Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

15
Jul25

ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 71) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DO BERÇO À NAU S. BENTO» {c. XVIII de XVIII} * [ vol. I ]

XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.

Manuel Pinto

1ª parte do berço GRANDE.jpg

18 R N.jpg

«Resgate. Inscreve-se para a milícia do Oriente. Os registos da Casa da Índia. A absurda falsificação. Soldado raso. Erros seus, má fortuna...»

238-A.jpg

«O alistamento revestiu o fácies duma imposição, de modo algum de acto voluntário. A carta de perdão é clara. Naquele tempo, faziam-se soldados, libertando-os das cadeias a troco de resgate da pena, ou de meio resgate como sucedeu com Luís de Camões, que, desembolsando quatro mil réis 'pera piedade', cobrou como antecipação do seu soldo a avultada quantia de dois mil e quatrocentos réis. O indulto tem de ser interpretado como um bom negócio para a fazenda real.»
...
«É de notar que no primeiro assento que se lavrou do alistamento do poeta para a Índia se lhe acentuem os traços característicos da fisionomia, como barbirruivo, e não venha indicado que era cego de um olho, não cego de gota serena, o que poderia iludir os oficiais do serviço, mas olho vazado, consoante o pintam.»

239-A.jpg

240A.jpg

«O facto de Luís de Camões ter sido arregimentado para servir na Índia nas tropas de linha, ter indicado vinte e cinco anos como sendo os da sua idade, quando para o alistamento se requeria gente moça e viril, levam a crer que tivesse aquela Idade ou menos ainda. Só com a temperatura dos verdes anos se coadunam os feitos de impulsivo que o levaram à cadeia.»
 

241-A.jpg

«Partiu Luís de Camões de Lisboa um Domingo de Ramos, em plena Primavera, com a morte na alma e lágrimas nos olhos. Embora tivesse vinte e cinco anos, ao seu coração pesado nem era elastério a esperança
 

242A.jpg

«Segundo a carta expedida já da Índia (*CARTA TERCEIRA) as últimas palavras que proferiu seriam as de Cipião Africano: Ingrata patria, nom possidebis ossa mea. (Ingrata pátria, não possuirás os meus ossos.). Camilo, que nunca viu o mar, chasqueia destas palavras prosopopaicas, mas doloridas. O pobre tê-las-ia escrito sem aquilatar, ou pelo menos, medir em seu espírito a ressonância presunçosa que subentendem. Não eram para vir a lume.»
 
 
 
 

79.jpg

 80.jpg

* * * * * * * * * *

FIM DO VOLUME I

( PRIMEIRA PARTE - Do berço à nau S. Bento )

10
Jul25

ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 70) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DO BERÇO À NAU S. BENTO» {c. XVIII de XVIII} * [ vol. I ]

XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.

Manuel Pinto

LIVRO I CAMOES.jpg

1ª parte do berço GRANDE.jpg

231-A.jpg

Luís de Camões acutila. Ódios que viriam de longe. A procissão do Corpus Christi. Rixa desastrada. Golpe de peão contra cavaleiro. O que era o Tronco. Porventura valeram ao recluso as lágrimas da mãe. Nenhum prócer interpôs a mão. 

232-A.jpg

«Os dois bandos deviam medir forças a céu aberto e nas casas das rameiras, desalojando-se dumas e instalando-se noutras, como em cidadelas. Acaudilhava a um provavelmente Simão Rodrigues com o Gonçalo Borges por lugar-tenente. 
Foi neste estado de despique e acesa rivalidade que se deu a briga da festa do Corpus Christi. Andava o tal Borges flotriando o seu cavalo no Rossio, quando, ao caminhar para a Rua de Santo Antão, se defrontou com dois cavaleiros mascarados.» ...
 

233-A.jpg

«Os dois mascarados romperam em chufas contra o Borges, que por modos era assomadiço. E, palavra puxa palavra, arrancaram das espadas. Foi neste momento que Luís de Camões, reconhecendo o Borges, ou reconhecendo os mascarados como alega em sua defesa, o que é pouco verosímil, se aproximou e, sem tir-te nem guar-te, levado por um impulso que supõe ofensa antiga a vingar, lhe descarregou uma espadeirada pela nuca... Seja como for, o Gonçalo soltou brado, os dois provocadores escaparam-se, e Luís de Camões foi preso
 

234-A.jpg

«A rixa com Gonçalo Borges devia derivar, pois, de longo e acirrado acinte entre as duas maltas, a uma das quais pertencia o poeta. Porventura ele e o Borges houvessem tido recentes dares e tomares. Camões topou-se com ele, e perdendo as estribeiras, não lhe perguntou por onde as queria...
O poeta foi encarcerado noTronco. ...
 
