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Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

31
Ago25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'ROMÂNTICOS E REALISTAS' [ 4 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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(continuação)
 
«Em 1870 publicou Eça de braço dado com Ramalho o Mistério da Estrada de Cintra, romance literariamente banal que não encerra nada que possa acreditá-lo como ponto de partida duma renovação literária. Em França, onde está necessariamente a nossa tábua de referências, esse livro passaria baralhado com a variada produção capa-espada de Ponson du Terrail e companhia. A essa data tinha Camilo já dado a lume Coração, cabeça e estômago, de que, diga-se a título de curiosidade pura, está traduzida para francês a terceira parte sob o título de Mariage de Silvestre. Este trabalho originalíssimo, sim, poderia considerar-se como marco miliário no caminho do naturalismo e padrão duma nova era. Sob o ponto de vista de observação e de linguagem vale incomparavelmente mais que o Mistério da Estrada de Cintra que beneficiou do espavento que lhe proporcionou a Gazeta com publicá-lo em folhetins e, corolariamente, do consenso público, terreno movediço em que não pode estear-se um critério de qualidade.
Pois não obstante o seu medíocre estofo, ausência de novidade impressiva, Camilo diria dele, é verdade que em carta datada de 1886 dirigida a António Maria Pereira, editor dum e doutro: Já lhe agradeci e li o Mistério da Estrada de Cintra. Achei-o admirável pelas brilhantes audácias de linguagem. Foi esse livro que iniciou a reforma das milícias literárias indígenas, a tropa fandanga de que eu fui cabo de esquadra...»
 

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«Em 1871 a bela e já celebrada comandita Eça e Ramalho lança o panfleto mensal das Farpas. O número de Maio abre com o balanço da vida portuguesa, da autoria do primeiro, e prossegue no domínio da intelectualidade: Olhemos agora a literatura. A literatura -- a poesia e romance -- sem ideia, sem originalidade, convencional, hipócrita, falsíssima, não exprime nada: nem a tendência colectiva da sociedade nem o temperamento individual do escritor. Tudo em torno dela se transformou, só ela ficou imóvel. De modo que, pasmada e alheada, nem ela compreende o seu tempo, nem ninguém a compreende a ela.»
 

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«De resto quando um sujeito consegue ter assim escrito três romances, a consciência pública reconhece que ele tem servido a causa do progresso e dá-se-lhe a pasta da Fazenda.»
 

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«Os virotes não eram lançados particularmente contra Camilo que não compusera apenas três novelas e não só não era ministro de Estado como lhe fora negado um mísero emprego na Alfândega. Mas, despedidos para o monte, apanhava por tabela! De resto a crítica errava a pontaria, atirando aos pés para a pobre e ingénua literatura portuguesa tão medrosa no patológico como respeitadora da moral.
Aceitamos de boa mente que Camilo tenha resvalado algumas vezes aos dislates abrangidos pelo anátema com que Eça fulminou a republiqueta literária. Mas essas quebras resgatou-as de sobejo na sua obra pluriforme, onde a observação justa do real supera aos arremedos do artifício, o verdadeiro drama humano ao especioso, a fala colhida no tráfego da vida corrente com seu carácter, seus módulos, seus filamentos tácteis de ser animado, ao verbo empalhado, incolor ou fictício, sobretudo, oh, sobretudo à ingresia formada, metade por pedanteria, metade por ignorância, com vozes estrangeiras.
O trecho não alvejava Camilo, mas na omissão, que mais não fosse, do seu nome, residia uma crítica afrontosa pelo que tinha de injustamente negativo. Essa omissão ia-se adensando de ano para ano, enovelada em grosso e feio pecado.»
 

(continua)

17
Ago25

ANTÓNIO PEDRO, «apenas uma narrativa» (1942). «DEDICATÓRIA ao senhor Aquilino Ribeiro: *MESTRE*: ...»

António Pedro: [Cidade da Praia, Cabo Verde, 09-12-1909 -- Moledo do Minho, Caminha, 17-08-1966].

Manuel Pinto

 

          António Pedro  

[Cidade da Praia, Cabo Verde, 09-12-1909 - Moledo do Minho, Caminha, 17-08-1966] 

       Poeta, romancista, autor e encenador teatral, crítico de arte, jornalista, editor e também caricaturista, pintor, escultor e ceramista.

   Faleceu há 59 anos: 17-08-1966.   

   http://www.e-cultura.pt/efemeride/1001 

 

António Pedro (1909 - 1966) foi o primeiro a dar o título de «Mestre»

ao Senhor Aquilino Ribeiro!  

 

Dedicatória da sua obra "APENAS UMA NARRATIVA", datada de Novembro de 1941: 

                   

«DEDICATÓRIA                                                   

ao senhor Aquilino Ribeiro»

 

        «Mestre:

        «Toda a gente vai ficar espantada com a dedicatória deste livro e com este invocativo que tomo em gosto tornar público, não com sanha de discípulo que não sou, mas com respeito de homem de ofício que sabe quem no merece. Toda a gente vai ficar espantada e pouco isso me importaria se entre essa toda-a-gente não estivesse, como está por certo, o meu Amigo. Eis a razão por que não honro apenas com o seu nome esta folha e me parece necessário explicar-lhe porque o faço.

        Há ainda quem tenha a mania de distinguir arte moderna e arte antiga e quem nesta distinção se compraza, ou viva desta distinção. Aqui, público e raso, me confesso do pecado de a ter já feito para tornar mais clara certa confusão entre bom e mau. O que há com arte, com artistas e com tudo, cabe apenas nestas duas espécies. O meu Amigo é dos bons e eu faço por merecer-lhe a companhia. O resto são diferenças que dizem respeito à sua educação e à minha, ao seu gosto e ao meu, à sua Beira de desvirgadas, padres, lobos e almocreves e ao meu Minho de cantorias e emigrantes, milho verde, leiras pequenas, pedinchassovinas e fantasmas líricos; o resto, e sobretudo, são coisas que dizem respeito àquelas pulgas que cada um tem seu modo de matar; o resto, ainda, perdoe-me dizer-lho, tem com a sua idade e com a minha idade. E se, com tão oposta educação estética, tão diferente gosto, cenário de infância tão díspar, tão discrepante forma de matar pulgas, idade para ser seu filho, quiser saber porque o admiro, deixe-me lembrar-lhe que escreveu o romance da raposa raposeca, senhora de muita treta, e do galo galaroz, perninhas de retroz, que contou como era a terceira classe da arca de Noé e, também, às vezes, se deixa empapar em sonho, como ninguém, em certas páginas da Aventura Maravilhosa e de outros livros – um sonho por vezes revesso nas palavras saborosas que só tolos vêem por fora, como chuvinha bonita em que não sabem molhar-se.

        Não há arte moderna nem antiga. Os artistas é que são modernos e antigos com relação ao momento, e os antigos para o seu momento são sempre maus e sempre errados. O seu momento, Aquilino Ribeiro, ninguém o honrou como V.. Foi a volta à terra depois da especulação, a volta ao gosto infantil depois da pedagogia parva, a volta ao sonho é a epopeia depois da crítica e da caricatura. A Academia com que o insultaram (e em que companhias, Deus do céu!) mais a mereciam certos modernos que conhecemos – soldados uniformizados, como os outros, satisfeitos de abotoarem o mesmo dólman com botõezinhos de outra cor.»

                      Lisboa, Novembro de 1941.»

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https://acrobat.adobe.com/id/urn:aaid:sc:EU:d2fa27ea-3373-43ff-a70f-cce0e95e8de8 

[José Augusto-França, «O essencial sobre ANTÓNIO PEDRO]

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António Pedro - Centro de Arte Moderna

https://share.google/T5moVmigWS75v4clM 

 
 

António Pedro, Artista Plástico, Crítico de Arte e Escritor

https://share.google/J71dawwg4nSi4Nsig 

 

MNAC: Aparelho metafísico de meditação 

https://share.google/lcI9IHDLAF8BU2IL0 

 

 

07
Ago25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'ROMÂNTICOS E REALISTAS' [ 3 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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«Anos de 1866, 67, 68 termina Eça a sua formatura em Direito, estreia-se na Gazeta de Portugal, cozinha o Distrito de Évora, ensaia a lira satânica de Baudelaire. E flana, flana por Lisboa. A experiência da capital vem-lhe dessa data. Os decadentes e irregulares que traz ao tablado, em especial no Primo Basílio, nos Maias, e toda a sub-galeria dos romances póstumos, personagens quase todas dealbadas da ganga nativa nas águas do Sena, são transposições da sua vida de sociedade.»

