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Out23
SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (a.9)-IDENTIFICAÇÃO
Manuel Pinto
«No falar corrente, vê-se que a língua é um instrumento feito pelo povo rude, destinado às democracias. Nem sempre é graciosa, mas é rápida e directa. À medida que se eleva, afasta-se do latim, o latim de forma um pouco sumptuosa como é próprio dos escritores do Lácio, sobretudo os da primeira fila, género Virgílio e Horácio.
E, de repente, a catástrofe! Surgem sábios e doutores em letras. Conhecem o latim a fundo, são ferozes no seu humanismo bebido nos belos espíritos da antiguidade. Que tesouros podia apresentar o novo idioma, comparado com o latim ou o grego? A cantiga do jogral, a historieta ingénua do hagiógrafo, a crónica do clérigo ao serviço do rei... Era pobrete! Ao mesmo tempo que professam um olímpico desdém pela língua vulgar, os mais puritanos rompem a compor em latim; os outros excluem do português toda a expressão duvidosa e toda a palavra que não é "castiça", isto é, que não tem raiz latina. O latim é nobreza. Banidos pois os termos cuja origem era inexplicada, e extravagâncias do falar, que tinham sem dúvida grande beleza, mas cuja fonte era suspeita, e ainda as construções que os gramáticos não podiam submeter à sua disciplina. O primeiro que codifica as regras de sintaxe, Fernão de Oliveira (1536), propõe-se trazer novamente o português ao caminho do latim: o seu esforço aplica-se na justificação da sua teoria por analogias estabelecidas entre as duas línguas. Os lexicógrafos não compõem senão dicionários latinos, um deles é célebre, uma raridade bibliográfica. Dictionnarium Latinum-lusitanicum et vice-versa Lusitanicum-latinum (1569). Um outro, em 1759, apresenta a lista de palavras e expressões a sacrificar, sob o título: "Enfermidades da língua", e deita à toa, na vala comum, verdadeiras riquezas e algumas asnidades. A gente de bom tom já não escrevia em português; o idioma elegante era o latim. Por vezes ia-se até ao espanhol. Um dos livros que gozou de justa fama na Europa, traduzido em quase todas as línguas, intitulava-se: De rebus Emanuelis gestis.»...