«O nome (Tronco) vinha-lhe, ao que consta, dos cepos com argolas e correntes a que eram amarrados os presos pelo pescoço e pelos pés. Tal como aos bois quando vão a ferrar. Em 1567 foram, nos termos duma Carta Régia, compradas as casas "em que soya estar o Tronco" para se fazer uma cadeia no sentido rigoroso do termo. Construiu-se então uma verdadeira prisão, ampla, com masmorras e enxovias à altura. Imagine-se, pela fama que deixou, o que seria o antigo casarão, nojento, piolhoso e latrinário ergástulo, tão medonho como os cárceres do Santo Ofício, mas incomparavelmente mais reles na escala da indecência.
 

235-A.jpg

«Nesta ignóbil cadeia permaneceu Luís de Camões desde 16 de Junho de 1552 até 13 de Março de 1553, cômputo feito pela data da carta de indulto. Nove meses, menos três dias! Quem intercedeu por ele? Nenhum dos amigos, evidentemente, de quem os lautos biógrafos e nobilitadores do seu brasão fazem garbosa açudada.»
... ... ...
 
«Não se derrancou no cárcere porque teve alguma alma boa que se matou a pedir por ele. Provavelmente sua mãe, sem outra recomendação que as santíssimas lágrimas, derramadas aos pés do Borges e dos ministros de El-rei.»
 

236-A.jpg

237-A.jpg

«O indulto real trocava-se contra os quatro mil réis de imposto, um dinheirão ao tempo, e o alistamento para a Índia. No fundo, equivalia à alternativa do degredo em possessão de primeira classe, segundo o Código Penal dos nossos dias.
Onde iriam os pais de Luís de Camões desencantar os quatro mil réis com que se esportularam, sem o que não se abririam para o filho as grades do Tronco? Já havia penhoristas, e D. Ana de Sá teria acarretado para o préstamo suas jóias e quanto lhe desse moeda. 
Alistou-se pois Camões na milícia da Índia, no posto de homem de armas, o mesmo é que soldado raso, nem outro grau competia a quem na escala heráldica não passasse de escudeiro.»
30
Jun25

ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 69) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DO BERÇO À NAU S. BENTO» {c. XVII de XVIII} * [ vol. I ]

XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.

Manuel Pinto

1ª parte do berço GRANDE.jpg

17.cap

(continuação)
 
«Ainda as cartas particulares. As virtudes de Satanás. Lira erótica. Amor físico e seus amavios. Vénus e os génios amáveis da Terra. Acentos de suprema beleza.»
 

225B cortada .jpg

226.jpg

«As cartas trazem o nome de alguns dos componentes do bando, fidalgos, plebeus, valentões de verdade, como esse Calixto de Sequeira que passava por ser o primeiro espingardeiro da Índia. Em contacto com esta fauna larvar e prodigiosa enriqueceu-se sua alma na compreensão do homem. Por certo que também foi nas alfurjas de Lisboa e de Goa que adquiriu a experiência que permitiu o seu génio radiasse em tão alta e flagrante floração.
Desse transcurso tão vincado e emocional ficar-lhe-ia o segredo da alma feminina. Não foi no Paço, onde moravam sobretudo bonecas convencionais, e onde, é para mim ponto de fé, jamais pusera os pés; foi ali nas ruas da Mancebia, no Mal-Cozinhado, no pátio das Arcas, que aprendeu todas essas subtilezas e cambiantes do sentir feminino e de modo geral de tudo o que é subjectivo e recôndito na vida amorosa da pessoa humana.
A obra de Luís de Camões revela uma tendência erótica que se sente a cada passo reprimida ou por força da autocrítica ou pela revisão dos censores. As redondilhas a umas matronas, que haviam de ser medianeiras com certa dama, traduzem esta sua feição, em que se combinam amor, desejo, alcovitaria e cantáridas. E como ele gorjeia bem a lição e se insinua melífluo e sugestivo! Em tudo o que diz respeito ao amor físico e suas avenidas, Luís de Camões é inigualável.»
 

227-A.jpg

«As descrições galantes de suprema beleza, sem falar na Ilha dos Amores, abundam nas páginas do poeta. Tanto nas Rimas como nos Lusíadas.
Logo no Canto II é Vénus...
 

