ANTOLOGIA _ A1 ( I - 92) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Ladrões das Almas»
I - Jardim das Tormentas. 1913
(...) «Em casa dos Cletos a fome assentou arraiais. Para não falecerem à míngua, os velhos saltavam às hortas, ao acaso dos donos, colher ora um olho de couve, ora a molhada de nabiças temporãs. À boca pequena começou a soprar-se que percorriam os campos, altas horas, o Zé com um bacamarte carregado de cabeças de prego, o velho com uma saca onde abismava tudo, couves tronchas, galinhas e cabritos transviados.
Todo o sumiço de animais era agora lançado à conta dos Cletos, quando antes era atribuído ao teixugo e aos arraianos que compram ovos pelas portas e passam o contrabando, cordão para isca, o seu corte de bombazina, brownings de 9 c. fabricadas em Bilbau. A sua nomeada de ratoneiros foi crescendo até chegar a vila e termo.
-- Estes almas de cão -- confessou uma vez o filho do Cleto a Isaac -- só porque lá os velhos apanham de quando em quando uma folha de couve pelas hortas, fazem de nós uns Zés do Telhado! Um dia derranco-me!
Isaac bateu-lhe no ombro, em tom de confidência:
-- Tudo vai em saber roubar, Zé. E o saber roubar está alguma coisa no modo, mas muito na cifra.» ...
Se puderes palmar uma herança de muitos contos, fazem-te comendador. Serás rico e respeitado. Se não puderes roubar assim à valentona, arma em santanário e pede para as almas. E vive-se. O diabo é pilhar um pão ou uma abóbora pelos campos. Parece mal e vai malhar-se com os ossos às cadeias celulares...
-- Nunca furtei uma agulha. É lá minha mãe que tem fome.
-- Fome não tem lei. Nesse caso é roubar tudo o que cair debaixo dos cinco mandamentos. É tirá-lo a todos, a mim, ao burguês, ao cura. Com fome, há o direito de dinamitar uma padaria para apanhar um pão.
-- E a costa de África?
-- Na costa de África come-se o rancho do Estado.
Mas os Cletos, formados no respeito da propriedade, só com muita lazeira se atreviam a ripar uns folharecos de caldo, ou uns porros, no campo alheio. Também, de Inverno, não havia outra coisa que forragear... E à míngua de tudo iam passando os dias. Sempre teimoso, o pai continuava a lançar as armadilhas nas veredas onde a lebre é vezeira e nas encruzilhadas da serra, onde, com a geada, os coelhos vêm despejar o fole. E era toda uma trabalheira, à noite e ao amanhecer, para caçar, de tempos a tempos, um laparoto, ainda bisonho, pouco estreado nos ardis do bicho homem.» (continua)
Derrancar — estragar, desancar, espantar, irritar, ir abaixo das pernas.
https://alcancaquemnaocansa.blogs.sapo.pt/glossario-sucinto-para-melhor-29693
abismar
n verbo
transitivo direto e pronominal
1 precipitar(-se) no abismo; fazer soçobrar ou soçobrar
Ex.: <a tempestade abismou o barco no mar profundo> <o bote abismou-se durante a tormenta>
"Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"
