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(continuação)
«Surgiu a decantada questão de Coimbra, que, enfim de contas, mal arripiou a quietude pantanosa da vida mental portuguesa. Nós hoje, avaliando-a pela soma de pólvora que parece ter-se queimado de parte a parte, pelo palhagal de papel impresso que produziram os prelos, pelo ardor duns, a iracundia e ressentimento de outros, consideramo-la uma tempestade magnífica, espécie de convolvo sísmico que demoveu para outros eixos as coordenadas da esfera literária.»
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«Entretanto Eça, ensaiados os primeiros passos nas letras, ocioso pela certa, sob o acicate porventura da necessidade, aceitou dirigir, melhor, confeccionar o Distrito de Évora. Em realidade dentro da gazeta provincial é nem mais nem menos aquele jornalista que na Voz do Distrito, em Leiria, figura no Crime do Padre Amaro: Agostinho fazia o fundo, os locais, a correspondência de Lisboa.
Aquela folha para ele teve o mérito de ser a pedra de esmeril onde afiou e damasquinou a pena. De número para número, o gongórico alija as louçanias de mau gosto e a mania de remascar o esquisito. O pensamento, as raras vezes que pensa de sua cabeça, clarifica-se. O estilo ganha simplicidade sem perder os tons de joalharia importada da Rue de la Paix. De facto escreve, se não veste ainda, pelo figurino francês. A frase vai adquirindo aquela curva melódica que a balanceia da proposição principal para as coordenadas mercê dum desenvolvimento expresso por epítetos duma cromática inédita e luminosa. Mas que chuveiro de barbarismos!»
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«Eça, primeiro, depois Fialho, com o desdém que lhes merecia um idioma aviltado por uma choldra de plumitivos sem miolos nem originalidade, ao serviço dos dez réis de Eduardo Coelho e do caciquismo de S. Bento, instituíram a escola do arbitrário em literatura. E os discípulos acorreram em récuas.
Pois que se voltava ao caos, quem quer luzia nome de escritor. As três dimensões da língua, que são o sujeito, verbo e atributo ensinados pelos caturrentos padres-mestres, passaram a não regular coisa nenhuma. Cada um escrevia como lhe dava a real gana.»
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«Além da francesia da forma, torna-se visível a quem compulse os seus primeiros escritos, que Eça de Queirós não punha grande recato em aproveitar-se do que era dos outros. Em aproveitar-se, chamando-lhe seu. Uma frase com sainete, uma adjectivação feliz, um pensamento singular; aquilo que é de bom quilate e por azar não brotou ao bico da pena; a imagem que assentaria como uma luva em tal ou tal lance da narrativa e que não ocorreu aos olhos do entendimento; a nota psicológica que vai a matar no indivíduo de tal e lhe dá carácter como o grão de beleza põe especial salero na face duma mulher bonita -- desde menino que se habituou a tirá-los para o seu cofre de jóias lá donde estivessem. E não seria ele capaz de forjar outras iguais, se não superiores? Se era! Pois que as tem de sua lavra, aquela pecha entra para o seu complexo de inferioridades, manifesto desde que pela primeira vez pegou da pena para exercer a maravilhosa sina. Até ao fim da carreira, Eça sofrerá de cleptomania literária. Zoilos e críticos honrados andaram pelo sua seara mondando o que não era estrictamente seu; enchem uma algibeira essas belas insignificâncias doutros senhores. Mas ele não precisava de descer a tão mesquinhas e breves deselegâncias, estamos certos disso. E que o fizesse por menos consideração para com os lorpas da sua terra; pela tentação que exercia em seus sentidos a rutilante gema preciosa; por equívoco mental, acabando por confundir-se-lhe na retina o seu, que era admirável, com o alheio, que admirava; por menos escrúpulo de consciência -- ele próprio, um nababo, teria pejo, chamado ao pretório, pelas migalhas especiosas de que indevidamente se apropriou.»
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«Esse caderninho que Eça trazia no bolso cimeiro do jaquetão e que, imprevistamente no meio da conversa ou no decurso das leituras, sacava para anotar um dito, uma facécia, um qualificativo invulgar, que não nos desse a procedência, dar-nos-ia a amostra das pedrarias preciosas que apanhou assim às rebatinhas e engastou a primor nos adereços e cruzes abrolhadas da sua obra deslumbrante.»
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