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Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

31
Jan26

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'CAMILO CONTRA-ATACA' [ 21 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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(Continuação)

«A Relíquia essa é uma variegada urdidura de fios do estilo rendilhado de Edgard Quinet, cartonada em pedaços do velho cenário burlesco de Paul de Kock e Crébillon -- figurações e tramoias de peça mágica. A alma esplêndida do livro, metida em corpo assás deformado de gibosidades, é o sonho da Paixão de Jesus de Nazaré, um 5º Evangelho, sonhado pelo pulha Dom Rapôso, desbragado garoto.»
«Em que miolos tão reles, hipnotisados em todos os alcouces daquem e dalém mar, o refulgente frasista sugeriu um sonho de transcendente ascese com 150 páginas!... (...)»
 

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«Deixem, pois, acordar Homero, e esperem ver cumpridas as promessas do eminente artista. O forte cérebro do auctor do Crime do Padre Amaro pode convulsionar-se doentiamente em epilepsias de desconchavos; mas ameaçar desabamento, isso não. Ninguém se cansa em jornada plumitiva tão curta como tem sido a do sr. Eça.»
 
«Eu nunca disse deste estimável escritor senão coisas bonitas e nunca lhas direi senão justas, segundo o meu sentimento de justiça. Não obstante, o sr. Eça, e alguns seus amigos, -- que não podem festejá-lo a berros de entusiasmo sem incomodarem os vizinhos, e não o sabem acariciar sem escoucear os outros -- sempre que lhes vem a talho de foice implicam comigo, assacando-me aleivosias. Aqui está uma do sr. Eça, do General, que pelo feitio parece cabo de esquadra.»
 

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«A páginas XX e XXI do prefácio aos agradáveis Azulejos do meu talentoso amigo Bernardo de Pindela, lê-se esta dura sova: «Os discípulos do idealismo, para não serem de todo esquecidos, agacham-se melancolicamente e, com lágrimas represas, bezuntam-se também de lodo. Sim, amigo, estes homens puros, vestidos de linho puro, que tão indignadamente nos arguiram de chafurdarmos num lameiro, vêm agora pé ante pé enlabuzar-se com a nossa lama! Depois, erguendo bem alto as capas dos seus livros, onde escreveram em grossas letras este letreiro -- romance realista -- parece dizerem ao público, com um sorriso triste na face mascarrada: -- Olhem também para nós... Acreditem que também somos muitíssimo grosseiros e que também somos muitíssimo sujos!»
 
«Deus nos acuda!»
 
«Ora aquilo é comigo.O sr. Eça de Queiroz desembestou aquela frecha apontada ao meu peito inocente; mas alvejou com seu olho mais míope, ou sacrificou a verdade a umas pitorescas frases azedas e já bastante poídas que não valiam a pena do holocausto.»
 

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«Em primeiro lugareu nunca censurei a pouca limpeza dos livros do sr. Eça; e, sempre que de passagem os indiquei, foi para os elogiar incondicionalmente; porque para mim livros sujos são somente os mal escritos. Em segundo lugar, nenhuma novela minha se inculca na capa romance realista. Alguém arguiu, com razão, um meu editor que nos anúncios da 4ª página dos jornais especializava a factura realista da novela. Daí procedeu talvez o equívoco importuno e flagedor do sr. Eça de Queiroz. Se s. ex.ª me julgasse menos irracional do que o seu modo de ler os frontispícios dos meus livros sem os ver (eu é que vejo tudo quanto o insigne romancista imprime) duvidaria que eu fosse capaz dessa parvoiçada para chamar aos meus romances a atenção dos leitores de s. ex.ª. Credo! Pois eu precisaria, para ser visto, de me nivelar com a espádua literária do sr. Eça? Mas, se o fizesse, era essa a maneira de me tornar invisível como diz a sentença de não sei que grande sábio... Talvez seja do grande sr. Eça de Queiroz a sábia sentença.»
 

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«Estas palavras, que sem serem indignas de Camilo não acusam a forja admirável donde brotaram as áscuas [*] terríveis, homéricas, contra Alexandre da Conceição, o Pe. Rodrigues, o Dr. Calisto, no fundo representam a maior homenagem a que Eça poderia ambicionar na sua carreira de escritor.» 
Perladas de certa amargura, mesmo da acidez corrosiva do rancor, como quando se referem à Relíquia, vista por uma luneta tendenciosamente esfumada, trazem um preito sublimado ao inovador do romance em Portugal. Sim, o primeiro grande escritor público de Portugal rendia homenagem ao primeiro grande artista das letras pátrias. Como iria Eça recebê-la?»
 
