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Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

13
Fev26

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'A CARTA PÓSTUMA DE REPRESÁLIA' [25_(4/4)]. Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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(Continuação)

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«Concordámos que Camilo mais duma vez deu o flanco na nota que escreveu a propósito do pai de Eça. Do implicar comigo fez este um azabumbante [*] e apepinador leit-motiv ; das admirações beócias, de que o cultor da língua era alvo, uma chuchadeira inteligente e bem humorada. Foi pena que a diatribe tivesse ficado emparedada na papeleira do cônsul, guardada por tão invencível sentinela. Ali esteve enquanto Camilo foi deste mundo; lá continuou os anos que Eça lhe sobreviveu. Compreende-se que, não tendo recebido alvará de correr no primeiro transcurso, a não recebesse no segundo. Era uma questão de dignidade. Eça conhecia e praticava as regras da elegância moral.»

 

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«Lá a carta não destruiu. Estava contente com ela. Com arteiro resguardo a foi conservando entre os papéis, é de crer que entre os mais à vista, pois que foi dos primeiros publicados postumamente. Quem sabe se a não tinha assinalado com alguma indicação manuscrita, e fosse daqueles a que de quando em quando deitava o rabo do olho, curioso e rememorador. E é o caso de nos perguntarmos se há algo de condenável em tal atitude. Em nossa consciência respondemos que não. Os Goncourt adoptaram a mesma norma de procedimento para com os contemporâneos no seu Journal, a publicar vinte anos depois do falecimento do último dos irmãos, e, que nos conste, ninguém por isso os chamou ao pretório.»

 

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«Eça deixou ficar ali, à mão de semear, a carta singular, certo de que bateria a hora de raiar a público, a hora da sua revindicta. A derradeira palavra na querela com o velho Camilo seria deste modo sua. E foi.»

«Que esta atitude de reserva se coaduna com o carácter e temperamento de Eça ressalta do silêncio que guardou perante a morte de Camilo. Naquele momento se José Maria Eça de Queirós não fosse um produto requintado de artifício, desdém, cepticismo, tédio, hipocrisia social, a honesta hipocrisia de que fala Dantec, rancor primário, felinidade, teria escrito uma palavra, não generosa que a estatura do finado não se coaduna com sentimentos desta índole, mas de piedade pelo suicida de alma submersa em desespero, de justiça e de reconhecimento pelo genial cultor das letras. Não o fez e lamentamos esta falta de simpatia humana, quando era bem simples ao grande artista inclinar o balsão orgulhoso perante o gigante fulminado, extraordinário até no trespasse. Te-lo-íamos desculpado da sua pose farisáica: Eu nunca tive, é certo, a oportunidade deleitável de apreciar nem em copioso artigo, nem sequer em curta linha a obra de V. Exª. Como deleitável, se não exerceu essa oportunidade?»

«Precisamente, é deste pecado que o condenamos e é dele que a terra lhe é pesada. Não escreveu uma só linha àcerca do grande escritor, ele que esbanjou a blandícia pelos seus amigos, medíocres todos no talento; em contraposição deixou aquele bilhete, a coberto da irresponsabilidade dalém campa, pretensiosamente letal como os venenos que se depositavam à beira das múmias de qualidade contra os profanadores, os curiosos, e tudo o que desse sinal de vida das portas do sarcófago para dentro. Mas a ironia do mago não pôde com a reputação do morto.»

«Ah, se a carta vem a público, teríamos hoje a gozar os passes dum homérico desforço. Pouco antes, o demiurgo de S. Miguel de Seide provara a solidez do pulso com Alexandre da Conceição; com Calixto; com o Pe. José Maria Rodrigues. À semelhança de Anteu, o velho requintava nas suas qualidades de luta, cada vez mais sarcasta, mais dialecta, mais denodado, mais mordente, volteando a pena, consoante o ensejo, flame, varapau, estilete, vara de prestidigitador. Foi esse instrumento polimórfico que Eça temeu e desta vez foi-lhe bom conselheiro o dedo mendinho.»

«O jarretas de S. Miguel de Seide, percluso das faculdades físicas, mas não espirituais, ter-lhe-ia escaqueirado a vidraça insolente da ironia e do monóculo, oh, se teria! Mas a par desta página queirosiana, sublimada na malícia e na maldade, mais risonha que uma Graça esculpida em mármore branco, esse mármore de Paros que fala aos sentidos tão bem como a carne das raparigas ou o pão de farinha fina, a par dessa página póstuma primorosa, teríamos a página da desafronta, surpreendente de cólera e animada de sopro divino, superior, upa, upa, ao comentário à Procissão dos Moribundos, que já é apreciável em seu aticismo e vibratilidade.»

