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Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

23
Set25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'DO «CRIME DO PADRE AMARO» ÀS «NOVELAS DO MINHO»' [ 6 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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«Uma crítica sagaz da personalidade literária de Eça procuraria, mais que plágios ou decalques, a fonte da sua inspiração. A muitos escritores é necessário que venha de fora, como toque de graça, o verbum, ou a palavra mágica, como entendia M.me de Staël. O Mandarim é o produto dum lugar comum do adagiário francês: tuer le mandarin. Mas o modo de transmissão em naturezas ricas de sensibilidade como Eça deve ser vário e multiforme.
O anúncio nada mais que o anúncio da Faute de l' Abbé Mouret pode muito bem ter provocado a faísca espiritual que determinou o Crime do Padre Amaro. A leitura de Gattina e de Renan, dado o substratum comum de gostos e tendências, pode explicar também a génese da Relíquia. De resto, toda a obra de imaginação supõe um núcleo originário, extrínseco ao artista, com maior ou menor desenvolvimento. Em Eça, excepcionalmente dotado para as operações da forma, isto é, psique ordenadora por excelência, a faculdade estética precisava destes contactos providenciais, desta impregnação verbal para exercer-se. Mas fica por isso desvaliado? É uma modalidade de escritor, e por ela se aparta de Camilo, mais subjectivo, dominado por forças íntimas doutra espécie, tirando mais do próprio peito que do mundo externo a greda com que foi amassando o seu povoadíssimo guinhol.»
 

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«Numa carta ao Visconde de Ouguela, Camilo dizia: Já leste o Crime do Padre Amaro de Eça de Queirós? Li alguns capítulos na Revista Ocidental e achei excelente. Vi anunciado agora o romance em livro. Este rapaz vem tomar a vanguarda a todos os romancistas. É um admirável observador e, conquanto faça pouco caso das imunidades da língua, tem arte de fazer admiráveis defeitos.
A diferença que há nas duas versões, é que a do livro representa já uma decantação. Aqui perde, além ganha, mas no geral sublima-se.»
 

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«Uma vez assim castigado, o Crime do Padre Amaro queda uma jóia lavrada de primeiro fulgor na literatura portuguesa. Noutra carta se refere Camilo ao Crime depois de escorreito da ganga: Estou lendo o romance, que é bastante diverso do que eu lera na Revista Ocidental. Tem admirável paciência de observação plástica; mas, dentro dos tecidos musculares, figura-se-me que vê mal. Quanto à linguagem, às impropriedades reflexo de Flaubert, não estranho nem as abomino; o que me escandaliza são os velhos erros de gramática e os barbarismos, que não usam os satânicos franceses na sua língua. Este livro seria perfeito se o Eça conhecesse a língua um pouco estafada e gordurosa de Luís de Sousa.»
 
(continua)
07
Ago25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'ROMÂNTICOS E REALISTAS' [ 3 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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«Anos de 1866, 67, 68 termina Eça a sua formatura em Direito, estreia-se na Gazeta de Portugal, cozinha o Distrito de Évora, ensaia a lira satânica de Baudelaire. E flana, flana por Lisboa. A experiência da capital vem-lhe dessa data. Os decadentes e irregulares que traz ao tablado, em especial no Primo Basílio, nos Maias, e toda a sub-galeria dos romances póstumos, personagens quase todas dealbadas da ganga nativa nas águas do Sena, são transposições da sua vida de sociedade.»

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«Esses três anos, não falando no período morto que vai até 1869, consumi-los-á em vagabundagem, num vago cenáculo, literatizando como sempre à francesa, até a altura em que de monóculo entalado no orbe do olho e uma grande curiosidade na alma embarca com o conde de Rezende para a Terra Santa. Viagem farta de pitoresco e de perspectiva, fornecerá o tema, por um ror de tempo, às tertúlias literárias. O nome de Eça passa a voar nas asas da fama, os cultores da anedota havendo pilhado um filão.»
 

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«Entretanto Camilo vai assentando pedra após pedra na prodigiosa torre, mais que Babel, que é a sua obra. S. Miguel de Seide é um estaleiro. Trabalham a derreter os miolos, instados pelas necessidades da vida, tanto o escritor como Ana Plácido. A seguir à Enjeitada, romance francamente mau, em que presumo vislumbrar a mesma tessitura feminina da Luz coada por ferros, talvez retocado e limado pelo escritor, apareceu o Judeu, a Queda dum Anjo, duma altitude nunca antes atingida em Portugal, o Santo da Montanha com uma boa parte castiça e superior, o Senhor do Paço de Ninães, não menos sobranceiro, os Mistérios de Fafe, em que estua uma prosa viril e dúctil, dobrada nas suas mãos como o ferro nas tenazes do bom ferreiro de Guimarães, o Retrato de Ricardina que rasga uma janela de céu azul e chão de neve no terrível e feio mundo. Para falar apenas nos livros capitais daqueles três anos de intensa safra. O lutador está a entrar na última década da sua actividade e produz como as macieiras do seu quintalinho dão maçãs. Às cestadas. Por todo o Portugal, levado pelas gazetas, pelos livros a dois tostões, pelos folhetos de polémica e os ventos suscitados, o seu nome corre. Não há ninguém dotado de percepção alfabética, digamos, que não descortine, como a um seareiro prometáico, o trabalhador a cobrir infatigavelmente com a sua letrinha miúda e rectilínea resmas e resmas de papel branco.
Em Évora, em Lisboa, em Leiria, alguma vez o escritor incipiente e snob se aperceberia deste Caim das letras? Sentiria alguma vez pulsar a alma multíplice, cheia de falhas, mas até nelas grandioso, deste colosso? Não no-lo diz quando é tão prolixo nas suas inclinações e fatacazes. E é lamentável que em cérebro tão peregrino como o de Eça não brotasse uma admiração espontânea, impulsiva, ardorosa pelo veterano do romance, já que o coração lhe havia, mercê dos maus boléus das fadas, estancado para os reptos da generosidade sem troco. E nós hoje, porque a plana literária se nos defronta em perspectiva rasa e emareada de preconcebimentos, não compreendemos o silêncio de Eça. A demarcar o percurso triunfo triunfal do romancista da Relíquia, falta um artigo, uma saudação, um brado de entusiasmo pelo escritor que fora naufragar na verde e anojadiça terra minhota, falta-lhe, sim, esse ex-voto, tal emblema de Hermes na via dum César.»
 
 

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«E entre os merecidos respeitos não há Aristarco que não coloque Camilo, o maior.»
 

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 « ...o certo é que Eça, considerando o romance em coma, excluía Camilo do número dos reanimadores, pois que era tarde para a carreira deste o fazê-lo e equivaleria simultâneamente a negá-lo supondo-o investido de semelhante empresa. E é clamorosa a injustiça de tal conceito contra quem vinha praticando com exaustão e com relevo aquele género literário.»
 

(continua)

27
Jul25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'PRIMEIROS ESCRITOS' [ 2 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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(continuação)

«Surgiu a decantada questão de Coimbra, que, enfim de contas, mal arripiou a quietude pantanosa da vida mental portuguesa. Nós hoje, avaliando-a pela soma de pólvora que parece ter-se queimado de parte a parte, pelo palhagal de papel impresso que produziram os prelos, pelo ardor duns, a iracundia e ressentimento de outros, consideramo-la uma tempestade magnífica, espécie de convolvo sísmico que demoveu para outros eixos as coordenadas  da esfera literária.»

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«Entretanto Eça, ensaiados os primeiros passos nas letras, ocioso pela certa, sob o acicate porventura da necessidade, aceitou dirigir, melhor, confeccionar o Distrito de Évora. Em realidade dentro da gazeta provincial é nem mais nem menos aquele jornalista que na Voz do Distrito, em Leiria, figura no Crime do Padre Amaro: Agostinho fazia o fundo, os locais, a correspondência de Lisboa.
Aquela folha para ele teve o mérito de ser a pedra de esmeril onde afiou e damasquinou a pena. De número para número, o gongórico alija as louçanias de mau gosto e a mania de remascar o esquisito. O pensamento, as raras vezes que pensa de sua cabeça, clarifica-se. O estilo ganha simplicidade sem perder os tons de joalharia importada da Rue de la Paix. De facto escreve, se não veste ainda, pelo figurino francês. A frase vai adquirindo aquela curva melódica que a balanceia da proposição principal para as coordenadas mercê dum desenvolvimento expresso por epítetos duma cromática inédita e luminosa. Mas que chuveiro de barbarismos!»
 

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«Eça, primeiro, depois Fialho, com o desdém que lhes merecia um idioma aviltado por uma choldra de plumitivos sem miolos nem originalidade, ao serviço dos dez réis de Eduardo Coelho e do caciquismo de S. Bento, instituíram a escola do arbitrário em literatura. E os discípulos acorreram em récuas.
Pois que se voltava ao caos, quem quer luzia nome de escritor. As três dimensões da língua, que são o sujeito, verbo e atributo ensinados pelos caturrentos padres-mestres, passaram a não regular coisa nenhuma. Cada um escrevia como lhe dava a real gana.»
 

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«Além da francesia da forma, torna-se visível a quem compulse os seus primeiros escritos, que Eça de Queirós não punha grande recato em aproveitar-se do que era dos outros. Em aproveitar-se, chamando-lhe seu. Uma frase com sainete, uma adjectivação feliz, um pensamento singular; aquilo que é de bom quilate e por azar não brotou ao bico da pena; a imagem que assentaria como uma luva em tal ou tal lance da narrativa e que não ocorreu aos olhos do entendimento; a nota psicológica que vai a matar no indivíduo de tal e lhe dá carácter como o grão de beleza põe especial salero na face duma mulher bonita -- desde menino que se habituou a tirá-los para o seu cofre de jóias lá donde estivessem. E não seria ele capaz de forjar outras iguais, se não superiores? Se era! Pois que as tem de sua lavra, aquela pecha entra para o seu complexo de inferioridades, manifesto desde que pela primeira vez pegou da pena para exercer a maravilhosa sina. Até ao fim da carreira, Eça sofrerá de cleptomania literária.  Zoilos e críticos honrados andaram pelo sua seara mondando o que não era estrictamente seu; enchem uma algibeira essas belas insignificâncias doutros senhores. Mas ele não precisava de descer a tão mesquinhas e breves deselegâncias, estamos certos disso. E que o fizesse por menos consideração para com os lorpas da sua terra; pela tentação que exercia em seus sentidos a rutilante gema preciosa; por equívoco mental, acabando por confundir-se-lhe na retina o seu, que era admirável, com o alheio, que admirava; por menos escrúpulo de consciência -- ele próprio, um nababo, teria pejo, chamado ao pretório, pelas migalhas especiosas de que indevidamente se apropriou.»
 

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«Esse caderninho que Eça trazia no bolso cimeiro do jaquetão e que, imprevistamente no meio da conversa ou no decurso das leituras, sacava para anotar um dito, uma facécia, um qualificativo invulgar, que não nos desse a procedência, dar-nos-ia a amostra das pedrarias preciosas que apanhou assim às rebatinhas e engastou a primor nos adereços e cruzes abrolhadas da sua obra deslumbrante.»
 
 
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