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áscuas [*] 
“áscua”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
 
22
Jan26

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'CAMILO CONTRA-ATACA' [ 20 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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«Em 1887 vinha a lume o Óbolo às Crianças, publicação organizada com intuitos filantrópicos, escrita na sua quase totalidade por Camilo, sob o pseudónimo de Egresso Bernardo de Brito Júnior, e por Francisco Martins Sarmento, esse com o pseudónimo de Fr. Fagundes. Com exsudada melancolia, inseria Camilo nesse livro as chamadas procissões dos moribundos e procissão dos mortos ou o registo dos defuntos e sobreviventes da geração de que fazia parte e que se abeirava do ocaso. (...)»
 

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«Os dois períodos seguintes chegam para exemplificar o ressentimento que lhe merecia em seu desdém para com a herança literária representada por ele e mais moribundos.»
«Haja quem faça hoje o rol dos escritores das gerações subsequentes à minha, e demonstre, para crédito das letras pátrias em progresso, que toda a obra dos operários, entre os quais eu martelei quarenta anos, não pode sequer envaidecer-se como escaleira por onde trepou a geração nova. Ah, meus velhos camaradas, não nos envergonhemos da nossa rude e despremiada empresa de cabouqueiros quando a gente moça, saindo às janelas da casa que edificámos, baldear chocarrices sobre a nossa profissão de moribundos que vão passando e caindo!»...
 

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«Semelhante desabafo certifica-nos da repercussão dolorosa que levantou em Camilo a hostilidade dos naturalistas, a cuja escola acabara por render preito não só com reconhecer a renovação técnica que imprimira à literatura como em se adequar seus métodos. Em verdade, como já dissemos, o grande agravo que Camilo podia invocar contra Eça e seus corifeus, era o menoscabo a que o lançaram. Está na índole de todos os movimentos revolucionários passar-se de sapatos brochados sobre o que se encontra no caminho.Todo o existente é detestável e inútil. Mas numa cadeia de factos e ideações, como é a literatura, um fusil coliga com outro; o segundo não se compreende sem o primeiro.»
 

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«Portanto, o naturalismo português, por muito afrancesado que fosse, tinha que ter um antecessor, entroncar nele, e dele receber a flux subsidiária, léxica à falta de melhor. E assim sucedeu. O romantismo  português, personificado em Camilo, forjou duma língua de frades e de poetas, toda enfática e chorona, uma língua viril com módulos e acentos para qualquer género de acção e de pensamento. Desarticulou-a, acepilhou-a [*], introduziu-lhe ralé e vivacidade. Tornou-a um órgão de gama opulenta, quando não passava duma espécie de flauta pastoril com um orifício para o sopro, outro para a modulação.»
 

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«Bem justo que Eçaaté certo ponto Ramalho trouxeram a arte do epíteto, professada em França pelos Goncourt, Flaubert, Daudet. Mas o vigor linguístico do verbo, sua variedade dinâmica, seu expressionismo peculiar, sua impressiva e cromática fisionomia, deu-lha Camilo melhor do que ninguém. Neste particular, os naturalistas ficaram a muitas léguas de distância do poderoso lavrante das letras. Eça foi um joalheiro de ritmos novos e finura insuperável na entomologia do adjectivo. Mas, tenhamos a coragem de o dizer, há nisso um esforço de paciência, que no fundo não é outra coisa senão o recurso de quem é pobre de ideias e pouco esperto de facúndia e facilidade. Arte menor, sensual até nos seus voos subjectivos, cheia de sugestões e requebros, esta do Eça; incomparavelmente mais robusta, se bem que desordenada, a de Camilo. O desdém que Eça sempre manifestou pelos predecessores transparece dos períodos atrás reproduzidos, coados pela sensibilidade de Camilo.
 
«Depois das páginas, sem dúvida, de alta beleza de Eça, no prefácio dos Azulejos, Camilo não era homem que se limitasse a regougar. Com vir à baila o nome de José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, pai de Eça, um dos moribundos, autor do poema idealista o Castelo do Lago, ofereceu-se-lhe o ensejo de calar viseira e acometer.»
 
