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Out23
SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (a.7)-IDENTIFICAÇÃO
Manuel Pinto

«Porquê e para quem escreve? -- perguntar-se-me-á. Não me dirijo de preferência a esta ou àquela classe. Exerço uma actividade que certo dia me pareceu tão honrosa como outra qualquer, a de lenhador por exemplo. Em Portugal há ainda um pouco de prevenção contra um ofício que mal sustenta o obreiro. Entre nós o livro não constitui um produto de primeira necessidade. Se não se quiser dormir ao relento é preciso ser mais alguma coisa do que escritor. Para o bom burguês de Portugal, a nossa profissão significa boémia. As tiragens são muito restritas. Atingir o vigésimo mil é um sucesso fabuloso. Portugal lê pouco e o Brasil procura substituir o português por uma algaraviada da mesma casta do jazz. Se o escritor de segunda ordem não pede esmola é por vergonha. O escritor desdobra-se habitualmente, em manga de alpaca. Eu fui conservador na Biblioteca Nacional como o falecido sr. Anatole Thibault. Hoje sou só romancista. Nem mesmo eleitor. Vivo das letras, o que me dá muita honra. Tenho um público fiel; gente escolhida. O povo, a terceira classe, interessa-me como matéria plástica, não como clientela. Primeiro não sabe ler e, mesmo que soubesse, não compraria livros.
Enfim, a minha obra sou eu próprio. Mas, as personagens a que procurei dar vida não são desdobramentos de mim mesmo. Frequentemente são apenas remates lógicos das personagens que cada um traz em gérmen na maneira de ser e de pensar, mas somente em gérmen. E estes gérmens desenvolvem-se nos romances, com a amplitude que permite a transposição. Houve quem se comprouvesse em me reconhecer no protagonista do romance O Homem que Matou o Diabo, fazendo o trajecto de Castela a Navarra, para ir lançar-se aos pés de uma "star". Viram-me ainda na pele do herói de um outro romance A Via Sinuosa e Lápides Partidas. Não é nada disto. A identificação tem limites.»
