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Set25
«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'DO «CRIME DO PADRE AMARO» ÀS «NOVELAS DO MINHO»' [ 6 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.
«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.
Manuel Pinto





«Uma crítica sagaz da personalidade literária de Eça procuraria, mais que plágios ou decalques, a fonte da sua inspiração. A muitos escritores é necessário que venha de fora, como toque de graça, o verbum, ou a palavra mágica, como entendia M.me de Staël. O Mandarim é o produto dum lugar comum do adagiário francês: tuer le mandarin. Mas o modo de transmissão em naturezas ricas de sensibilidade como Eça deve ser vário e multiforme.
O anúncio nada mais que o anúncio da Faute de l' Abbé Mouret pode muito bem ter provocado a faísca espiritual que determinou o Crime do Padre Amaro. A leitura de Gattina e de Renan, dado o substratum comum de gostos e tendências, pode explicar também a génese da Relíquia. De resto, toda a obra de imaginação supõe um núcleo originário, extrínseco ao artista, com maior ou menor desenvolvimento. Em Eça, excepcionalmente dotado para as operações da forma, isto é, psique ordenadora por excelência, a faculdade estética precisava destes contactos providenciais, desta impregnação verbal para exercer-se. Mas fica por isso desvaliado? É uma modalidade de escritor, e por ela se aparta de Camilo, mais subjectivo, dominado por forças íntimas doutra espécie, tirando mais do próprio peito que do mundo externo a greda com que foi amassando o seu povoadíssimo guinhol.»

«Numa carta ao Visconde de Ouguela, Camilo dizia: Já leste o Crime do Padre Amaro de Eça de Queirós? Li alguns capítulos na Revista Ocidental e achei excelente. Vi anunciado agora o romance em livro. Este rapaz vem tomar a vanguarda a todos os romancistas. É um admirável observador e, conquanto faça pouco caso das imunidades da língua, tem arte de fazer admiráveis defeitos.
A diferença que há nas duas versões, é que a do livro representa já uma decantação. Aqui perde, além ganha, mas no geral sublima-se.»




«Uma vez assim castigado, o Crime do Padre Amaro queda uma jóia lavrada de primeiro fulgor na literatura portuguesa. Noutra carta se refere Camilo ao Crime depois de escorreito da ganga: Estou lendo o romance, que é bastante diverso do que eu lera na Revista Ocidental. Tem admirável paciência de observação plástica; mas, dentro dos tecidos musculares, figura-se-me que vê mal. Quanto à linguagem, às impropriedades reflexo de Flaubert, não estranho nem as abomino; o que me escandaliza são os velhos erros de gramática e os barbarismos, que não usam os satânicos franceses na sua língua. Este livro seria perfeito se o Eça conhecesse a língua um pouco estafada e gordurosa de Luís de Sousa.»
(continua)
