Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

04
Fev26

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'A CARTA PÓSTUMA DE REPRESÁLIA' [22_(1/4)] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

capa 1.jpg

0-3 LARGO.jpg

0-3 B Frente a Frente.jpg
 
Nos escritos inéditos de Eça de Queirós, os primeiros publicados após a sua morte, aparece uma carta a Camilo Castelo Branco, que tem muito que se lhe diga. Reza assim:

 
«Exmo. Sr.  Um tardio correio troxe-me ontem um número, já quáse velho, das Novidades, com um artigo, Nota à Procissão dos Moribundos, em que V. Ex.ª, resmungando e rabujando, se queixa ao público de que eu e os meus amigos " implicavam consigo, sempre que isso vem a talho de foice, e lhe assacamos aleivosias". Como exemplo deste indecoroso hábito, cita V. Ex.ª um período da minha carta a Bernardo Pindela nos Azulejos, em que eu alegremente me rio dos discípulos do Romantismo que, depois de clamarem contra certos escritores como realistas e chafurdadores do lodo, apenas imaginam que o público só esse lodo apetece para seu consumo intelectual, se apressam a escrever na capa dos seus livros: romance realista, para que o público, aliciado pelo rótulo, os compre também a eles, e os leia também a eles... E V. Ex.ª, meu caro confrade, acrescenta logo com a mais consciente certeza: "Ora isto é comigo!"»

229.jpg

230.jpg

«Suponha que um dia, numa novela, V. Ex.ª descreve, com o seu vernáculo e torneado relevo, certo animal de longas orelhas felpudas, de rabo tosco, de anca surrada pela albarda, que orneia e que abunda em Cacilhas... E suponha ainda que, ao ler essa colorida página, eu exclamo, apalpando-me ansiosamente por todo o corpo: «Grandes orelhas, rabo tosco, anca pelada... É comigo!» Que diria V. Ex.ª, meu prezado confrade?

V. Ex.ª balbuciaria aturdido: «Eu não sei, eu vivo longe... Se as suas orelhas são assim longas, e se o albardão o despelou, há realmente concordância... Mas na verdade creia que, mencionando esse animal venerável, não me raiou no ânimo a mais ténue, remota intenção...» Assim, embaraçado e surpreso, diria V. Ex.ª. E assim eu digo. V. Ex.ª deve conhecer melhor que eu, que sou distraído e vivo longe, as capas dos seus livros: se V. Ex.ª para atrair a multidão nelas colou, ou consentiu que os seus editores colassem, esse rótulo: 'romance realista' -- por não poderem legalmente adorná-las com esse outro mais cativante: 'romance obsceno'-- então de certo aquilo é consigo. Mas a intransigente verdade me força a confessar que, escrevendo esse período da carta a Bernardo Pindela, eu não pensava no autor da Corja. Se eu quisesse acusar dessa abjecta concessão às exigências da venda um homem que há trinta anos é ilustre na literatura portuguesa -- teria escrito o nome todo de V. Ex.ª sem omitir um só título. Há personalidades a quem, por isso mesmo que são fortes, se não alude timoratamente e de longe. Já deste modo se pensava na Corte de El-rei Artur: "Se queres falar de Percival, dize bem alto: Percival, e tira a espada." Assim gritava esse cavaleiro, flor dos bons, na velha cidade de Camerlon, uma tarde em que havia algazarra e ciúmes junto à Tavola Redonda. Não se trata de certo aqui de compridas espadas a desembainhar. Mas não deixa de ficar bem a um débil homem de letras, como eu, o seguir essa lição de lealdade e valor dada pelo possante homem de armas Percival.»

231.jpg

«Assim o exemplo aduzido por V. Ex.ª para demonstrar o meu escandaloso hábito de -- implicar consigo-- é realmente mal escolhido. Mas permanece, todavia, a queixa, feita ao público, com tanta rabujice e com tanto azedume, de que -- eu e os meus amigos, sempre que isso vem a talho de foice, lhe assacamos aleivosias.»

« Aleivosias é um termo formidável e sombrio que, se me não engana o vetusto e único Dicionário que me ampara nesta dura labutacão do estilo significa -- «maldade cometida traiçoeiramente com mostras de amizade, insídia, perfídia, maquinação contra a vida e reputação de alguém, etc.» Tudo isto é pavoroso. Mas eu suponho que, sob essas vagas palavras de implicação e aleivosia, V. Ex.ª quer muito simplesmente queixar-se de que eu e os meus amigos o não consideramos um escritor tão ilustre, com um tão alto lugar nas letras portuguesas como o costumam considerar os amigos de V. Ex.ª. Ora aqui V. Ex.ª se ilude singularmente.»

232 AA.jpg

«Eu nunca tive, é certo, a oportunidade deleitável de apreciar, nem em copioso artigo, nem sequer em curta linha, a obra de  V. Ex.ª. Mas sou meridional, portanto loquaz. Por vezes, entre amigos e fumando a 'cigarette', tem vindo «a talho de fouce» conversar sobre a personalidade literária de V. Ex.ª. E, louvado seja Apolo aurinitente, sempre me exprimi sobre o autor do ' Esqueleto' dum modo que é irrecusavelmente mais digno dele e da sua obra do que esse outro estranho modo por que o costumam decantar aqueles que se ufanam já na palestra, já na imprensa, de serem seus amigos e discípulos.»

(continua)

31
Jan26

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'CAMILO CONTRA-ATACA' [ 21 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

sample

0-3 LARGO.jpg

0-3 B Frente a Frente.jpg

(Continuação)

«A Relíquia essa é uma variegada urdidura de fios do estilo rendilhado de Edgard Quinet, cartonada em pedaços do velho cenário burlesco de Paul de Kock e Crébillon -- figurações e tramoias de peça mágica. A alma esplêndida do livro, metida em corpo assás deformado de gibosidades, é o sonho da Paixão de Jesus de Nazaré, um 5º Evangelho, sonhado pelo pulha Dom Rapôso, desbragado garoto.»
«Em que miolos tão reles, hipnotisados em todos os alcouces daquem e dalém mar, o refulgente frasista sugeriu um sonho de transcendente ascese com 150 páginas!... (...)»
 

224. BB.jpg

225.jpg

«Deixem, pois, acordar Homero, e esperem ver cumpridas as promessas do eminente artista. O forte cérebro do auctor do Crime do Padre Amaro pode convulsionar-se doentiamente em epilepsias de desconchavos; mas ameaçar desabamento, isso não. Ninguém se cansa em jornada plumitiva tão curta como tem sido a do sr. Eça.»
 
«Eu nunca disse deste estimável escritor senão coisas bonitas e nunca lhas direi senão justas, segundo o meu sentimento de justiça. Não obstante, o sr. Eça, e alguns seus amigos, -- que não podem festejá-lo a berros de entusiasmo sem incomodarem os vizinhos, e não o sabem acariciar sem escoucear os outros -- sempre que lhes vem a talho de foice implicam comigo, assacando-me aleivosias. Aqui está uma do sr. Eça, do General, que pelo feitio parece cabo de esquadra.»
 

226.jpg

«A páginas XX e XXI do prefácio aos agradáveis Azulejos do meu talentoso amigo Bernardo de Pindela, lê-se esta dura sova: «Os discípulos do idealismo, para não serem de todo esquecidos, agacham-se melancolicamente e, com lágrimas represas, bezuntam-se também de lodo. Sim, amigo, estes homens puros, vestidos de linho puro, que tão indignadamente nos arguiram de chafurdarmos num lameiro, vêm agora pé ante pé enlabuzar-se com a nossa lama! Depois, erguendo bem alto as capas dos seus livros, onde escreveram em grossas letras este letreiro -- romance realista -- parece dizerem ao público, com um sorriso triste na face mascarrada: -- Olhem também para nós... Acreditem que também somos muitíssimo grosseiros e que também somos muitíssimo sujos!»
 