«Vale a pena extractar a página na íntegra, pois que é a última, que se saiba, na peguilhada desavença com Eça.»
«Este meritíssimo magistrado em instância superior e par do reino escreveu versos, na sua mocidade académica, irisados e subjectivamente petrarquistas, dos melhores que então se melodiavam no alaúde trovadoresco. Entre as suas produções dessa época subsiste um poema de extenso fôlego, scoteano, intitulado o Castelo do Lago. Todavia, a estremada emanação literária do insigne magistrado é seu filho sr. Eça de Queiróz, o implantador da novela realista na charneca lusitana. Tem este escritor dois notórios livros, os primeiros, de factura solida, humana e perdurável, que jamais poderão ser desvalorizados pelas duas obras paradoxais, com que a sua caprichosa fantasia esteve brincando alguns anos -- o Mandarim e a Relíquia. É a primeira uma espécie de apólogo, encardido pelo tempo, reflexo de quimeras obsoletas, umas fabularias chinesas, de todo espúrias na actualidade das nossas condições biológicas e exigências do espírito.»
 
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acepilhou-a [*]
“acepilhar”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
 
(continua)

 

14
Jan26

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'EÇA VOLTA A ATACAR' [ 19 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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(continuação)
 
«Em matéria da inteireza com que o naturalismo observa a vida, sem receio de fazer corar as meninas, estribando-se em Feuillet, pedagogo dos bons costumes para uso de donzelas, poderiam os românticos perguntar a Eça pela página do autor citado que assoalha axiomas tão escarlates.
É intuitivo que na ordem de argumentos aduzidos por Eça convinha Octave Feuillet, o romancista dos panos quentes e não os Goncourts, que faziam gala em escalpelizar as podridões sociais sem rebuço nem tamiz [*], e de quem é a frase relativa à candura das meninas da primeira comunhão.» 
 

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«Neste meio tempo, Camilo publicara Vulcões de Lama, onde um crasso naturalismo parece decantado da burla e achincalhe para ficar obra estrénua de escola. 
Eça, quase simultâneamente, aparecia com a Relíquia, obra encantadora não obstante o compósito. De certo semelhante trabalho é um daqueles em que são mais visíveis as qualidades e defeitos do autor: uma ironia irreverente e procurada; uma prosa embaladora; pouca imaginação e muito espírito-santo de orelha; uma rapsódia com acordes alheios, destes que teimosamente mais que voluntariamente obssidiam o cérebro. Este livro em cuja tecitura se vêem passar as sombras eliseanas de P. Gattina, de Flaubert, de Renan, de Rollinat, foi desde logo objecto de acerbas críticas. Nas demais obras de Eça, este desplante em se enfeitar com as jóias dos outros está mais ou menos disfarçado. Aqui Eça não se deu a essa hipocrisia.»
 

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«Camilo que estava à espreita das produções da escola realista, mandou adquirir a Relíquia, pois que Eça não lhe oferecia os seus vient de paraître e anotou-o. Logo no ante-rosto se lê no exemplar existente em Seide: «Tirante as descrições topográficas de alguns pontos da Palestina -- de certo exageradas por tintas fictícias -- este livro como romance é uma pochade, em que todos os caracteres são caricaturas e armadilhas às gargalhadas da baixa comédia. Os plágios são frequentes.»
 
(...) Na última página lançou um juízo severo: «Este livro tem duas partes: 1ª, porcaria, 2ª, maçada. É uma pochade à Paul de Kock: chalaças hiperbolicamente inverosímeis; uma vontade despótica de fazer rir à custa de tudo. Mas não é isso o que o torna um mau livro. É a falta absoluta de bom senso e de bom gosto. Pode considerar-se uma decadência por ter sido escrito depois dos Maias que deve ser melhor.»
 
«O singular é que a Relíquia, impregnada do tonus das Memórias de Judas de Petrucelli della Gattina, tenha sobrenadado à flor da literatura portuguesa; e que a obra paradigma tenha sossobrado com o nome do autor no mare-magnum das letras estrangeiras. Que absurdo destino é este, o dos livros, ou que estranho desnível de méritos há da nossa plana literária para a plana internacional?»
 