 Aquilino Ribeiro, «Camões, Camilo, Eça e Alguns Mais» (1949)

«Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.»
[Aquilino Ribeiro]

dicionário DLP Adcademia das Ciencias.png
azabumbante [*]
“azabumbante”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/azabumbante 

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https://alcancaquemnaocansa.blogs.sapo.pt/glossario-sucinto-para-melhor-29693

Azabumbanteobsidiante, obcecante, atordoador. (p.12)

 

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12
Fev26

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'A CARTA PÓSTUMA DE REPRESÁLIA' [24_(3/4]. Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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(Continuação)

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«A carta a Camilo esteve adormecida vinte e cinco anos. Eça sustou a sua publicação, mas o motivo alegado por que o fez é muito fútil para que o tenhamos como determinante. Falta de paciência de passá-la a limpo…?! Pode acaso comparar-se com a maçada de copiar a carta o esforço de compô-la? Para nós é fora de dúvida que não foi essa a causa que impediu que uma tal obra-prima de finura e de maldade só viesse a lume depois de mortos os seus protagonistas.

«A carta, tenha ou não passado do rascunho a lápis, acusa uma factura minuciosa, desvelada, própria do ourives da palavra que era Eça. Sente-se quanto o pensamento ali é reflectido e não menos com que demora a trabalhou o buril. De resto, compreende-se que, para um espírito cavidoso [1] como o dele, todas as precauções fossem poucas. Havia que jogar boas e certeiras armas. Sobretudo, que essas armas não fizessem recochete, como costumava acontecer com uma couraça da rijeza da de Camilo. E é de supor que Eça pesasse e repesasse as suas chufas e pilhérias como David aos seixos redondos, apanhados na ribeira com que abateu Golias.»

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«Seja como for, a carta em questão, que há-de perdurar como uma das belas páginas queirosianas, pelo menos sob o ponto de vista do humour, denota a mão lenta, rendilhosa, elegante, que assinava de Fradique. Que deu satisfação ao próprio autor, a ponto de se narcisar nela, confessa-o desvanecidamente ao amigo. Não se arrojou no entanto a publicá-la. É que ainda não estava fechada, e já um querubim terrível se postava de plantão, olhos nela, determinado a não a deixar seguir destino. Sim, esse querubim que guarda a vinha e previne os pincha-no-crivo [2] que podem ir buscar lã e sair tosquiados. Devia ser admoestado por esta sabedoria das nações que Eça encerrou o pleito por então, declarando para Luís de Magalhães: de modo que guardei um discreto silêncio.»

«Este termo discreto desdobra toda a meada. Camilo, com efeito, não limitava a sua força a ser um mestre da descompostura. «Eça sabia muito bem que recursos inesgotáveis sugeria a Camilo na polémica a imaginação irada. A facúndia nos golpes, mandados donde menos se esperava com uma destreza original e a mais desconcertante pontaria ficará uma das suas facetas mais assombrosas. A certa altura o adversário, graças a um cambapé imprevisto, estatelava-se. Camilo então desarticulava-o membro por membro, osso por osso até o deixar escarnado em seus plexos mais íntimos ou de bandouga [3] aberta a cheirar mal.»

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«A Eça de Queirós, que era delicado, porventura pusilânime, pérfido como premune, não sorriam semelhantes pugnas. Podiam sair-lhe caro como quem tinha telhados de vidro e o impertinente monóculo resultar um risível pedaço de vidraça. A própria carta oferecia mais de uma malha rota por onde não seria difícil insinuar-se a lâmina do duelista. Nada mais infeliz e de mau gosto que o apólogo do animal venerável, de longas orelhas felpudas, rabo tosco e anca surrada, com que se antepara da imputação de zoilo. Asno seja quem asno vozea -- reza o ditado, e a graciosidade em tais casos pede albarda. Eça, em qualquer lance da metempsicose estaria livre de ir parar a azémola, mas já não diremos o mesmo a pavão por pedante e precioso. As suas imagens: Percival, flor dos bons; louvado seja Apolo aurinitente [4]! vila da Ásia murada de adobe e tijolo; através do grande mar -- como se o Pacífico ou o Atlântico se interpusesse entre os dois digladiadores e não o Passo de Calais -- fazem rir pelo escovadinho e o tiré à quatre épingles de velha bas bleu. Depois, aquele jacto da sua iracúndia de merceeiro honrado ao repelir como acintosas as «exigências de venda» conclama o rond-cuir  bem amesendado à gamela do orçamento, pés quentes, barriga farta, tão em contra do escriba clássico português. Em tudo o mais, através da trama sagaz e maliciosa da carta, quando reconhece algum mérito a Camilo é com o fim de ter autoridade para o confinar em ilustre, satírico neto de Quevedo, e mormente coonestar [5] a indumentária burlesca que lhe enverga, babeiro e gaguejando, ao correr para o público, depois de se erguer do soalho, onde com tochas de fósforos queimados fingia a procissão dos moribundos, queixoso de que estavam "sempre a implicar com ele".»

dicionário DLP Adcademia das Ciencias.png

cavidoso [1]
“cavidoso”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/cavidoso 

bandouga [3]
“bandouga”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/bandouga 

aurinitente [4]
“aurinitente”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/aurinitente 

coonestar [5]
“coonestar”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/coonestar

 



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https://alcancaquemnaocansa.blogs.sapo.pt/glossario-sucinto-para-melhor-29693

cavidoso [1] 
Cavidosofundo (de cavidade); prudente. (p.17)
pincha-no-crivo [2]
Pincha no crivo salta-pocinhas. (p.40)
bandouga [3]
Bandouga barriga, bandulho. (p.12)
coonestar [5]
Coonestarencobrir um crime, sofismá-lo. negá-lo.. (p.20)

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(continua)

11
Fev26

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'A CARTA PÓSTUMA DE REPRESÁLIA' [23_(2/4)]. Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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(Continuação)

«Porque eu, falando de V. Ex.ª considero sempre a sua imaginação, a sua maneira de ver o mundo, o seu sentimento vivo ou confuso da realidade, o seu gosto, a sua arte de composição, a fraqueza ou a força do seu traço; e, pelo menos, admiro sem reserva em V. Ex.ª o ardente satírico, neto de Quevedo, que põe ao serviço da sua apaixonada misantropia o mais quente e o mais rico sarcasmo peninsular. E os seus amigos, esses, admiram apenas em V. Ex.ª secamente e pecamente o homem que em Portugal conhece mais termos do Dicionário!»

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«Sempre, «a todo o talho de fouce», em artigo, em local, em anúncio de partida, em felicitação de dia de anos, V. Ex.ª é pelos seus discípulos e amigos louvaminhado e turibulado -- como o grande homem do Vocábulo, esteio forte da Prosódia, restaurador da Ordem gramatical, supremo arquitecto das frases arcaicas, acima de tudo castiço e imaculadamente purista! E ainda mais na intimidade, os amigos de V. Ex.ª o celebram como o homem que melhor sabe descompor o seu semelhante! E isto tão obstinadamente murmurado ou clamado, que esta geração mais nova, para quem já vou sendo um velho e V. Ex,ª quáse um fantasma, não tendo como eu e os do meu tempo rido e chorado sobre os seus livros de paixão e de ironia, o imaginam a V. Ex.ª um intolerável caturra, de capote de frade, debruçado sobre um sebento Léxicon, a respigar termos obsoletos para com eles apedrejar todos os seus conterrâneos!»

 «A V. Ex.ª, crítico sagaz de si mesmo, melhor compete avaliar o que, neste vale de prosa e lágrimas, tem feito para merecer que os seus amigos, como os amigos de César no dia das Lupercais, teimem em lhes enterrar até aos ombros esta dupla e pesada coroa da  vernaculidade e da descompistura

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«A mim só me compete lamentar que a estas mofinas proporções tenha sido reduzido, pelo zelo crítico dos seus amigos, a larga individualidade que nos deu o Amor de Perdição. Mas ao mesmo tempo adquiro o direito de rogar a V. Ex.ª que, quando se queixar aos ventos e ao Chiado das pessoas que implicam consigo, como V. Ex.ª diz, ou que desdouram a sua glória, como eu traduzo, não se volte para mim e para os meus amigos -- mas olhe em torno de si para os seus admiradores, e para dentro de si mesmo, talvez.»

