Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

30
Dez25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'BRASILEIRO ROMÂNTICO E REALISTA' [ 17 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

sample

0-3 LARGO.jpg

0-3 B Frente a Frente.jpg

(Continuação)

«À data em que Eça escreveu o prefácio do Brasileiro Soares, 1886, tinha Camilo, sagitário por excelência, várias vezes despejado o carcás de flechas envenenadas contra a escola realista, algumas vezes alvejando Eça particularmente. Este mais ironista e menos sarcástico, mais discreto na vida das relações e menos combativo, mais desdenhoso que denodado, não perdia agora a ocasião de responder com o seu virote, acobertadamente ou não.»
 

207 BB.jpg

«O prefácio do Brasileiro Soares era dirigido ao peito de Camilo, e o paspalhão obsceno que Eça tinha na retina devia ser nem mais nem menos do que o barão do Rabaçal, Bento José Pereira de Montalegre, que esmalta com a sua pachouchice e retorcida armadura áurea o Eusébio Macário.»
 

208.jpg

«Na meia dúzia de páginas que precedem o Brasileiro Soares, fulgura o monóculo olímpico e impertinente do escritor, e ouve-se o tinido melodioso e imprevisto da sua adjectivação sardónica e maliciosa. Todavia o discurso é mal articulado e para cúmulo falho de justiça e equanimidade. Não, o romantismo não construia o brasileiro única e exclusivamente consoante o figurino que Eça se apraz descortinar. Havia um ror deles desde o torna-viagem, que era sem dúvida o mais simpático e digno de respeito, e que nem sempre coincidia em representar o odre de vento que cobria a terra natal de não prestas. Sobre o seu contributo de formiga do vasto formigueiro emigratório assentava o equilíbrio económico das sete províncias mães. Os outros tipos, encarados no ângulo literário, tinham mais interesse, mas este era o são, o honrado, o lidimamente português em seu labor ímprobo e humildade.
Ora não foi este que Eça surgiu a defender da calúnia romântica no proscénio a que o atraiu Luís de Magalhães.»
 

209.jpg

«Camilo, através da sua centena de romances, usou duns e doutros em barda. Virou-os do avesso, depois de pintá-los do direito, analisando-os com tenta ora faceciosa, ora cruel, segundo os vários prismas que podia oferecer o espectro. Fixou o sórdido e o generoso, o culto e o boçal, o soberbo e o modesto consoante as necessidades do drama, mas fugindo sempre a falsear o homem»

210.jpg

«Percorrendo a galeria camiliana, basta que seja de fugida, que tipos de brasileiro se nos deparam? Na Mulher Fatal Carlos é um simples e poético bom rapaz: nem joanetes nem boçalidades; no Retrato de Ricardina o brasileiro é igualmente pessoa de bem, generosa e mesmo providencial: desprovido de joanetes e quanto a boçalidade nada; na Vingança sai-nos um émulo de Cagliostro, misteriosos e até equívoco: mas também ninguém dá fé dos seus joanetes nem da sua boçalidade; na Carlota Ângela tampouco o brasileiro, para mais civilizadíssimo, acusa joanetes ou bajoujice; nas Vinte horas de liteira perpassa um brasileiro que, mostrando-se fura-bolos,não deixa de ser sensato e apresentável; nas Estrelas propícias rompe-nos um brasileiro viajado, lido e mundano de todo: mãos finas, boas maneiras; na Filha do doutor Negro temos um autêntico brasileiro do Brasil, fero de alma, mas sem grotescos; no Comendador esse brasileiro torna-viagem é cheio de bondade e lisura: nada também de taras constitucionais; no Cego de Landim o brasileiro é uma incarnação do Vautrin, um Vautrin abeberado de vinho verde, mas ainda esse sem cachuchos nos dedos e sem as ridicularias anexas; no Eusébio Macário, como já notámos, nos Brilhantes do Brasileiro, na Brasileira de Prazins, de acordo, erguem-se esses famosos padrões da estupidez endinheirada, crassos de banhas, bestiais nos desejos, burlescos dos pés à cabeça, tais como Eça se aprouve classificá-los únicos e exclusivos da coorte[*] romântica. Quando muito, o sibarita de Bristol tolerava que variassem  a sua casaca de alpaca como Fregoli. Por dentro, em sua relojoaria e em seu dar horas, eram o sempre mesmo barão do Rabaçal.»
 
«Este foi um dos aleives, com que Camilo pôde bem, e de que era legítimo pedisse contas ao confrade mais novo e mais feliz, como gratuito que era.»
 

211 A.jpg

 
«Agora não deixa de ser curioso que Eça acusasse a escola romântica precisamente daquilo que tem de se lhe levar ao activo das virtudes: o obséquio a uma realidade, que, para mais, constituía um preceito realista, o estudo patológico-social de indivíduos ou de efemérides da vida colectiva; para o nosso caso, o estudo da pessoa multiforme e proteica que foi o brasileiro que Deus haja.»
 
 

dicionário DLP Adcademia das Ciencias.png

coorte [*] 
“coorte”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa. Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/coorte 


Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Favoritos

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2023
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub