Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

12
Jun24

ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 35) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DO BERÇO À NAU S. BENTO» {c. V de XVIII} * [ vol. I ]

XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.

Manuel Pinto

res cap 5 .jpg

... «Fosse como fosse, contra todos os riscos, sem ter instalações próprias, a Universidade foi transferida para Coimbra em 1537. A razão alegada pelos apologistas é que com o descobrimento da Índia e outras ocasiões, foi crescendo a cidade de Lisboa em povoação de gentes naturais e estrangeiras, mercancia e negócio: com o que se foi fazendo mui incómoda para nela haver Universidade. De facto, num breve de 1537, que D. João III assina -- dir-se-ia faceciosamente -- rei de Portugal e Algarve e 1° de Cambaia, compara Coimbra a Atenas e Lisboa a Corinto, acrescentando: ut Marte actiones Magdalene non officiunt contemplationibus. O espírito era de Martim Gonçalves da Câmara, seu escrivão e bom latinista, que não dele, mas embora. Por estas palavras, Lisboa estaria uma Babilónia acabada, e era preciso precaver os rapazes do contacto da corrupta.
Salta aos olhos do entendimento quanto há de especioso, hipócrita, ou simplesmente absurdo em semelhante critério pedagógico. Com efeito, nada mais turbulento e dispersivo que Paris através da Idade Média e Renascimento, ou mesmo de Salamanca, que chegou a albergar dentro de muros cinco mil escolares com toda a bicharia concomitante. De resto, por esse princípio os grandes centros populacionais ficariam privados de universidades ou sequer de escolas.
Poder-se-ia ter invocado razões mais suasórias: a sugestão dessa mesma Salamanca, cidade particularmente estudantil, isolada na Meseta, arejada e farta, ao abrigo, pela extensão, dos ares mefíticos da Europa, carregados da pestilência das ideias que começavam a entrar tanto pela fronteira marítima como pela terrestre. Podia ainda recomendar-se pela  circunstância de ficar no coração do país, partindo da presunção que os morgados da Riba-Douro apetecessem escrever o nome doutro modo que de cruz. Além dum ambiente de serenidade e quietude, que oferecia Coimbra de especial como sede universitária? Os recursos duma Biblioteca alexandrina ou como a que tem hoje, tampouco. Era-lhe superior a de Alcobaça ou mesmo a que D. Manuel reuniu nos seus Paços, segundo as palavras com que se premuniu mais tarde o Estatuto pombalino.
Indubitavelmente que razões poderosas imperaram no ânimo do rei para se aventurar a um passo que lhe custou os olhos da cara. Não seria apenas por aquela falta de boa cortesia do claustro universitário. Muito menos porque, uma das vezes que visitara Coimbra, lhe houvessem solicitado a recondução dos antigos Estudos. É possível que o ressentimento, transvertido para o plano monárquico, ajudasse a gerar, de mistura com qualquer fobia inibitória, a aversão contra as Escolas Gerais que D. João I bem como D. Manuel davam por afectadas a Lisboa em definitiva. Para todo o sempre -- dizia-se nos alvarás. D. João III foi um mau aluno. Sem embargo de ter preceptores de grande saber, como Diogo Ortiz, Luís Teixeira, Tomé de Torres, verdadeiros atlantes da boa memória, nunca passou da cepa torta nos estudos. Tomou princípios disto, leram-lhe princípios daquilo -- é como lhe formula o discreto historiador a rudeza para as letras, que atribui a inaplicação. Dado o seu feitio reservado, não admira que ficasse de má vontade contra lentes e lentências, um pouco para se vingar da impenetrabilidade ao verbo. Estes miasmas subterrâneos são próprios das almas simples, quanto mais de monarcas.» ...
(continua)
 

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2023
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub