"JARDIM DAS TORMENTAS" (1913) (Contos) - Carta-Prefácio de CARLOS MALHEIRO DIAS - [p. 8 de 15]
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AO SR. AQUILINO RIBEIRO
«Estas cousas não as compreenderá o nosso infeliz, desvairado irmão jacobino. Mas o pensador insigne que, depois de em plena crise de exuberância juvenil ter ajudado a carrear os materiais para a revolução, se impregna da coragem mental para escrever as páginas que delimitam o Jardim das Tormentas, esse me compreenderá... Se essa obra de vacuidade e de instabilidade, cuja confusa, assimétrica charpente continuamente vejo em riscos de desmoronar-se (e a que ambiciosamente se chama a democracia portuguesa), tem ainda probabilidade de equilibrar-se, essa consiste no apoio que venham a dar-lhe os aristocratas da inteligência. É para essa aristocracia que terá de apelar a nossa incongruente república de escaravelhos. Só as elites são produtoras de obras perduráveis. Um edifício feito de escórias não se aguenta. Eu sempre sorri, com altivo desprezo, para as ameaças da ignorância. Só o talento governa o mundo. Essa omnipotência tem, às vezes, os seus eclipses. Sobre ela projectam, às vezes, as suas sombras a irracionalidade e o delírio. Mas a mobilidade é a própria natureza das sombras. Elas passarão...»
(Continua)
