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Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

31
Out25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'EÇA IMPASSÍVEL E CAMILO IRADO' [ 10 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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(continuação)
 
«Camilo, no entanto, evitava a guerra. Não foram poucos os testemunhos de apreço literário, é verdade que a modo de parêntesis, que teve para com os adeptos da escola nova. Estes não se demoveram da sua atitude de retraimento. O velho trabalhador das letras não lhes interessava. Se o não lançavam às feras, afogavam-no em desprezível silêncio. Para um homem da fibra de Camilo, o menoscabo era mais ofensivo que o apostado enxovalho. Iam-lhas pagar com língua de palmo. E sacou do fueiro minhoto que as suas mãos volteavam com o mais resplendente gládio.»
 

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No Cancioneiro Alegre e na tréplica Os Críticos do Cancioneiro encontram-se estocadas de reverso, revelando tanta manha como brilho. Por exemplo:
... ... ...
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«Rasgaram-se sobre o " Cancioneiro " as cataratas de lama que prenunciam o dilúvio das letras daquém e dalém-mar. -- Que eu saíra a insultar a Ideia Nova no verso e no romance, porque a minha ignorância me vedava as fronteiras que separam o velho romantismo da elaboração dos processos que fotografam a vida a um raio luminoso da ciência. -- Ignorância de quê? Das misérias indeclináveis que eles chamam as podridões? Das lágrimas a que eles dão como lenitivo a gargalhadas do velho e safado diabo das lendas? Eu conhecia tudo isto sem expositores francezes. 0 que eu não podia era atribuir à fisiologia, ao sangue, à fatalidade da raça, o que era da liberdade moral, do espírito, da educação, da consciência, da responsabilidade. Eu ia mais para as lágrimas do que para as náuseas. Mas o estigma indelével da minha ignorância é o plangente estilo de 1840, a frase sem o nervosismo, o ressalto moderno, duma correcção velha e fastidiosa, com uns boleios portugueses a trescalarem ao ranço das selectas. Daí o chamar-me desdenhosamente romântico o sr. R. Ortigão, e o sr. G. Junqueiro, o infante prodigioso, concedendo-me com magnanimidade alguma graduação na inactividade, reformou-me em «romancista subalterno», ao passo que os seus admiradores me expungiam da faina das letras militantes, arranjando resenhas acintosas de escritores em que o meu nome nem sequer lograva entrar na obscuridade dos romancistas falidos ou mortos com Arnaldo Gama e Rebelo da Silva.» 
 

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«Desta passagem como de tantas outras ressuma o despeito, bem justificado, do grande lidador das letras, desdenhado pelos novos e petulantes adeptos do realismo. Eram réus duma injustiça flagrante e é bem humano que o peito de Camilo sangrasse. De certo que a nova escola trazia valores apreciáveis, não vislumbrados pelo romantismo, filhos duma visão mais certa, indeformada, da vida mas seus asseclas, por muito geniais que fossem, não haviam sido os inventores. Com que direito se arrogavam em seus hierofantes, como se tivessem eles apenas o privilégio? A receita, além de não ser hermética, não representava exclusivo deles. E todavia davam a entender que a defendiam como alçada de que eram os únicos e encartados representantes.
Camilo não levava à paciência semelhante presunção. Em verdade, que há de mais eterno numa escola, aquilo que ela pode acusar de singular sobre outra, ou antes o quid que constitui património comum, beleza de forma ou de essência, transmitido de geração para geração? Como aqueles atletas, chamados retiários, que, ao lançar a rede, colhiam lutadores dignos e pigmeus, Camilo junca o chão de batalha de corpos de toda a estatura.»
 

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«A propósito de Sentimentalismo e História, em que rebrilha a jóia de humor e sainete, mais que paródia, mais que sátira aos processos realistas, quase obra perfeita da nova-escola, escreve a Adelino Neves de Melo, que lhe dá informações sobre Cipriano Jardim com quem se propôs ajustar contas:
«O Eusébio Macário é uma brincadeira. Falava-se aí dum realismo que a ser aquilo que eu fiz já V. Ex.ª vê que é coisa fácil de fazer. Mas o naturalismo não é o Primo Basílio: é o Père Goriot, é o Lys dans la vallée, é todo o Balzac; os nossos imitadores criaram uma adjectivação absurda e entenderam que a evolução era aquilo.»
 

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«Camilo, depois de Eusébio Macário, desmascara as suas baterias. Na correspondência com os amigos particulares não cala mais a aversão. Onde haja um adversário da Escola Nova, lisonjeia-o e aplaude-o. Assim procede para com Silva Pinto. Duma carta datada de 29 de Novembro de 79, depois do consabido apiedamento sobre si próprio quanto à saúde e fim próximo, lá vem este remate, com a picada venenosa da vespa depois do zumbido à roda da vítima:
«Tenho gostado muito do seu modo de desmantelar o pseudo-realismo do estilo à Eça. Parece-me que você continua a pacífica destruição que eu comecei, e dou-lhe a minha palavra de honra que desmantela pelo ridículo a escola.»
 
20
Out25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'EÇA IMPASSÍVEL E CAMILO IRADO' [ 9 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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«No perfil de Ramalho Ortigão publicado nas Notas Contemporâneas, datado de 1878, pulsa-se o pouco respeito que merecia a Eça o romantismo e com ele os seus cultores. Por integração de partes, Camilo devia sentir-se atingido. O seu nome não é pronunciado, mas responde à auscultação.
Era legítimo que Eça fizesse tábua rasa de quantos escritores havia em Portugal ao tempo que introduzia na literatura indígena, com mais ou menos subserviência, os métodos de Zola e de Flaubert?
A seta, embora regulada a alça para alto, ia bater no peito do velho romancista de Seide, que arrancando-a ensanguentada, a remetia ao bisonho e leviano frecheiro.»

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«Nesta altura atravessava Camilo uma crise de nevrose aguda, a cada passo se julgando nos últimos dias da vida. Não tinha descanso em parte alguma. Só estava bem onde não estava. As insónias arrasavam-no. Ia de S. Miguel de Seide para Vizela, de Vizela para a Foz; fazia e desfazia as malas. Como tantos homens superiores, que a aura pública conduziu a um auto-centrismo exagerado, a ocupação principal para ele era a sua pessoa.»


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«O pior de tudo e mais certo é que começou a sentir os ameaços do mal que devia terminar na cegueira. O ano 78 passou safro para ele. Resultado de incómodos vários, da biliose, porventura do traumatismo moral provocado pelas primeiras obras dignas da escola nova, que abria caminho saltando a pés juntos sobre os escritores românticos.

Mas já o ano de 79 é para ele um ano de recuperação. Após o largo período de pousio reaparecia mais ardente e fecundo. Dir-se-ia que se retirara da liça a beber os bálsamos. De facto os seus trabalhos coetâneos acusam um lidador que corregeu as armas e se apurou no floreio. O Cancioneiro Alegre, ainda que estudo rápido e desenfastiado, esfusia de chiste e boa graça.»

... ... ...

«Depois ao cabo da refrega com toda uma moirama brava, do livro hecteróclito Sentimentalismo e História lança contra os realistas a charge suprema do Eusébio Macário. Mas este livro supera o seu objectivo. O gigante rompeu por todas as costuras a túnica pretexta que envergou ao tentar aquela empresa de ridículo, e produziu obra de fôlego.»

«... Ninguém duvida que este labor obedeceu a um plano de represália. Semi-deus (Camilo) em cólera, o seu gesto ficou assinalado para sempre. Como responderam os realistas? Eça meteu-se dentro do seu cómodo desdém e deixou passar. Com isso mais se devia enervar o gigante.»

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«Entretanto Eça de Queirós, primeiramente em Newcastle, depois em Bristol, compunha o Primo Basílio, inspirado de certo pela Madame Bovary...

«... Por essa altura remodelava o Crime do Padre Amaro, cuja silhueta principal, recortada sobre o francês, lhe acarretava, entre outros, os doestos de Camilo. O padre agora ficava ecumenicamente católico até para a bandalhice. E esboçava a Capital de que vieram a lume alguns capítulos. Escrevia ao mesmo tempo para os jornais do Brasil as Cartas de Inglaterra. De modo geral trabalhava paciente e tenazmente, com uma lentidão que não era dificuldade de escrever, mas lentidão em que se elaborava, como nas operações químicas a longo prazo, todo aquele artefacto de naturalidade, de estilo cristalino e brincado, de graça que parece produto espontâneo e é efeito dum longo e aturado labor.»

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«Era celibatário, morava numa casa enramalhetada de trepadeiras, e o cargo não lhe exigia grande fadiga. De modo geral, corria-lhe a vida suave e sem solavancos como o Avon que passava debaixo das suas janelas. Por este ligeiro escorço se vê quanto o seu destino era diferente do galeriano de S. Miguel de Seide, aquele sentado de modo sofrível à mesa do orçamento, bem aparentado, com um diploma licenciado para as honrarias, enquanto este, tendo postulado um cargo de comandante das guardas da Alfândega ou coisa parecida, nem essa pretensão viu realizada.»