«Deus nos acuda!»
 
«Ora aquilo é comigo.O sr. Eça de Queiroz desembestou aquela frecha apontada ao meu peito inocente; mas alvejou com seu olho mais míope, ou sacrificou a verdade a umas pitorescas frases azedas e já bastante poídas que não valiam a pena do holocausto.»
 

227.jpg

 
«Em primeiro lugareu nunca censurei a pouca limpeza dos livros do sr. Eça; e, sempre que de passagem os indiquei, foi para os elogiar incondicionalmente; porque para mim livros sujos são somente os mal escritos. Em segundo lugar, nenhuma novela minha se inculca na capa romance realista. Alguém arguiu, com razão, um meu editor que nos anúncios da 4ª página dos jornais especializava a factura realista da novela. Daí procedeu talvez o equívoco importuno e flagedor do sr. Eça de Queiroz. Se s. ex.ª me julgasse menos irracional do que o seu modo de ler os frontispícios dos meus livros sem os ver (eu é que vejo tudo quanto o insigne romancista imprime) duvidaria que eu fosse capaz dessa parvoiçada para chamar aos meus romances a atenção dos leitores de s. ex.ª. Credo! Pois eu precisaria, para ser visto, de me nivelar com a espádua literária do sr. Eça? Mas, se o fizesse, era essa a maneira de me tornar invisível como diz a sentença de não sei que grande sábio... Talvez seja do grande sr. Eça de Queiroz a sábia sentença.»
 

228 A.jpg

«Estas palavras, que sem serem indignas de Camilo não acusam a forja admirável donde brotaram as áscuas [*] terríveis, homéricas, contra Alexandre da Conceição, o Pe. Rodrigues, o Dr. Calisto, no fundo representam a maior homenagem a que Eça poderia ambicionar na sua carreira de escritor.» 
Perladas de certa amargura, mesmo da acidez corrosiva do rancor, como quando se referem à Relíquia, vista por uma luneta tendenciosamente esfumada, trazem um preito sublimado ao inovador do romance em Portugal. Sim, o primeiro grande escritor público de Portugal rendia homenagem ao primeiro grande artista das letras pátrias. Como iria Eça recebê-la?»
 
dicionário DLP Adcademia das Ciencias.png
áscuas [*] 
“áscua”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
 
22
Jan26

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'CAMILO CONTRA-ATACA' [ 20 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

capa 1.jpg

0-3 LARGO.jpg

0-3 B Frente a Frente.jpg

 
«Em 1887 vinha a lume o Óbolo às Crianças, publicação organizada com intuitos filantrópicos, escrita na sua quase totalidade por Camilo, sob o pseudónimo de Egresso Bernardo de Brito Júnior, e por Francisco Martins Sarmento, esse com o pseudónimo de Fr. Fagundes. Com exsudada melancolia, inseria Camilo nesse livro as chamadas procissões dos moribundos e procissão dos mortos ou o registo dos defuntos e sobreviventes da geração de que fazia parte e que se abeirava do ocaso. (...)»
 

221.jpg

«Os dois períodos seguintes chegam para exemplificar o ressentimento que lhe merecia em seu desdém para com a herança literária representada por ele e mais moribundos.»
«Haja quem faça hoje o rol dos escritores das gerações subsequentes à minha, e demonstre, para crédito das letras pátrias em progresso, que toda a obra dos operários, entre os quais eu martelei quarenta anos, não pode sequer envaidecer-se como escaleira por onde trepou a geração nova. Ah, meus velhos camaradas, não nos envergonhemos da nossa rude e despremiada empresa de cabouqueiros quando a gente moça, saindo às janelas da casa que edificámos, baldear chocarrices sobre a nossa profissão de moribundos que vão passando e caindo!»...
 

