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Out23
SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (a.8)-IDENTIFICAÇÃO
Manuel Pinto
« (...) Certos críticos acusam-me de renovar o vocabulário, à custa da fala do povo. Em muito pequena percentagem, e todavia nunca inventando. Por via de regra, detesto o neologismo. Só por necessidade.
A verdadeira língua viva foi o povo que a fez. Uma cidade com as suas fábricas, os seus museus, os seus palácios, o seu roteiro complicado, tudo isso não é nada como obra humana comparado ao trabalho da língua. Nenhuma alma existiu que não tivesse colaborado nessa admirável construção. Sem engenheiros, sem direcção fixada antecipadamente, abandonada a si própria em absoluto, formou-se lentamente, com segurança, tornando-se cada vez mais hábil, subtil, apta a representar os fenómenos do Mundo, tanto objectivo como abstracto. Como tudo o que tende para a harmonia, tem a preocupação do menor esforço. Tem aversão ao rococó, ao mesquinho, a tudo o que é dengoso. Não gosta de constrituras e só contra vontade aceita a disciplina. A gramática como um enfaixe de múmia. Com a língua portuguesa produziu-se o mesmo fenómeno que se deve ter produzido com as outras línguas neolatinas. A filologia deitou-lhes correias em cima porventura demasiadamente cedo... Quer dizer: antes que ela tivesse adquirido a robustez precisa, para opor as resistências necessárias... Ninguém ignora que o português deriva do latim colonial, misturado com as línguas dos aborígenes, muito provavelmente o euscara, e digo muito provavelmente porque alguns problemas etimológicos, tidos como insolúveis, resolvem-se, presumo eu, com a ajuda de um dicionário basco. Este misto sofreu ainda o cunho dos povos que invadiram a península Ibérica, e beneficiou com o seu comércio considerável.Tudo leva a crer que o elemento linguístico, que se manteve preponderante, foi o elemento original, e que o latim agiu nele à maneira de um enxerto numa árvore. O germânico e o árabe incorporaram-se sucessivamente a esta seiva úbere, depois de terem deposto o que tinham de particular, como línguas já constituídas. A evolução começa a fazer-se com celeridade. Nos fins do século XVIII, o português é um idioma com estrutura própria; é mais que o latim sob a "vestimenta" bárbara. A sintaxe é irregular, a ortografia indecisa, mas encontrámo-nos, apesar disso, diante de um órgão propenso à expressão do pensamento, dotado já de coerência e clareza. Em breve viria a ser a língua musical dos trovadores e dos cronistas: é bárbara na pronúncia, mas canta sobre os lábios; não é morfanha.»...
