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Out23
SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (b.1) - VIDA E MORTE DO OBREIRO DAS LETRAS
Manuel Pinto

«Passei a vida dobrado sobre a banca de escritor e só há pouco dei conta que estava velho. Como pôde isso ser? Pois parece que foi ainda ontem que fiz o meu curso, que me refugiei em Paris, que bati as perdizes, que amei, e já estou na casa dos setenta?!
No deslize fluvial do tempo, os homens lá vão levados tão rápido que nem reparam, breve atingindo o salto de catarata que os despenha nos abismos do silêncio e da treva.
Ouve-se afirmar que morrer custa pouco, e não passa em última análise de uma reacção simplicíssima como tudo o que ocorre na física de um colóide. A nossa fantasia é que, encharcada dos terrores medievais, pinta de negro caliginoso o panorama da hora derradeira.
Anatole France, no acto de trespassar, dirigia-se à terna sombra maternal, como que alado já acima do seu ser:
-- Mamã! É assim a morte...?!
A um outro espírito gentil, Newton de Macedo, professor de letras, de formação cartesiana e nobre envergadura moral, que sucumbiu, prematuramente, a qualquer enfermidade traiçoeira, também ouviram murmurar:
-- Oh, deixar este Mundo é mais fácil do que se julga.
Seja embora um fenómeno de ordem fisiológica, trivial como outro qualquer, o certo é que em regra não há homem, de bem ou mal com a vida, pouco importa, que não tenha medo de morrer. Descem até penetrais improfundáveis as raízes do instinto de conservação, e anular no plano objectivo essa vis vivedoura não reverte aos foros da consciência.
Mas, assim ou assado, a torrente temporal que nos leva vai-nos envelhecendo e aproximando do inexorável pego e, se se espraiam os olhos em perspectivas interiores, vêem-se alguns homens do nosso tempo deixar-se ir à deriva com a serenidade búdica dos orientais na cheia dos seus grandes rios, e outros bracejar, espadelar a água com o vigor e a fúria de quem faz parte de uma competição. Vale a pena a freima destes últimos?»
