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Out25
«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'DO «CRIME DO PADRE AMARO» ÀS «NOVELAS DO MINHO»' [ 8 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.
«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.
Manuel Pinto



(continuação)
«Com efeito, quando se ateou em Portugal a refesta entre românticos e realistas, lá fora aquilo era já assunto arrumado. Mais longe ainda, o naturalismo, seu prolongamento excessivo, caía em descrédito. Em Portugal, o realismo atingia, à altura em que veio a público o Crime do Padre Amaro, o fervor iluminativo dum credo. No transcurso histórico-literário, este romance veio marcar uma era como aconteceu com a tomada de Constantinopla. Daquela data em diante, nos domínios da arte nacional, não há dúvida que passaram a reinar outras brisas espirituais. O próprio Camilo, à sobre-posse, rosnando, na atitude perante os novos postulados do reptador que não perde uma ocasião de quebrar contra o joelho as armas do adversário, no íntimo da sua atiladíssima consciência estava rendido. O venábulo (*) que lhe restava da sua longa travessia romântica era o sarcasmo, se não fazia parte da defesa, como produto tóxico secretório, do homem superior que tem de haver-se com uma sociedade de primários onde alvoreceu pobre e desvalido. Sempre que pode, despede a flecha e não há santidade bastante que premuna um alvo da sua pontaria.»




«A essa altura tinha já Eça publicado o Primo Basílio, a que correspondiam cronologicamente, na produção camiliana, as Novelas do Minho, jóia das mais finas águas que possui a língua portuguesa, que vieram pôr ponto a uma pausa, em seguida ao fogo de rajada do Cancioneiro Alegre, que pareceu interdição na lavra do mestre.»


«Eça alcançara o fastígio da carreira, e apenas uma vez dera a saber aos seus amigos e leitores que não ignorava a existência do bruxo que em Seide renovava o instrumento em que os trovadores dos Cancioneiros tinham modelados as suas emoções monocórdicas, Camões cantado o Marte lusitano e os frades louvado ao Senhor. Para isso andara ao respigo do linguajar popular, da locução ágil e pejada de compreensão, da frase pitoresca, do verbo que os filólogos desdenharam por não trazer certidão de legitimidade. Com essas achegas, essas riquezas mal empregadas, todo esse numerário vivo e sonoro reformou o capital léxico, mercê do que se poderia atestar que a nacionalidade vive, pois que o seu órgão de transmissão racional evoluiu e se foi adaptando, graças à obra surda, ininterrupta, apicular, digamos, do povo, às condições que trouxeram o tempo e a fortuna. Eça dedilhou outra harpa, maravilhosa sem dúvida, mas as cordas pedidas ao boulevard.
Que admiráveis e gratas a todos nós não seriam as suas composições, com um pouco mais de reverência perante o verbo que lhe encarecia Camilo e que, debaixo da pena deste, foi mais que uma expressão de gramática!»
venábulo (*)

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