"JARDIM DAS TORMENTAS" (1913) (Contos) - Carta-Prefácio de CARLOS MALHEIRO DIAS - [p. 7 de 15]
«Eu não acredito no dogma democrático, ou, para melhor me exprimir, não acredito que a democracia brote duma simples fórmula de jurisprudência política. Vejo na História que de todas as vezes que um regime se implantou para fazer, designadamente, democracia, sempre produziu demagogia. Foram, porventura, igualdade, fraternidade e liberdade que resultaram da revolução portentosa da França? Foi uma modalidade diversa do despotismo. Creio, contrariamente, que a democracia, a única não teórica, demonstrada pela igualdade de todos os cidadãos perante a lei, pela liberdade amplíssima de opinião e pelo exercício autêntico da soberania popular, só pode derivar duma organização social a que presida a disciplina, sob todos os seus aspectos externos e íntimos, de harmonia e de hierarquia. Como os exércitos, os povos sem organização e sem chefes, onde sejam os soldados a mandar, esboroam-se na luta. Não há nada menos democrático do que a revolução. A revolução é a tirania voltada do avesso. Se eu, braviamente cioso da minha independência, como sou, tivesse de optar entre o jugo das aristocracias e o da plebe, sem hesitar preferiria aquele. Concebo que duma aristocracia, como na Grécia e em Roma, se possa fazer uma democracia. Mas que uma obra harmoniosa possa sair das confusões plebeias, não!»
... (Continua)