«A guerra de realistas e idealistas, causa primordial destas explicações, tornou-se já quáse tão desinteressante e sediça, meu prezado confrade, como a guerra dos clássicos e românticos, a das Duas Rosas, ou essoutra que, para vantagem única dos livreiros que editam Homero, dois povos semi-bárbaros tiveram a paciência de arrastar dez anos em torno duma vila da Ásia Menor, murada de adobe e tijolo. Renovar tão antiquada guerra nas gazetas é já um acto imperdoavelmente provinciano: mas mais provinciano ainda é estarmos nós aqui, com grãos de incenso nas mãos e pedras nas algibeiras, fazendo, através do grande mar, mútuas e lentas mesuras. V. Ex.ª de lá, de entre os seus sinceros arvoredos minhotos, ajanota as suas frases pelos figurinos de Filinto Elíseo, para me dizer gaguejando e com agri-doce generosidade: «O meu caro amigo tem muito talento, com excepção de escrever muita tolice.» E eu de cá, mais pérfido, porque habito as cidades, grito sem gaguejar e com polida efusão: «E o meu caro amigo tem ainda muito mais, sem excepção absolutamente nenhuma.»

 

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«É infantil. Antes desperdiçássemos o nosso tempo, preguiçando patriarcalmente, neste doce calor de Junho, sob a figueira e a vinha... Mas quê! V. Ex.ª que estava brincando funebremente, a fazer no soalho, com tochas de fósforos, uma procissãozinha de moribundos, ergue-se de repente, corre para o público, mesmo sem tirar o babeiro, e acusa-me, entre lágrimas de furor, de estar sempre a implicar consigo! Que havia eu de fazer, eu inocente e justo? Corro também para o público, mesmo de jaquetão de trabalho, e brado profusamente com as mãos sobre o peito: «Nunca! É falso! Jamais impliquei com ele, e não lhe quero senão bem!»

 

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«A culpa de toda esta inútil prosa é portanto toda sua; e para que ela se não prolongue mais, apresso-me, prezado confrade, a dizer-me de V. Ex.ª sincero e antigo admirador.
«Eça de Queiroz.»

«Esta carta foi escrita em seguida à leitura do Óbolo às crianças, no mês de Junho, como declara no texto -- neste doce calor de Junho -- e segundo a data de outra, dirigida a Luís de Magalhães, em que repisa por sinal uma das imagens:
«Não sei se V. leu nas Novidades uma prosa de Camilo, com frases muito janotas e arrebicadas todas pelo figurino de Filinto Elíseo, em que ele se queixava ferozmente de mim. Eu respondi-lhe numa epístola, destinada às Novidades, que (para ser modesto) não deixava de ter alguma pilhéria. Mas era muito longa, toda a lápis, tinha de ser copiada... e não tive paciência de a pôr em tinta limpa: de modo que guardei um discreto silêncio. Bristol 14 de Junho de 1887.»

(continua)

09
Fev26

«ROMANCE DA RAPOSA» .1924. "Exposition – Comédie animale. Le bestiaire animé de Benjamin Rabier (Fev/2026)"

Benjamin Rabier (1864-1939)

Manuel Pinto

Roance da Raposa - il Benjamim Rabier-I.png

 

https://www.angouleme.fr/agenda/exposition-comedie-animale-le-bestiaire-anime-de-benjamin-rabier/

 Exposition – Comédie animale. Le bestiaire animé de Benjamin Rabier  

 Vaisseau Moebius 121 rue de Bordeaux 16000 Angoulême

Du jeudi 29 janvier au dimanche 1er février 2026 de 10h à 19h.

Du 02/02 au 30/08/2026 le mardi, mercredi, vendredi et les week-ends de 14h à 18h.
Ouvert le jeudi pendant les vacances scolaires de la zone A.

Benjamin Rabier (1864-1939) fut un artiste multifacette, trop souvent éclipsé par le succès de la vache rouge à laquelle il prêta des traits hilares, et qui fit le succès d’un certain fromage fondu.

Plus qu’un satiriste animalier ancré dans son époque, Rabier inventa et préfigura un style. Il ne se contenta pas de faire « rire et pleurer les animaux » en exagérant leurs expressions, ni de les humaniser en simplifiant leurs traits : il rendit grâce mieux que quiconque, avec un humour de fabuliste parfois absurde ou cruel, à la fantaisie, à l’ingéniosité, à l’esprit de ceux que l’on a longtemps appelé à tort, nos « frères inférieurs ».

Le bestiaire de Benjamin Rabier se déploie dans son œuvre entre scènes de cirque, vie aquatique, univers exotique ou domestique. À poils, à écailles ou à plumes, les animaux de Rabier présentent presque toujours des caractéristiques et une expressivité humaine, mais jamais de vêtements – sauf quand ils se déguisent évidemment. Paradant avec fierté, ils répètent les mêmes erreurs que leurs frères humains mais rivalisent d’ingéniosité quand il s’agit de manier les objets. Du canard Gédéon à la Vache qui rit, des Fables de la Fontaine illustrées au dessin animé, cette exposition ravive toute la fantaisie de ce précurseur majeur de la scène iconographique française qu’est Benjamin Rabier.

09
Fev26

«ROMANCE DA RAPOSA». Romancinho infantil. 1924. Ilustrações de BENJAMIN RABIER.

Para o seu 1º filho: ANÍBAL Aquilino Fritz Tiedmann Ribeiro, nascido a 26-02-1914.

Manuel Pinto

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Aníbal Aquilino Fritz Tiedmann Ribeiro (Paris, 26 de Fevereiro de 1914 - Moimenta da Beira 1999). Fruto do casamento com a alemã Grete Fritz Tiedmann.

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Fragmentos da Entrevista concedida por Aquilino Ribeiro a Lília da Fonseca* (1906-1991)
 
«A raposa é uma personagem histórica. No romancinho que escrevi, costeio a sua crónica, o mais livremente e originalmente que posso, não esquecendo as qualidades que lhe são notórias e derivam das condições de luta e dos dons com que a natureza a dotou: ardil, sagacidade, audácia. O meu livro tende a mostrar às crianças a que me dirijo, acima de dez anos, o mecanismo interno da astúcia, um pouco a astúcia de Ulisses, havida, sob determinados aspectos, como boa e sempre admirável, e por extensão a velhacaria social. Prefiro que se conheça a hipocrisia a que nos surpreenda, tal a víbora, escondida num tufo de ervas ou mesmo de flores, quando pomos o pé. Claro que procurei contar a história de tal vivente pela forma mais amena e empregando tons cor-de-rosa: ESTA É A HISTÓRIA DA RAPOSETA, PINTALEGRETA, SENHORA DE MUITA TRETA...
....
«O meu livro infantil de êxito foi O ROMANCE DA RAPOSA. A Jane Bensaúde devo a honra desvanecedora, embora imerecida, de considerá-lo uma obra-prima. É evidente que a minha personagem tem este encanto: existir, ser conhecida, e eu pôr à vista a sua relojoaria íntima, engenhosa e arteira, e cada criança admirar nela as habilidades da nossa espécie para subsistir e impor-se na natureza, que não tem simpatias especiais para nenhum dos seus seres.
Os contos de fadas, a meu ver, representam um perigo, neste nosso  mundo de hoje, tão realista. Prefiro predispor as crianças para a vida da luta que para o sonho e a idealidade abstracta, sem ramo em que a ave azul ponha o pé.»
 
«Tive dois ilustradores extraordinários para os meus livros: um, Mestre Benjamin Rabier, francês, o primeiro lápis de todas as grandes revistas parisienses da especialidade, que expressamente fez os desenhos a cores. Custaram uma fortuna ao meu sempre saudoso e querido editor Júlio Monteiro Aillaud. O outro foi um rapazinho a sair da escola, Jorge Matos Chaves, hoje arquitecto ilustre, que pôs na ARCA DE NOÉ tudo o que lhe sugeria a sua imaginação fresca, colorida e original.»
 
«Penso muito bem das ilustrações dos meus livros, que suponho sob certos aspectos superiores ao texto.»
(...)
                                           
 ... ... ... ... ... ...      ... ... ... ... ... ...     ... ... ... ... ... ... 
 
«Para os meus dois filhos escrevi: «Romance da Raposa» e «Arca de Noé, III classe», que em dia de Natal meti no sapatinho de cada um. Acabei para estas alegrias puras. Agora só manipulo drogas complexas para as pessoas grandes. Dizia Mme. de Staël: Si vous voulez que je vous aime rendez-moi l' âge des amours. E é o caso pavoroso.»
 
 ... ... ... ... ... ...      ... ... ... ... ... ...     ... ... ... ... ... ... 
 
 
                                                                           «Os Nossos Filhos»
                                                                          LÍLIA DA FONSECA
 [ * ] Lília da Fonseca (1906–1991)
(Maria Lígia Valente da Fonseca Severino)
Jornalista, escritora e feminista portuguesa, nascida em Angola (Benguela). Figura ímpar e multifacetada dedicada à escrita e à intervenção cívica. Na bibliografia destaca-se a literatura dedicada aos mais novos, tendo o “Prémio João de Deus” sido atribuído a dois dos seus livros: O malmequer das cem folhas (1960) e O livro da Teresinha (1970). Empenhou-se como cidadã em várias áreas, sendo a primeira mulher a integrar uma lista de candidatos da oposição às eleições legislativas portuguesas, durante o Estado Novo, em 1957.

 

 

 

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