a ressonância presunçosa que subentendem. Não eram para vir a lume.»
 
 
 
 

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FIM DO VOLUME I

( PRIMEIRA PARTE - Do berço à nau S. Bento )

10
Jul25

ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 70) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DO BERÇO À NAU S. BENTO» {c. XVIII de XVIII} * [ vol. I ]

XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.

Manuel Pinto

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Luís de Camões acutila. Ódios que viriam de longe. A procissão do Corpus Christi. Rixa desastrada. Golpe de peão contra cavaleiro. O que era o Tronco. Porventura valeram ao recluso as lágrimas da mãe. Nenhum prócer interpôs a mão. 

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«Os dois bandos deviam medir forças a céu aberto e nas casas das rameiras, desalojando-se dumas e instalando-se noutras, como em cidadelas. Acaudilhava a um provavelmente Simão Rodrigues com o Gonçalo Borges por lugar-tenente. 
Foi neste estado de despique e acesa rivalidade que se deu a briga da festa do Corpus Christi. Andava o tal Borges flotriando o seu cavalo no Rossio, quando, ao caminhar para a Rua de Santo Antão, se defrontou com dois cavaleiros mascarados.» ...
 

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«Os dois mascarados romperam em chufas contra o Borges, que por modos era assomadiço. E, palavra puxa palavra, arrancaram das espadas. Foi neste momento que Luís de Camões, reconhecendo o Borges, ou reconhecendo os mascarados como alega em sua defesa, o que é pouco verosímil, se aproximou e, sem tir-te nem guar-te, levado por um impulso que supõe ofensa antiga a vingar, lhe descarregou uma espadeirada pela nuca... Seja como for, o Gonçalo soltou brado, os dois provocadores escaparam-se, e Luís de Camões foi preso
 

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«A rixa com Gonçalo Borges devia derivar, pois, de longo e acirrado acinte entre as duas maltas, a uma das quais pertencia o poeta. Porventura ele e o Borges houvessem tido recentes dares e tomares. Camões topou-se com ele, e perdendo as estribeiras, não lhe perguntou por onde as queria...
O poeta foi encarcerado noTronco. ...
 
«O nome (Tronco) vinha-lhe, ao que consta, dos cepos com argolas e correntes a que eram amarrados os presos pelo pescoço e pelos pés. Tal como aos bois quando vão a ferrar. Em 1567 foram, nos termos duma Carta Régia, compradas as casas "em que soya estar o Tronco" para se fazer uma cadeia no sentido rigoroso do termo. Construiu-se então uma verdadeira prisão, ampla, com masmorras e enxovias à altura. Imagine-se, pela fama que deixou, o que seria o antigo casarão, nojento, piolhoso e latrinário ergástulo, tão medonho como os cárceres do Santo Ofício, mas incomparavelmente mais reles na escala da indecência.
 

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«Nesta ignóbil cadeia permaneceu Luís de Camões desde 16 de Junho de 1552 até 13 de Março de 1553, cômputo feito pela data da carta de indulto. Nove meses, menos três dias! Quem intercedeu por ele? Nenhum dos amigos, evidentemente, de quem os lautos biógrafos e nobilitadores do seu brasão fazem garbosa açudada.»
... ... ...
 
«Não se derrancou no cárcere porque teve alguma alma boa que se matou a pedir por ele. Provavelmente sua mãe, sem outra recomendação que as santíssimas lágrimas, derramadas aos pés do Borges e dos ministros de El-rei.»
 

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«O indulto real trocava-se contra os quatro mil réis de imposto, um dinheirão ao tempo, e o alistamento para a Índia. No fundo, equivalia à alternativa do degredo em possessão de primeira classe, segundo o Código Penal dos nossos dias.
Onde iriam os pais de Luís de Camões desencantar os quatro mil réis com que se esportularam, sem o que não se abririam para o filho as grades do Tronco? Já havia penhoristas, e D. Ana de Sá teria acarretado para o préstamo suas jóias e quanto lhe desse moeda. 
Alistou-se pois Camões na milícia da Índia, no posto de homem de armas, o mesmo é que soldado raso, nem outro grau competia a quem na escala heráldica não passasse de escudeiro.»

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