222.jpg

 
«Semelhante desabafo certifica-nos da repercussão dolorosa que levantou em Camilo a hostilidade dos naturalistas, a cuja escola acabara por render preito não só com reconhecer a renovação técnica que imprimira à literatura como em se adequar seus métodos. Em verdade, como já dissemos, o grande agravo que Camilo podia invocar contra Eça e seus corifeus, era o menoscabo a que o lançaram. Está na índole de todos os movimentos revolucionários passar-se de sapatos brochados sobre o que se encontra no caminho.Todo o existente é detestável e inútil. Mas numa cadeia de factos e ideações, como é a literatura, um fusil coliga com outro; o segundo não se compreende sem o primeiro.»
 

223.jpg

«Portanto, o naturalismo português, por muito afrancesado que fosse, tinha que ter um antecessor, entroncar nele, e dele receber a flux subsidiária, léxica à falta de melhor. E assim sucedeu. O romantismo  português, personificado em Camilo, forjou duma língua de frades e de poetas, toda enfática e chorona, uma língua viril com módulos e acentos para qualquer género de acção e de pensamento. Desarticulou-a, acepilhou-a [*], introduziu-lhe ralé e vivacidade. Tornou-a um órgão de gama opulenta, quando não passava duma espécie de flauta pastoril com um orifício para o sopro, outro para a modulação.»
 

224.AA.jpg

«Bem justo que Eçaaté certo ponto Ramalho trouxeram a arte do epíteto, professada em França pelos Goncourt, Flaubert, Daudet. Mas o vigor linguístico do verbo, sua variedade dinâmica, seu expressionismo peculiar, sua impressiva e cromática fisionomia, deu-lha Camilo melhor do que ninguém. Neste particular, os naturalistas ficaram a muitas léguas de distância do poderoso lavrante das letras. Eça foi um joalheiro de ritmos novos e finura insuperável na entomologia do adjectivo. Mas, tenhamos a coragem de o dizer, há nisso um esforço de paciência, que no fundo não é outra coisa senão o recurso de quem é pobre de ideias e pouco esperto de facúndia e facilidade. Arte menor, sensual até nos seus voos subjectivos, cheia de sugestões e requebros, esta do Eça; incomparavelmente mais robusta, se bem que desordenada, a de Camilo. O desdém que Eça sempre manifestou pelos predecessores transparece dos períodos atrás reproduzidos, coados pela sensibilidade de Camilo.
 
«Depois das páginas, sem dúvida, de alta beleza de Eça, no prefácio dos Azulejos, Camilo não era homem que se limitasse a regougar. Com vir à baila o nome de José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, pai de Eça, um dos moribundos, autor do poema idealista o Castelo do Lago, ofereceu-se-lhe o ensejo de calar viseira e acometer.»
 
«Vale a pena extractar a página na íntegra, pois que é a última, que se saiba, na peguilhada desavença com Eça.»
«Este meritíssimo magistrado em instância superior e par do reino escreveu versos, na sua mocidade académica, irisados e subjectivamente petrarquistas, dos melhores que então se melodiavam no alaúde trovadoresco. Entre as suas produções dessa época subsiste um poema de extenso fôlego, scoteano, intitulado o Castelo do Lago. Todavia, a estremada emanação literária do insigne magistrado é seu filho sr. Eça de Queiróz, o implantador da novela realista na charneca lusitana. Tem este escritor dois notórios livros, os primeiros, de factura solida, humana e perdurável, que jamais poderão ser desvalorizados pelas duas obras paradoxais, com que a sua caprichosa fantasia esteve brincando alguns anos -- o Mandarim e a Relíquia. É a primeira uma espécie de apólogo, encardido pelo tempo, reflexo de quimeras obsoletas, umas fabularias chinesas, de todo espúrias na actualidade das nossas condições biológicas e exigências do espírito.»
 
dicionário DLP Adcademia das Ciencias.png
acepilhou-a [*]
“acepilhar”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
 
(continua)

 

14
Jan26

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'EÇA VOLTA A ATACAR' [ 19 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

sample

0-3 LARGO.jpg

0-3 B Frente a Frente.jpg

(continuação)
 
«Em matéria da inteireza com que o naturalismo observa a vida, sem receio de fazer corar as meninas, estribando-se em Feuillet, pedagogo dos bons costumes para uso de donzelas, poderiam os românticos perguntar a Eça pela página do autor citado que assoalha axiomas tão escarlates.
É intuitivo que na ordem de argumentos aduzidos por Eça convinha Octave Feuillet, o romancista dos panos quentes e não os Goncourts, que faziam gala em escalpelizar as podridões sociais sem rebuço nem tamiz [*], e de quem é a frase relativa à candura das meninas da primeira comunhão.» 
 

217 BB.jpg

218.jpg

«Neste meio tempo, Camilo publicara Vulcões de Lama, onde um crasso naturalismo parece decantado da burla e achincalhe para ficar obra estrénua de escola. 
Eça, quase simultâneamente, aparecia com a Relíquia, obra encantadora não obstante o compósito. De certo semelhante trabalho é um daqueles em que são mais visíveis as qualidades e defeitos do autor: uma ironia irreverente e procurada; uma prosa embaladora; pouca imaginação e muito espírito-santo de orelha; uma rapsódia com acordes alheios, destes que teimosamente mais que voluntariamente obssidiam o cérebro. Este livro em cuja tecitura se vêem passar as sombras eliseanas de P. Gattina, de Flaubert, de Renan, de Rollinat, foi desde logo objecto de acerbas críticas. Nas demais obras de Eça, este desplante em se enfeitar com as jóias dos outros está mais ou menos disfarçado. Aqui Eça não se deu a essa hipocrisia.»
 

219.jpg

«Camilo que estava à espreita das produções da escola realista, mandou adquirir a Relíquia, pois que Eça não lhe oferecia os seus vient de paraître e anotou-o. Logo no ante-rosto se lê no exemplar existente em Seide: «Tirante as descrições topográficas de alguns pontos da Palestina -- de certo exageradas por tintas fictícias -- este livro como romance é uma pochade, em que todos os caracteres são caricaturas e armadilhas às gargalhadas da baixa comédia. Os plágios são frequentes.»
 
(...) Na última página lançou um juízo severo: «Este livro tem duas partes: 1ª, porcaria, 2ª, maçada. É uma pochade à Paul de Kock: chalaças hiperbolicamente inverosímeis; uma vontade despótica de fazer rir à custa de tudo. Mas não é isso o que o torna um mau livro. É a falta absoluta de bom senso e de bom gosto. Pode considerar-se uma decadência por ter sido escrito depois dos Maias que deve ser melhor.»
 
«O singular é que a Relíquia, impregnada do tonus das Memórias de Judas de Petrucelli della Gattina, tenha sobrenadado à flor da literatura portuguesa; e que a obra paradigma tenha sossobrado com o nome do autor no mare-magnum das letras estrangeiras. Que absurdo destino é este, o dos livros, ou que estranho desnível de méritos há da nossa plana literária para a plana internacional?»
 
dicionário DLP Adcademia das Ciencias.png
tamiz [*] (tamis)
 “tamis”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
      Disponível em: 
 
* * * * * * * * * * * * * * * *  

Dic. Houaiss.jpg

tamis-tamisação-tamização.jpg

tamisar-tamizar.jpg

07
Jan26

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'EÇA VOLTA A ATACAR' [ 18 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