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tamiz [*] (tamis)
 “tamis”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
      Disponível em: 
 
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07
Ago25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'ROMÂNTICOS E REALISTAS' [ 3 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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«Anos de 1866, 67, 68 termina Eça a sua formatura em Direito, estreia-se na Gazeta de Portugal, cozinha o Distrito de Évora, ensaia a lira satânica de Baudelaire. E flana, flana por Lisboa. A experiência da capital vem-lhe dessa data. Os decadentes e irregulares que traz ao tablado, em especial no Primo Basílio, nos Maias, e toda a sub-galeria dos romances póstumos, personagens quase todas dealbadas da ganga nativa nas águas do Sena, são transposições da sua vida de sociedade.»

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«Esses três anos, não falando no período morto que vai até 1869, consumi-los-á em vagabundagem, num vago cenáculo, literatizando como sempre à francesa, até a altura em que de monóculo entalado no orbe do olho e uma grande curiosidade na alma embarca com o conde de Rezende para a Terra Santa. Viagem farta de pitoresco e de perspectiva, fornecerá o tema, por um ror de tempo, às tertúlias literárias. O nome de Eça passa a voar nas asas da fama, os cultores da anedota havendo pilhado um filão.»
 

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«Entretanto Camilo vai assentando pedra após pedra na prodigiosa torre, mais que Babel, que é a sua obra. S. Miguel de Seide é um estaleiro. Trabalham a derreter os miolos, instados pelas necessidades da vida, tanto o escritor como Ana Plácido. A seguir à Enjeitada, romance francamente mau, em que presumo vislumbrar a mesma tessitura feminina da Luz coada por ferros, talvez retocado e limado pelo escritor, apareceu o Judeu, a Queda dum Anjo, duma altitude nunca antes atingida em Portugal, o Santo da Montanha com uma boa parte castiça e superior, o Senhor do Paço de Ninães, não menos sobranceiro, os Mistérios de Fafe, em que estua uma prosa viril e dúctil, dobrada nas suas mãos como o ferro nas tenazes do bom ferreiro de Guimarães, o Retrato de Ricardina que rasga uma janela de céu azul e chão de neve no terrível e feio mundo. Para falar apenas nos livros capitais daqueles três anos de intensa safra. O lutador está a entrar na última década da sua actividade e produz como as macieiras do seu quintalinho dão maçãs. Às cestadas. Por todo o Portugal, levado pelas gazetas, pelos livros a dois tostões, pelos folhetos de polémica e os ventos suscitados, o seu nome corre. Não há ninguém dotado de percepção alfabética, digamos, que não descortine, como a um seareiro prometáico, o trabalhador a cobrir infatigavelmente com a sua letrinha miúda e rectilínea resmas e resmas de papel branco.
Em Évora, em Lisboa, em Leiria, alguma vez o escritor incipiente e snob se aperceberia deste Caim das letras? Sentiria alguma vez pulsar a alma multíplice, cheia de falhas, mas até nelas grandioso, deste colosso? Não no-lo diz quando é tão prolixo nas suas inclinações e fatacazes. E é lamentável que em cérebro tão peregrino como o de Eça não brotasse uma admiração espontânea, impulsiva, ardorosa pelo veterano do romance, já que o coração lhe havia, mercê dos maus boléus das fadas, estancado para os reptos da generosidade sem troco. E nós hoje, porque a plana literária se nos defronta em perspectiva rasa e emareada de preconcebimentos, não compreendemos o silêncio de Eça. A demarcar o percurso triunfo triunfal do romancista da Relíquia, falta um artigo, uma saudação, um brado de entusiasmo pelo escritor que fora naufragar na verde e anojadiça terra minhota, falta-lhe, sim, esse ex-voto, tal emblema de Hermes na via dum César.»
 
 

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«E entre os merecidos respeitos não há Aristarco que não coloque Camilo, o maior.»
 

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 « ...o certo é que Eça, considerando o romance em coma, excluía Camilo do número dos reanimadores, pois que era tarde para a carreira deste o fazê-lo e equivaleria simultâneamente a negá-lo supondo-o investido de semelhante empresa. E é clamorosa a injustiça de tal conceito contra quem vinha praticando com exaustão e com relevo aquele género literário.»
 

(continua)

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