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Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

13
Set25

AQUILINO RIBEIRO nasceu há 140 Anos: 13 de Setembro de 1885.

Aquilino Ribeiro: (Sernancelhe, 1885 -- Lisboa, 1963).

Manuel Pinto

  AQUILINO    

«Quem folhear os livros de Aquilino, encontra em regra, no verso de uma das primeiras páginas, a marca do autor. Essa marca é representada por uma águia, de asas abertas, encimada pela palavra "Aquilino". Sabendo nós que águia e Aquilino pertencem à mesma família, não nos causará estranheza que o romancista da Via Sinuosa e das Terras do Demo haja escolhido uma águia para marca do seu sinete. Estranheza poderá causar o facto de o romancista se chamar Aquilino -- nome tão raro como os corvos brancos. Mas, melhor ou pior, tudo tem neste mundo a sua explicação e por consequência, o nome de Aquilino não podia deixar de ter a sua. O escritor nasceu em 13 de Setembro de 1885. Nessa época, e se digo nessa época porque o calendário sob este aspecto não é imutável, o dia 13 de Setembro era consagrado a Santo Aquilino. A mãe do escritor, senhora muito religiosa, quis que o filho tivesse o nome do Santo do dia em que ele nasceu, e assim foi. Esta circunstância não veio a ter -- porque ocultá-lo? -- grande influência, sob o ponto de vista litúrgico, na vida espiritual do escritor. Se não temesse ser indiscreto, eu contaria mesmo que uma dama gentilíssima mandou, um dia, a Aquilino Ribeiro um registo de Santo Aquilino acompanhado de algumas profundas palavras de catequese. Aquilino sorriu e limitou-se a comentar:
    -- Se existe já um Santo Aquilino, para que é preciso outro?»
(... ... ...)
«Não é, porém, aquela águia de asas abertas, que constitui propriamente o ex-líbris de Aquilino Ribeiro. Aquela águia  não é senão a marca do  sinete  com que Aquilino chancela os exemplares das suas obras: o seu ex-líbris  é diferenteRepresenta um cavaleiro a galope, seguido fielmente, por um cão, e tendo esta frase por legenda«Alcança quem não cansa». Desenhou-o Leal da Câmara!
A simples citação deste nome evoca em todos nós um grande artista de múltiplas aptidões; mas evoca em mim -- e em Aquilino também -- um amigo inolvidável. Leal da Câmara

Luís de Oliveira Guimarães, «AQUILINO RIBEIRO - Através do seu Ex-Líbris» (1955)

 

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 O HOMEM E O EX-LÍBRIS 

«Portugal tem, desde Novembro de 1953, uma Academia de Ex-Líbris. A Academia tem a sua sede em Lisboa. Carlos Lobo de Oliveira, que doutamente preside à sua direcção, dizia-me uma tarde, que esta Academia não tinha senão vinte e cinco por cento de imortalidade. Trata-se duma modéstia respeitável que, entretanto, a matemática dos factos se permite contrariar. Poderá estabelecer-se uma percentagem para a mortalidade; para a imortalidade, não. Quando as instituições são imortais,  quando os homens são imortais, são imortais cem por cento: o que pode acontecer (e, frequentemente, acontece) é que a sua imortalidade cem por cento não dura senão algum tempo. O filho dum ilustre e espirituoso membro da Academia Francesa perguntava, uma vez, ao pai, com a cândida ingenuidade dos seus nove anos:
    -- O que é ser imortal, papá?
    -- É ser da Academia...
    -- E o papá é imortal, não é?
    -- Sou, -- enquanto for vivo!
Como quer que seja, esta Academia de Ex-Líbris, à qual desejo longa e profícua existência, merece o mais justificado respeito, não só pelas pessoas que a compõem, como pelos objectivos que a norteiam. Estas palavras -- devo acentuá-lo -- revestem-se de tanto maior imparcialidade quanto é certo que eu não sou ex-librista. No tempo em que escrevi as Saias Curtas -- há tanto tempo que as saias, desde então para cá, já desceram trinta centímetros e eu já envelheci trinta anos -- pensei em arranjar um ex-líbris. Cheguei mesmo a idealizá-lo. Representaria uma bonita rapariga a ler e a fumar, recostada num maple, com a perna cruzada mostrando a liga, e, à volta, esta legenda significativa: Per omnia soecula soecolorum. Felizmente a ideia não se converteu em realidade, e digo felizmente porque graves coisas teriam acontecido se eu colocasse este ex-líbris, por exemplo, no Monge de Cister ou no Eurico, o Presbítero. Tão austeros varões pediriam a intervenção da polícia ou (o que era mais provável e mais sério ainda) acabariam por perder a cabeça pela rapariga que eu, insensatamente, lhes metera debaixo da capa.»

Luís de Oliveira Guimarães, «AQUILINO RIBEIRO - Através do seu Ex-Líbris» (1955)

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Imagens extraídas do Livro:

 «AQUILINO EM PARIS» de Jorge Reis, Ensaio (1986).  "Vega e Jorge Reis"

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Aquilino Ribeiro – Parte I – RTP Arquivos

Primeira parte do documentário sobre a vida e obra do escritor Aquilino Ribeiro: "O homem político, democrata e amante da liberdade". Inclui imagens de arquivo e depoimentos diversos.

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/aquilino-ribeiro-parte-i-3/

 

Aquilino Ribeiro – Parte II – RTP Arquivos

Segunda parte do documentário sobre a vida e obra do escritor Aquilino Ribeiro: "Letras que dão voz ao povo. O amor pela terra, pelas suas gentes, pela vida". Inclui imagens de arquivo e depoimentos diversos.

«Aquilino possuía, como nenhum outro, a sabedoria da língua e dos segredos gramaticais e estilísticos: metáforas, sinédoques, parábolas, fábulas, analogias, um arsenal de conhecimentos que aplicava nos livros com alegre desenvoltura.»

Armando Baptista-Bastos

 

«Aquilino, no seu saber de amor feito, conhecedor profundo de aldeias e vilas, e suas gentes, campónios, fidalgos, brasileiros, padres, almocreves, da meseta lusitana, cantor do sol e da noite e dos próprios lobos companheiro. Romancista da inteligência e da coragem, da rebeldia mas também da astúcia, da paixão concentrada e também do desejo à solta, observador prodigioso, mestre da língua como nenhum outro escritor deste século.»

Urbano Tavares Rodrigues

 

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Entrevista transmitida no Rádio Clube Português, na rubrica "Perfil de um Artista", a 16 de Julho de 1957. Realização de Igrejas Caeiro.
 
 
(I) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 1/4)   duraçao: 9:50 m.
 

 

(II) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 2/4)

 
(III) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 3/4)
 

 
(IV) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 4/4)
 

 

… «A meia grosa de livros que escrevi foram de facto para mim, em tanto que obra de criação e exalçamento, como igual número de vinhas que plantasse. Nesta faina exaustiva tive de desatender à vida de relações, não cultivar como devia a amizade, remeter os meus à vis própria quando poderia com um pouco de arte, salamaleque, e o "quantum satis" da desvergonha cívica nacional, consagrada e triunfante, guindá-los a ministros ou banqueiros. Permiti ainda, levado na minha obsessão, que os gatunos oficiais e de mister me metessem as mãos nas algibeiras, os pirangas me ludibriassem, e toda a canzoada humana me ladrasse impunemente. Numa palavra, a vida utilitária, o arranjinho, a conveniência mundana nunca me roubaram um minuto de labor. Valeu a pena toda esta existência de sacrifício, de que ninguém se apercebeu, que ninguém me agradece, de que aliás ninguém me encomendou o sermão? Em minha consciência não sei responder.»...

Excerto da dedicatória do livro «Quando os Lobos Uivam» ao Dr. Francisco Pulido Valente, datada de Dezembro de 1958.

 

19
Abr25

«AQUILINO RIBEIRO - Através do seu Ex-Líbris», (1955) por Luís de Oliveira Guimarães

Luís de Oliveira Guimarães, «AQUILINO RIBEIRO - Através do seu Ex-Líbris» (1955)

Manuel Pinto
 
 
Nascimento de Luís de Oliveira Guimarães

«A 19 de Abril de 1900, nasceu o magistrado, escritor, dramaturgo, jornalista e humorista português Luís de Oliveira Guimarães.»

                       (19 de abril de 1900, na Quinta do Castelo, na vila do Espinhal (Penela) - 5 de maio de 1998, Lisboa)
 

Amante da ruralidade portuguesa e frequentador assíduo dos bastidores intelectuais dos centros urbanos, privou com os vultos mais marcantes dessa época e soube traduzir, nas suas inúmeras crónicas, conferências e livros, quer a singeleza da cultura tradicional portuguesa, quer o fino espírito dos intelectuais do seu tempo.
Lembrar a sua figura frágil e a sua palavra entusiasmante, a vivacidade da sua personalidade pública e o seu afectuoso trato no espaço familiar é, por isso, um dever que cumprimos com grande júbilo.
Para a Família é uma oportunidade extremamente gratificante de dar a conhecer a pessoa através do seu espólio, podendo, deste modo, reviver o privilégio que foi privar com uma individualidade ímpar e contribuir para a preservação da sua memória.
                   Paula Oliveira Guimarães

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O HOMEM E O EX-LÍBRIS

«Portugal tem, desde Novembro de 1953, uma Academia de Ex-Líbris. A Academia tem a sua sede em Lisboa. Carlos Lobo de Oliveira, que doutamente preside à sua direcção, dizia-me uma tarde, que esta Academia não tinha senão vinte e cinco por cento de imortalidade. Trata-se duma modéstia respeitável que, entretanto, a matemática dos factos se permite contrariar. Poderá estabelecer-se uma percentagem para a mortalidade; para a imortalidade, não. Quando as instituições são imortais,  quando os homens são imortais, são imortais cem por cento: o que pode acontecer (e, frequentemente, acontece) é que a sua imortalidade cem por cento não dura senão algum tempo. O filho dum ilustre e espirituoso membro da Academia Francesa perguntava, uma vez, ao pai, com a cândida ingenuidade dos seus nove anos:
    -- O que é ser imortal, papá?
    -- É ser da Academia...
    -- E o papá é imortal, não é?
    -- Sou, -- enquanto for vivo!
Como quer que seja, esta Academia de Ex-Líbris, à qual desejo longa e profícua existência, merece o mais justificado respeito, não só pelas pessoas que a compõem, como pelos objectivos que a norteiam. Estas palavras -- devo acentuá-lo -- revestem-se de tanto maior imparcialidade quanto é certo que eu não sou ex-librista. No tempo em que escrevi as Saias Curtas -- há tanto tempo que as saias, desde então para cá, já desceram trinta centímetros e eu já envelheci trinta anos -- pensei em arranjar um ex-líbris. Cheguei mesmo a idealizá-lo. Representaria uma bonita rapariga a ler e a fumar, recostada num maple, com a perna cruzada mostrando a liga, e, à volta, esta legenda significativa: Per omnia soecula soecolorum. Felizmente a ideia não se converteu em realidade, e digo felizmente porque graves coisas teriam acontecido se eu colocasse este ex-líbris, por exemplo, no Monge de Cister ou no Eurico, o Presbítero. Tão austeros varões pediriam a intervenção da polícia ou (o que era mais provável e mais sério ainda) acabariam por perder a cabeça pela rapariga que eu, insensatamente, lhes metera debaixo da capa.»

 

 

AQUILINO   

«Quem folhear os livros de Aquilino, encontra em regra, no verso de uma das primeiras páginas, a marca do autor. Essa marca é representada por uma águia, de asas abertas, encimada pela palavra "Aquilino". Sabendo nós que águia e Aquilino pertencem à mesma família, não nos causará estranheza que o romancista da Via Sinuosa e das Terras do Demo haja escolhido uma águia para marca do seu sinete. Estranheza poderá causar o facto de o romancista se chamar Aquilino -- nome tão raro como os corvos brancos. Mas, melhor ou pior, tudo tem neste mundo a sua explicação e por consequência, o nome de Aquilino não podia deixar de ter a sua. O escritor nasceu em 13 de Setembro de 1885. Nessa época, e se digo nessa época porque o calendário sob este aspecto não é imutável, o dia 13 de Setembro era consagrado a Santo Aquilino. A mãe do escritor, senhora muito religiosa, quis que o filho tivesse o nome do Santo do dia em que ele nasceu, e assim foi. Esta circunstância não veio a ter -- porque ocultá-lo? -- grande influência, sob o ponto de vista litúrgico, na vida espiritual do escritor. Se não temesse ser indiscreto, eu contaria mesmo que uma dama gentilíssima mandou, um dia, a Aquilino Ribeiro um registo de Santo Aquilino acompanhado de algumas profundas palavras de catequese. Aquilino sorriu e limitou-se a comentar:
    -- Se existe já um Santo Aquilino, para que é preciso outro?»
(... ... ...)
«Não é, porém, aquela águia de asas abertas, que constitui propriamente o ex-líbris de Aquilino Ribeiro. Aquela águia não é senão a marca do sinete com que Aquilino chancela os exemplares das suas obras: o seu ex-líbris é diferente. Representa um cavaleiro a galope, seguido fielmente, por um cão, e tendo esta frase por legenda: «Alcança quem não cansa». Desenhou-o Leal da Câmara!
A simples citação deste nome evoca em todos nós um grande artista de múltiplas aptidões; mas evoca em mim -- e em Aquilino também -- um amigo inolvidável. Leal da Câmara!»

                                                                                       *

«Examinando o ex-líbris de Aquilino, facilmente se colherá a filosofia que dele transparece. Não se torna, com efeito, difícil adivinhar que aquele cavaleiro, aquele cão e aquela legenda significam, na sua expressão alegórica, que, neste mundo, quem se cansar depressa nunca ou quase nunca alcança. É a velha história do cavaleiro e do dorminhoco. Certo caminhante, indo de jornada, encontrou uma fonte, sentou-se junto dela e adormeceu profundamente. A dada altura, foi despertado pelo tropear dum cavalo e viu um cavaleiro, esbelto e fogoso, parar junto da fonte, apear-se, beber água, dar de beber ao animal e preparar-se, rapidamente, para retomar a sua marcha:
    -- Aonde ides com tanta pressa? -- perguntou-lhe o dorminhoco, bocejando.
E o cavaleiro respondeu, logo partindo a galope:
    -- Aonde tu nunca irás, se continuares aí, dormindo!
Sim! Na vida em regra, só os que não cansam, alcançam. Ao olhar o ex-líbris de Aquilino Ribeiro, ao observar aquele cavaleiro, e o  cão e a legenda que o acompanham, vejo eu (e, por certo, todos vêem) não uma mera fantasia gráfica, embora conceituosa, mas uma síntese simbólica da infatigável existência, física e espiritual, sempre fiel a si mesma, do próprio Aquilino. Já, há quarenta anos, no prefácio do "Jardim das Tormentas", Carlos Malheiro Dias descrevia Aquilino fustigando o corcel com a sua rédea de bronze e caminhando, veloz, de feltro ao vento, sem um desfalecimento, sem um abandono, na ânsia de chegar ao Ideal, porventura inatingível, que ele próprio criara. Há quem diga que o Ideal e a Ilusão se assemelham às folhas das árvores que vão caindo, uma a uma, quando a nossa vida se aproxima do Inverno. Sem dúvida, --  excepto para certos espíritos privilegiados. Para esses, existe sempre Primavera. Conta-se, alegoricamente, que, um dia, em plena invernia, um velho poeta, envolto numa capa, caminhava, sob a neve. Nisto, deparou-se-lhe uma rapariga. o poeta sorriu-lhe, perguntou-lhe se ainda ficava longe a cidade e, em seguida, pediu-lhe licença para lhe oferecer uma flor.
    -- Flores com este tempo? -- interrogou a pequena, rindo.
    -- Para os que sonham, mesmo sendo velhos, há sempre flores.
E, abrindo a capa, tirou de um molho de rosas, que levava, uma rosa, ofereceu-a à rapariga e continuou o seu caminho»

(... ... ...) 

«Uma tarde, encontrava-se Carlos Malheiro Dias trabalhando no seu gabinete de director da Ilustração Portuguesa quando lhe anunciaram a visita de Aquilino Ribeiro, que ele não conhecia pessoalmente ainda. Mandou-o imediatamente entrar, e preparou-se para receber, senão um revolucionário tremendo, de façanhuda lavallière preta, capaz de incendiar o mundo com a ponta dum cigarro, pelo menos um boémio insubmisso envolto numa ampla capa aventureira. Qual não foi, porém, a sua desvanecedora surpresa ao deparar-se-lhe um rapaz risonho, correctíssimo, olhos castanhos, duma grande doçura idealista, vestindo um fato claro e ostentando o mais pacífico e o mais comunicativo dos sorrisos. Conversaram largamente. Acerca de política? Um pouco. Mas, sobretudo, acerca de literatura. Meia hora depois de Aquilino ter saído, entrou Rocha Martins.
    -- Sabe quem aqui esteve há pouco? -- perguntou-lhe Malheiro Dias.
    -- Não.
    -- O Aquilino Ribeiro.
    -- E que lhe pareceu o rapaz?
    -- Pareceu-me que tem boa pinta e, se fizer uma revolução, há-de ser nas letras!»

*

   ...   ...   ...   ...

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