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Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

04
Abr25

ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 59) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DO BERÇO À NAU S. BENTO» {c. XII de XVIII} * [ vol. I ]

XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.

Manuel Pinto

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(continuação)

«A vida dolorosa do poeta.»
«Supondo que os amigos do poeta eram bastos como tortulhos e poderosos como cônsules, não impediu que duas vezes, pelo menos, catrambiasse no Tronco, e uma vez com certeza fosse parar ao degredo, marcos miliários da interminável via da amargura que foi a sua existência, tanto ou tão pouco espinhosa que a mão de D. Gonçalo Coutinho, movida não se sabe a que impulso, lhe gravou na campa a legenda justiceira e tremebunda: Viveu pobre e miseravelmente e assim morreu..

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«Sentença dum vate provinciano.»
«Os escritores quinhentistas, já porque dar claridade às formas do pensamento é o mais difícil da arte de escrever, já porque se tornara moda ou até preceito de escola transportar para segundo plano o objecto da expressão de modo a envolvê-lo em meias-tintas e velaturas, então muito apreciadas, são sibilinos e árduos de compreender. Assim este godo de Cabeceiras.»
 

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«Sancho que não Quixote.»
«A meu ver, no conceito do versejador, Camões tinha que trazer o cinto bem atarraxado senão escorregavam-lhe os calçotes pela barriga abaixo. Era portanto dos que, à margem da boa sociedade -- essa que cumpria com os mandamentos da Igreja e consociava em bródios e aniversários --, tocava berimbau, isto é, fazia-lhe seus acrósticos, seus vilancetes, suas odes e ditirambos. A troco de quê? Além doutras espécies de salário, de vitualhas. Dêem-lhe as voltas que quiserem, à semelhança dos aedos que enchiam a escudela à porta, onde se celebravam bodas e dionisíacas, Camões recebia em casa a sua merenda aviada. Não a ia comer à mesa dos fidalgos; comia-a na mesa de pinho do Mal-Cozinhado de suciata com outros do seu pendão, ou na casinha da Mouraria, no recato silencioso da pobreza e conformidade.»
 
«0s bardos bem comidos. Ó ceias do paraíso!»
«Entretanto, na sua quinta à beira do Lima, o homem terso de antes quebrar que torcer, tombador de lobos, limpava a barbela bem untada, congratulando--se com a roda dos bons garfos, tão solertes à obra como admiradores do seu génio:
     Ó ceias do paraíso,
     Que nunca o tempo vos vença!
     Sem fala trocada ou riso, 
     Nem carregadas do siso, 
     Nem danadas da licença.»
... ... ... ...
 

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* * * * * * * * * * 

31
Mar25

ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 58) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DO BERÇO À NAU S. BENTO» {c. XII de XVIII} * [ vol. I ]

XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.

Manuel Pinto

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«Proventos de Luís de Camões. A poesia era um pequeno mester remunerado.»
«O Cancioneiro Geral regista nada menos de duzentos e oitenta e seis nomes de poetas no período compreendido entre a metade do século XV e os primórdios do século XVI. A primeira impressão é que proliferavam como os gafanhotos e que deviam cantar apenas uma sazão como as cigarras nos trigais do Alentejo. Mas seriam todos vates? Possivelmente não. Todos eles se apresentavam, sim, à hora própria nos serões, nos jogos florais ou nada mais que a depor no regaço das noivas ou namoradas, com o camafeu romano, a peçazinha rimada encomendada ad hoc ao bom versejador. Versejar era mester afim do iluminista ou do calígrafo...»
«Estava-se longe do conceito estético -- arte pela arte. Não se faziam versos pelo prazer espiritual de obter rimas de cadência melódica ou pensamentos ternos suspensos de rendas verbais. Versejava-se sempre com um fim: cortejar uma dama, lisonjear personagem influente, comemorar acontecimento de importância familiar ou patriótica, celebrar o beato taumaturgo. Foi preciso que viesse o romantismo para que os poetas obedecessem à inspiração ou voz interior que os manda cantar como aos rouxinóis. A poesia heróica, tão florente que não há batalha que não tenha o seu épico, documenta aquele conceito de boa utilidade.
Os vates quando teciam os seus vilancetes sobre um mote obedeciam pois a um propósito. As trovas de Camões feitas para acompanhar a oferta duma carta de alfinetes o estão a confirmar. Presidia sempre uma objectividade específica à lavra poética. E todas estas glosas, tantas dessas voltas em heptassílabo podem considerar-se como que produtos cognatos das quadras que vêm picadas nos vasos com manjericos que se vendem pelo Santo António e São João.»

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«A vida dolorosa do poeta.»
«Supondo que os amigos do poeta eram bastos como tortulhos e poderosos como cônsules, não impediu que duas vezes, pelo menos, catrambiasse no Tronco, e uma vez com certeza fosse parar ao degredo, marcos miliários da interminável via da amargura que foi a sua existência, tanto ou tão pouco espinhosa que a mão de D. Gonçalo Coutinho, movida não se sabe a que impulso, lhe gravou na campa a legenda justiceira e tremebunda: Viveu pobre e miseravelmente e assim morreu..

                                                             (continua)

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