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«No prefácio da quinta edição do Amor de Perdição, datado de S. Miguel de Seide, 1879, com irreprimível mordacidade, aqui e ali com um certo gongorismo no dizer que não é mais que uma atitude de tesura ao desafiar o adversário que está entrevendo ao longe, Camilo escrevia: "Se comparo o Amor de Perdição, cuja 5ª edição me parece um êxito fenomenal e extra-lusitano, com o Crime do Padre Amaro e o Primo Basílio, confesso, voluntariamente resignado, que para o esplendor destes livros foi preciso que a Arte se ataviasse dos primores lavrados no transcurso de dezasseis anos. O Amor de Perdição, visto à luz eléctrica do criticismo moderno, é um romance romântico, declamatório, com bastantes aleijões líricos e umas ideias celeradas que chegam a tocar no desaforo do sentimentalismo. Eu não cessarei de dizer mal desta novela, que tem a boçal inocência de não devassar alcovas, a fim de que as senhoras a possam ler nas salas, em presença de suas filhas ou de suas mães, e não precisem de esconder-se com o livro no seu quarto de banho. Dizem, porém, que o Amor de perdição fez chorar. Mau foi isso. Mas agora, como indemnização, faz rir; tornou-se cómico pela seriedade antiga, pelo rapozinho que lhe deixou o ranço das velhas histórias do Trancoso e do Padre Teodoro de Almeida. E por isso mesmo se reimprime. O bom senso público relê isto, compara com aquilo, e vinga-se barrufando com frouxos de riso realista as páginas que há dez anos aljofrava com lágrimas românticas."»

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«"Pois que estou a dobrar o cabo tormentório da morte, já não verei onde vai desaguar este enxurro, que rola no bojo a Ideia Novíssima. Como a honestidade é a alma da vida civil, e o decoro é o nó dos liames que atam a sociedade, lembra-me se vergonha e sociedade ruirão ao mesmo tempo por efeito de uma grande evolução-rigolboche. A lógica diz isto; mas a Providência, que usa mais da metafísica que da lógica, provavelmente fará outra coisa. Se, por virtude da metempsicose, eu reaparecer na sociedade do século XXI, talvez me regozije de ver outra vez as lágrimas em moda nos braços da retórica, e esta 5ª edição do Amor de Perdição quase esgotada."»

(continua)
05
Out25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'DO «CRIME DO PADRE AMARO» ÀS «NOVELAS DO MINHO»' [ 8 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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(continuação)

«Com efeito, quando se ateou em Portugal a refesta entre românticos e realistas, lá fora aquilo era já assunto arrumado. Mais longe ainda, o naturalismo, seu prolongamento excessivo, caía em descrédito. Em Portugal, o realismo atingia, à altura em que veio a público o Crime do Padre Amaro, o fervor iluminativo dum credo. No transcurso histórico-literário, este romance veio marcar uma era como aconteceu com a tomada de Constantinopla. Daquela data em diante, nos domínios da arte nacional, não há dúvida que passaram a reinar outras brisas espirituais. O próprio Camilo, à sobre-posse, rosnando, na atitude perante os novos postulados do reptador que não perde uma ocasião de quebrar contra o joelho as armas do adversário, no íntimo da sua atiladíssima consciência estava rendido. venábulo (*) que lhe restava da sua longa travessia romântica era o sarcasmo, se não fazia parte da defesa, como produto tóxico secretório, do homem superior que tem de haver-se com uma sociedade de primários onde alvoreceu pobre e desvalido. Sempre que pode, despede a flecha e não há santidade bastante que premuna um alvo da sua pontaria.»
 

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«A essa altura tinha já Eça publicado o Primo Basílio, a que correspondiam cronologicamente, na produção camiliana, as Novelas do Minho, jóia das mais finas águas que possui a língua portuguesa, que vieram pôr ponto a uma pausa, em seguida ao fogo de rajada do Cancioneiro Alegre, que pareceu interdição na lavra do mestre.»
 

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«Eça alcançara o fastígio da carreira, e apenas uma vez dera a saber aos seus amigos e leitores que não ignorava a existência do bruxo que em Seide renovava o instrumento em que os trovadores dos Cancioneiros tinham modelados as suas emoções monocórdicas, Camões cantado o Marte lusitano e os frades louvado ao Senhor. Para isso andara ao respigo do linguajar popular, da locução ágil e pejada de compreensão, da frase pitoresca, do verbo que os filólogos desdenharam por não trazer certidão de legitimidade. Com essas achegas, essas riquezas mal empregadas, todo esse numerário vivo e sonoro reformou o capital léxico, mercê do que se poderia atestar que a nacionalidade vive, pois que o seu órgão de transmissão racional evoluiu e se foi adaptando, graças à obra surda, ininterrupta, apicular, digamos, do povo, às condições que trouxeram o tempo e a fortuna. Eça dedilhou outra harpa, maravilhosa sem dúvida, mas as cordas pedidas ao boulevard.
 
Que admiráveis e gratas a todos nós não seriam as suas composições, com um pouco mais de reverência perante o verbo que lhe encarecia Camilo e que, debaixo da pena deste, foi mais que uma expressão de gramática!»
 
 
  venábulo (*) 
 

https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/?word=ven%C3%A1bulo

 

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