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Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

04
Fev26

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'A CARTA PÓSTUMA DE REPRESÁLIA' [22_(1/4)] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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Nos escritos inéditos de Eça de Queirós, os primeiros publicados após a sua morte, aparece uma carta a Camilo Castelo Branco, que tem muito que se lhe diga. Reza assim:

 
«Exmo. Sr.  Um tardio correio troxe-me ontem um número, já quáse velho, das Novidades, com um artigo, Nota à Procissão dos Moribundos, em que V. Ex.ª, resmungando e rabujando, se queixa ao público de que eu e os meus amigos " implicavam consigo, sempre que isso vem a talho de foice, e lhe assacamos aleivosias". Como exemplo deste indecoroso hábito, cita V. Ex.ª um período da minha carta a Bernardo Pindela nos Azulejos, em que eu alegremente me rio dos discípulos do Romantismo que, depois de clamarem contra certos escritores como realistas e chafurdadores do lodo, apenas imaginam que o público só esse lodo apetece para seu consumo intelectual, se apressam a escrever na capa dos seus livros: romance realista, para que o público, aliciado pelo rótulo, os compre também a eles, e os leia também a eles... E V. Ex.ª, meu caro confrade, acrescenta logo com a mais consciente certeza: "Ora isto é comigo!"»

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«Suponha que um dia, numa novela, V. Ex.ª descreve, com o seu vernáculo e torneado relevo, certo animal de longas orelhas felpudas, de rabo tosco, de anca surrada pela albarda, que orneia e que abunda em Cacilhas... E suponha ainda que, ao ler essa colorida página, eu exclamo, apalpando-me ansiosamente por todo o corpo: «Grandes orelhas, rabo tosco, anca pelada... É comigo!» Que diria V. Ex.ª, meu prezado confrade?

V. Ex.ª balbuciaria aturdido: «Eu não sei, eu vivo longe... Se as suas orelhas são assim longas, e se o albardão o despelou, há realmente concordância... Mas na verdade creia que, mencionando esse animal venerável, não me raiou no ânimo a mais ténue, remota intenção...» Assim, embaraçado e surpreso, diria V. Ex.ª. E assim eu digo. V. Ex.ª deve conhecer melhor que eu, que sou distraído e vivo longe, as capas dos seus livros: se V. Ex.ª para atrair a multidão nelas colou, ou consentiu que os seus editores colassem, esse rótulo: 'romance realista' -- por não poderem legalmente adorná-las com esse outro mais cativante: 'romance obsceno'-- então de certo aquilo é consigo. Mas a intransigente verdade me força a confessar que, escrevendo esse período da carta a Bernardo Pindela, eu não pensava no autor da Corja. Se eu quisesse acusar dessa abjecta concessão às exigências da venda um homem que há trinta anos é ilustre na literatura portuguesa -- teria escrito o nome todo de V. Ex.ª sem omitir um só título. Há personalidades a quem, por isso mesmo que são fortes, se não alude timoratamente e de longe. Já deste modo se pensava na Corte de El-rei Artur: "Se queres falar de Percival, dize bem alto: Percival, e tira a espada." Assim gritava esse cavaleiro, flor dos bons, na velha cidade de Camerlon, uma tarde em que havia algazarra e ciúmes junto à Tavola Redonda. Não se trata de certo aqui de compridas espadas a desembainhar. Mas não deixa de ficar bem a um débil homem de letras, como eu, o seguir essa lição de lealdade e valor dada pelo possante homem de armas Percival.»

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«Assim o exemplo aduzido por V. Ex.ª para demonstrar o meu escandaloso hábito de -- implicar consigo-- é realmente mal escolhido. Mas permanece, todavia, a queixa, feita ao público, com tanta rabujice e com tanto azedume, de que -- eu e os meus amigos, sempre que isso vem a talho de foice, lhe assacamos aleivosias.»

« Aleivosias é um termo formidável e sombrio que, se me não engana o vetusto e único Dicionário que me ampara nesta dura labutacão do estilo significa -- «maldade cometida traiçoeiramente com mostras de amizade, insídia, perfídia, maquinação contra a vida e reputação de alguém, etc.» Tudo isto é pavoroso. Mas eu suponho que, sob essas vagas palavras de implicação e aleivosia, V. Ex.ª quer muito simplesmente queixar-se de que eu e os meus amigos o não consideramos um escritor tão ilustre, com um tão alto lugar nas letras portuguesas como o costumam considerar os amigos de V. Ex.ª. Ora aqui V. Ex.ª se ilude singularmente.»

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«Eu nunca tive, é certo, a oportunidade deleitável de apreciar, nem em copioso artigo, nem sequer em curta linha, a obra de  V. Ex.ª. Mas sou meridional, portanto loquaz. Por vezes, entre amigos e fumando a 'cigarette', tem vindo «a talho de fouce» conversar sobre a personalidade literária de V. Ex.ª. E, louvado seja Apolo aurinitente, sempre me exprimi sobre o autor do ' Esqueleto' dum modo que é irrecusavelmente mais digno dele e da sua obra do que esse outro estranho modo por que o costumam decantar aqueles que se ufanam já na palestra, já na imprensa, de serem seus amigos e discípulos.»

(continua)

31
Jan26

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'CAMILO CONTRA-ATACA' [ 21 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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(Continuação)

«A Relíquia essa é uma variegada urdidura de fios do estilo rendilhado de Edgard Quinet, cartonada em pedaços do velho cenário burlesco de Paul de Kock e Crébillon -- figurações e tramoias de peça mágica. A alma esplêndida do livro, metida em corpo assás deformado de gibosidades, é o sonho da Paixão de Jesus de Nazaré, um 5º Evangelho, sonhado pelo pulha Dom Rapôso, desbragado garoto.»
«Em que miolos tão reles, hipnotisados em todos os alcouces daquem e dalém mar, o refulgente frasista sugeriu um sonho de transcendente ascese com 150 páginas!... (...)»
 

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«Deixem, pois, acordar Homero, e esperem ver cumpridas as promessas do eminente artista. O forte cérebro do auctor do Crime do Padre Amaro pode convulsionar-se doentiamente em epilepsias de desconchavos; mas ameaçar desabamento, isso não. Ninguém se cansa em jornada plumitiva tão curta como tem sido a do sr. Eça.»
 
«Eu nunca disse deste estimável escritor senão coisas bonitas e nunca lhas direi senão justas, segundo o meu sentimento de justiça. Não obstante, o sr. Eça, e alguns seus amigos, -- que não podem festejá-lo a berros de entusiasmo sem incomodarem os vizinhos, e não o sabem acariciar sem escoucear os outros -- sempre que lhes vem a talho de foice implicam comigo, assacando-me aleivosias. Aqui está uma do sr. Eça, do General, que pelo feitio parece cabo de esquadra.»
 

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«A páginas XX e XXI do prefácio aos agradáveis Azulejos do meu talentoso amigo Bernardo de Pindela, lê-se esta dura sova: «Os discípulos do idealismo, para não serem de todo esquecidos, agacham-se melancolicamente e, com lágrimas represas, bezuntam-se também de lodo. Sim, amigo, estes homens puros, vestidos de linho puro, que tão indignadamente nos arguiram de chafurdarmos num lameiro, vêm agora pé ante pé enlabuzar-se com a nossa lama! Depois, erguendo bem alto as capas dos seus livros, onde escreveram em grossas letras este letreiro -- romance realista -- parece dizerem ao público, com um sorriso triste na face mascarrada: -- Olhem também para nós... Acreditem que também somos muitíssimo grosseiros e que também somos muitíssimo sujos!»
 
«Deus nos acuda!»
 
«Ora aquilo é comigo.O sr. Eça de Queiroz desembestou aquela frecha apontada ao meu peito inocente; mas alvejou com seu olho mais míope, ou sacrificou a verdade a umas pitorescas frases azedas e já bastante poídas que não valiam a pena do holocausto.»
 

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«Em primeiro lugareu nunca censurei a pouca limpeza dos livros do sr. Eça; e, sempre que de passagem os indiquei, foi para os elogiar incondicionalmente; porque para mim livros sujos são somente os mal escritos. Em segundo lugar, nenhuma novela minha se inculca na capa romance realista. Alguém arguiu, com razão, um meu editor que nos anúncios da 4ª página dos jornais especializava a factura realista da novela. Daí procedeu talvez o equívoco importuno e flagedor do sr. Eça de Queiroz. Se s. ex.ª me julgasse menos irracional do que o seu modo de ler os frontispícios dos meus livros sem os ver (eu é que vejo tudo quanto o insigne romancista imprime) duvidaria que eu fosse capaz dessa parvoiçada para chamar aos meus romances a atenção dos leitores de s. ex.ª. Credo! Pois eu precisaria, para ser visto, de me nivelar com a espádua literária do sr. Eça? Mas, se o fizesse, era essa a maneira de me tornar invisível como diz a sentença de não sei que grande sábio... Talvez seja do grande sr. Eça de Queiroz a sábia sentença.»
 

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«Estas palavras, que sem serem indignas de Camilo não acusam a forja admirável donde brotaram as áscuas [*] terríveis, homéricas, contra Alexandre da Conceição, o Pe. Rodrigues, o Dr. Calisto, no fundo representam a maior homenagem a que Eça poderia ambicionar na sua carreira de escritor.» 
Perladas de certa amargura, mesmo da acidez corrosiva do rancor, como quando se referem à Relíquia, vista por uma luneta tendenciosamente esfumada, trazem um preito sublimado ao inovador do romance em Portugal. Sim, o primeiro grande escritor público de Portugal rendia homenagem ao primeiro grande artista das letras pátrias. Como iria Eça recebê-la?»
 
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áscuas [*] 
“áscua”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
 

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