 

capa 1.jpg

0-3 LARGO.jpg

0-3 B Frente a Frente.jpg

213.jpg

«Com um pequeno intervalo de semanas, rompia de Bristol nova investida contra o romantismo. Eça de Queirós aproveitava-se do ádito das obras, a que o chamavam como padrinho, à laia de plataforma de tiro. No Brasileiro Soares, primeiro, logo a seguir nos Azulejos do conde de Arnoso. Qualquer dos livros roçava pela mediocridade, mas tratava-se de amigos, de pessoas de tom, e Eça não sabia resistir à solicitude cortesã.
Pois nesse prefácio, a certa altura aponta baterias ao campo inimigo. Eça não era um polemista na vera acepção da palavra. Para o polemista, tal como o concebiam ao tempo, todo o floreio externo se damasquinava de zombaria, troça, ridicularização e verrina. Estes efeitos estavam fora de toda a possibilidade para um temperamento como o dele. No que levava a palma, era na ironia. Mas a ironia não suporta o embate do sarcasmo. A ironia é por sua natureza monovalente. Eça poderia escrever páginas superiores, sobre as quais o adversário acabasse por chafurdar na sua mesquinhez e insignificância, vencido e humilhado. Mas para a esgrima literária, tal como a praticava Camilo a cada passo, florete, partasana, moca se necessário fosse, não contassem com ele. Quando saía a combater fazia-o inopinadamente; despejava a sua aljava, onde havia graça, chiste, epigrama, agudeza, formas cromadas da ironia, e metia-se em copas. A farsa, a sátira, a descompostura não sabia o que fossem. Francamente combativo, jamais a sua combatividade o obrigou alguma vez a recarregar o adversário. Nisto era diferente de Camilo como da noite para o dia.»
 
 

214.jpg

Escrevia Eça de preliminar a Azulejos:
«Não temes que o teu livro, flor de literatura, casta de aroma e de cor, seja tratado como um desses frutos podres que ama o naturalismo? Frutos medonhos que têm depravado o paladar das multidões, a um ponto que só eles apetecem e só eles se vendem, e já ninguém vai feirar aos gigos onde vermelham os frescos morangos acabados de colher no morangal do romantismo!? (...)»
«Mas como tu sabes, amigo, nesta capital do nosso Reino permanece a opinião cimentada a pedra e cal, entre leigos e entre letrados, que naturalismo ou, como a capital diz, realismo -- é grosseria e sujidade! Não tens tu reparado que quando um jornalista, copiando no seu jornal com pena hábil a parte da polícia, que é o roast-beef da imprensa um bruto que proferiu palavras imundas, nunca deixa de lhe chamar com uma ironia cujo brilho raro o enche de justo orgulho -- discípulo de Zola? -- Não tens notado que nos periódicos, quando se quer definir uma maneira especial de ser torpe, se emprega esta expressão consagrada -- à Zola? Não tens tu visto que, ao descrever um caso sórdido ou bestial, o homem da gazeta acrescenta sempre com um desdém grandioso: para contar bem como tudo se passou precisávamos saber manejar a pena de Zola? Assim é, assim é! Estranha maravilha da asneira! O nome do épico genial de Germinal e da Oeuvre serve para simbolizar tudo o que em actos e palavras é grosseiro e imundo! (...) Também em França e Inglaterra, há quinze anos, houve a mesma opinião sobre o naturalismo; também gritaram grosseria, sujidade os néscios e os malignos ao aparecerem essas vivas, rijas, fecundas, resplandecentes criações do Assomoir e de Nana.»
 

215.jpg

216.jpg

217 AA.jpg

«De tal sorte, que assistimos a esta cousa pavorosa: os discípulos do idealismo para não serem de todo esquecidos agacham-se melancolicamente e com lágrimas represas bezuntam-se de lodo! Sim, amigo, estes homens puros, vestidos de linho puro, que tão indignadamente nos arguiram de chafurdarmos num lameiro vêm agora pé ante pé enlabuzar-se com a nossa lama! Depois soerguendo bem alto a capa dos seus livros, onde escreveram em grossas letras este letreiro -- romance realista -- parece dizerem ao público, com um sorriso triste na face mascarada: -- Olhem também para nós, leiam-nos também a nós... Acreditem que também somos muitíssimo grosseiros e que também somos muitíssimo sujos.»

(continua)

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Favoritos

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2023
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub