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(continuação)
«A vida dolorosa do poeta.»
«Supondo que os amigos do poeta eram bastos como tortulhos e poderosos como cônsules, não impediu que duas vezes, pelo menos, catrambiasse no Tronco, e uma vez com certeza fosse parar ao degredo, marcos miliários da interminável via da amargura que foi a sua existência, tanto ou tão pouco espinhosa que a mão de D. Gonçalo Coutinho, movida não se sabe a que impulso, lhe gravou na campa a legenda justiceira e tremebunda: Viveu pobre e miseravelmente e assim morreu...»
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«Sentença dum vate provinciano.»
«Os escritores quinhentistas, já porque dar claridade às formas do pensamento é o mais difícil da arte de escrever, já porque se tornara moda ou até preceito de escola transportar para segundo plano o objecto da expressão de modo a envolvê-lo em meias-tintas e velaturas, então muito apreciadas, são sibilinos e árduos de compreender. Assim este godo de Cabeceiras.»
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«Sancho que não Quixote.»
«A meu ver, no conceito do versejador, Camões tinha que trazer o cinto bem atarraxado senão escorregavam-lhe os calçotes pela barriga abaixo. Era portanto dos que, à margem da boa sociedade -- essa que cumpria com os mandamentos da Igreja e consociava em bródios e aniversários --, tocava berimbau, isto é, fazia-lhe seus acrósticos, seus vilancetes, suas odes e ditirambos. A troco de quê? Além doutras espécies de salário, de vitualhas. Dêem-lhe as voltas que quiserem, à semelhança dos aedos que enchiam a escudela à porta, onde se celebravam bodas e dionisíacas, Camões recebia em casa a sua merenda aviada. Não a ia comer à mesa dos fidalgos; comia-a na mesa de pinho do Mal-Cozinhado de suciata com outros do seu pendão, ou na casinha da Mouraria, no recato silencioso da pobreza e conformidade.»
«0s bardos bem comidos. Ó ceias do paraíso!»
«Entretanto, na sua quinta à beira do Lima, o homem terso de antes quebrar que torcer, tombador de lobos, limpava a barbela bem untada, congratulando--se com a roda dos bons garfos, tão solertes à obra como admiradores do seu génio:
Ó ceias do paraíso,
Que nunca o tempo vos vença!
Sem fala trocada ou riso,
Nem carregadas do siso,
Nem danadas da licença.»
... ... ... ...
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