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«Esses três anos, não falando no período morto que vai até 1869, consumi-los-á em vagabundagem, num vago cenáculo, literatizando como sempre à francesa, até a altura em que de monóculo entalado no orbe do olho e uma grande curiosidade na alma embarca com o conde de Rezende para a Terra Santa. Viagem farta de pitoresco e de perspectiva, fornecerá o tema, por um ror de tempo, às tertúlias literárias. O nome de Eça passa a voar nas asas da fama, os cultores da anedota havendo pilhado um filão.»
 

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«Entretanto Camilo vai assentando pedra após pedra na prodigiosa torre, mais que Babel, que é a sua obra. S. Miguel de Seide é um estaleiro. Trabalham a derreter os miolos, instados pelas necessidades da vida, tanto o escritor como Ana Plácido. A seguir à Enjeitada, romance francamente mau, em que presumo vislumbrar a mesma tessitura feminina da Luz coada por ferros, talvez retocado e limado pelo escritor, apareceu o Judeu, a Queda dum Anjo, duma altitude nunca antes atingida em Portugal, o Santo da Montanha com uma boa parte castiça e superior, o Senhor do Paço de Ninães, não menos sobranceiro, os Mistérios de Fafe, em que estua uma prosa viril e dúctil, dobrada nas suas mãos como o ferro nas tenazes do bom ferreiro de Guimarães, o Retrato de Ricardina que rasga uma janela de céu azul e chão de neve no terrível e feio mundo. Para falar apenas nos livros capitais daqueles três anos de intensa safra. O lutador está a entrar na última década da sua actividade e produz como as macieiras do seu quintalinho dão maçãs. Às cestadas. Por todo o Portugal, levado pelas gazetas, pelos livros a dois tostões, pelos folhetos de polémica e os ventos suscitados, o seu nome corre. Não há ninguém dotado de percepção alfabética, digamos, que não descortine, como a um seareiro prometáico, o trabalhador a cobrir infatigavelmente com a sua letrinha miúda e rectilínea resmas e resmas de papel branco.
Em Évora, em Lisboa, em Leiria, alguma vez o escritor incipiente e snob se aperceberia deste Caim das letras? Sentiria alguma vez pulsar a alma multíplice, cheia de falhas, mas até nelas grandioso, deste colosso? Não no-lo diz quando é tão prolixo nas suas inclinações e fatacazes. E é lamentável que em cérebro tão peregrino como o de Eça não brotasse uma admiração espontânea, impulsiva, ardorosa pelo veterano do romance, já que o coração lhe havia, mercê dos maus boléus das fadas, estancado para os reptos da generosidade sem troco. E nós hoje, porque a plana literária se nos defronta em perspectiva rasa e emareada de preconcebimentos, não compreendemos o silêncio de Eça. A demarcar o percurso triunfo triunfal do romancista da Relíquia, falta um artigo, uma saudação, um brado de entusiasmo pelo escritor que fora naufragar na verde e anojadiça terra minhota, falta-lhe, sim, esse ex-voto, tal emblema de Hermes na via dum César.»
 
 

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«E entre os merecidos respeitos não há Aristarco que não coloque Camilo, o maior.»
 

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 « ...o certo é que Eça, considerando o romance em coma, excluía Camilo do número dos reanimadores, pois que era tarde para a carreira deste o fazê-lo e equivaleria simultâneamente a negá-lo supondo-o investido de semelhante empresa. E é clamorosa a injustiça de tal conceito contra quem vinha praticando com exaustão e com relevo aquele género literário.»
 

(continua)

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