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Luís de Camões acutila. Ódios que viriam de longe. A procissão do Corpus Christi. Rixa desastrada. Golpe de peão contra cavaleiro. O que era o Tronco. Porventura valeram ao recluso as lágrimas da mãe. Nenhum prócer interpôs a mão.
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«Os dois bandos deviam medir forças a céu aberto e nas casas das rameiras, desalojando-se dumas e instalando-se noutras, como em cidadelas. Acaudilhava a um provavelmente Simão Rodrigues com o Gonçalo Borges por lugar-tenente.
Foi neste estado de despique e acesa rivalidade que se deu a briga da festa do Corpus Christi. Andava o tal Borges flotriando o seu cavalo no Rossio, quando, ao caminhar para a Rua de Santo Antão, se defrontou com dois cavaleiros mascarados.» ...
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«Os dois mascarados romperam em chufas contra o Borges, que por modos era assomadiço. E, palavra puxa palavra, arrancaram das espadas. Foi neste momento que Luís de Camões, reconhecendo o Borges, ou reconhecendo os mascarados como alega em sua defesa, o que é pouco verosímil, se aproximou e, sem tir-te nem guar-te, levado por um impulso que supõe ofensa antiga a vingar, lhe descarregou uma espadeirada pela nuca... Seja como for, o Gonçalo soltou brado, os dois provocadores escaparam-se, e Luís de Camões foi preso.»
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«A rixa com Gonçalo Borges devia derivar, pois, de longo e acirrado acinte entre as duas maltas, a uma das quais pertencia o poeta. Porventura ele e o Borges houvessem tido recentes dares e tomares. Camões topou-se com ele, e perdendo as estribeiras, não lhe perguntou por onde as queria...
O poeta foi encarcerado noTronco. ...
«O nome (Tronco) vinha-lhe, ao que consta, dos cepos com argolas e correntes a que eram amarrados os presos pelo pescoço e pelos pés. Tal como aos bois quando vão a ferrar. Em 1567 foram, nos termos duma Carta Régia, compradas as casas "em que soya estar o Tronco" para se fazer uma cadeia no sentido rigoroso do termo. Construiu-se então uma verdadeira prisão, ampla, com masmorras e enxovias à altura. Imagine-se, pela fama que deixou, o que seria o antigo casarão, nojento, piolhoso e latrinário ergástulo, tão medonho como os cárceres do Santo Ofício, mas incomparavelmente mais reles na escala da indecência.
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«Nesta ignóbil cadeia permaneceu Luís de Camões desde 16 de Junho de 1552 até 13 de Março de 1553, cômputo feito pela data da carta de indulto. Nove meses, menos três dias! Quem intercedeu por ele? Nenhum dos amigos, evidentemente, de quem os lautos biógrafos e nobilitadores do seu brasão fazem garbosa açudada.»
... ... ...
«Não se derrancou no cárcere porque teve alguma alma boa que se matou a pedir por ele. Provavelmente sua mãe, sem outra recomendação que as santíssimas lágrimas, derramadas aos pés do Borges e dos ministros de El-rei.»
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«O indulto real trocava-se contra os quatro mil réis de imposto, um dinheirão ao tempo, e o alistamento para a Índia. No fundo, equivalia à alternativa do degredo em possessão de primeira classe, segundo o Código Penal dos nossos dias.
Onde iriam os pais de Luís de Camões desencantar os quatro mil réis com que se esportularam, sem o que não se abririam para o filho as grades do Tronco? Já havia penhoristas, e D. Ana de Sá teria acarretado para o préstamo suas jóias e quanto lhe desse moeda.
Alistou-se pois Camões na milícia da Índia, no posto de homem de armas, o mesmo é que soldado raso, nem outro grau competia a quem na escala heráldica não passasse de escudeiro.»