228-A.jpg

 

229-A.jpg

«Uma composição, tocando a mesma tecla da física carnal, com certa audácia é a écloga dos Faunos:
 
    Ah, ninfas fugitivas,
    Que só por não usar humanidade 
    Os perigos dos matos não temeis!
    Para que sois esquivas?
    Que inda de nós não peço piedade,
    Mas dessas alvas carnes que ofendeis.
 
E nada mais clandestino, só para iniciados nos mistérios de Afrodite, que estes dois versos que tanto intrigaram o castíssimo Dr. José Maria Rodrigues ao descrever  Vénus :
 
    C'um delgado cendal às partes cobre
    De quem vergonha é natural reparo;
    Porém nem tudo esconde nem descobre
    O véu, dos roxos lírios pouco avaro.
 
Longo tem sido o debate quanto ao equivalente destes roxos lírios. O Dr. José Maria Rodrigues entende que Camões se equivocou e lhe queria chamar brancos; Epifânio que são os lírios do valado em que fala o Cântico dos Cânticos; com Faria e Sousa são o oro hilado de los pelos; com Afrânio Peixoto, além de poeta, médico, as mucosas das partes pudendas. A meu ver, são roxos em virtude do efeito que produz, com o sol, o cendal branco  lançado sobre o   triângulo preto 

 

* * * * * * * * * *


25
Jun25

ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 68) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DO BERÇO À NAU S. BENTO» {c. XVII de XVIII} * [ vol. I ]

XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.

Manuel Pinto

1ª parte do berço GRANDE.jpg

219-A.jpg

«Camões poeta pluriforme. Sarcasmo que não satanismo. O Chiado à baila. Despiques em redondilha. Lei contra rufiões.»

«O exercício das letras não constituía mester nem mesmo ocupação. À parte os cronistas e guardas dos tombos, a quem incumbia a missão de notar os feitos dos monarcas, e se desempenhavam de tal papel como os tabeliães redigem uma escritura, compor um rimance, alinhar um vilancete era próprio de gente que não tinha nada que fazer; modo de gastar os ócios; sem finalidade económica, por conseguinte.»
 
 

220-A.jpg

«Dos poetas não se fala. Eram cigarras e toda a sua divina voz lançada ao vento. Em regra, por falta de registo -- revistas, gazetas, mil e uma publicações que hoje são bastas como as pragas dos Faraós --, perdia-se, ficava anónima, trocavam-lhe a paternidade.
Em despeito de todos estes azares do tempo e da fortuna, nas Rimas de Luís de Camões há ainda muito de tudo: todos os géneros; todos os padrões; todos os gostos. Predomina o bucólico e o erótico, mas não falta a peça de humor e de sarcasmo. Pois que atravessou o inferno terrestre, devia ter deixado também a sua obra maldita. Mas se deixou, perdeu-se na quase totalidade.»
 

221-A.jpg

222-A.jpg

«Juromenha que andou, já depois de Faria e Sousa, a apanhar quantos argalhos diziam respeito a Camões, descobriu uma quadra do poeta Chiado que parece assentar-lhe, se o apodo de Trinca-fortes é com ele:
 
      Luísa, tu te avisa 
      Que tais melões lhe não dês,
      Porque esse que aí vês,
      Trinca-fortes, mala guisa.
 
«Decerto há aqui um sainete aos melões que a regateira expunha, não apenas aos que imaginava o pudibundo Juromenha e com ele outros, por congruência a incorporar na Constelação Celestial das Onze Mil Virgens, mas aos seios da mesma, termo já corrente na gíria da época pelo que sugerem de análogo na redondeza e no alor. Do mesmo género que essa outra metáfora, do mais requintado culto, patriotismo, os melões da quadra de Chiado representavam um certame em que por certo havia como prémio mais que o fruto das hortas. O próprio Camões abona esta interpretação com uma passagem dos Lusíadas:
 
      Os fermosos limões, ali cheirando, 
      Estão virgíneas tetas imitando.
 

223-A.jpg

224-A.jpg

«Esta versalhada brava deixa adivinhar o que seria a vida de taverna e de alcouce de Chiado e dos seus amigos. Lisboa pululava destas casas de degradação, e da sua fauna própria em despeito das penalidades da lei:»

223 cortada a partir de Morava.jpg

(continua)

 

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Favoritos

Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2023
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub