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«No perfil de Ramalho Ortigão publicado nas Notas Contemporâneas, datado de 1878, pulsa-se o pouco respeito que merecia a Eça o romantismo e com ele os seus cultores. Por integração de partes, Camilo devia sentir-se atingido. O seu nome não é pronunciado, mas responde à auscultação.
Era legítimo que Eça fizesse tábua rasa de quantos escritores havia em Portugal ao tempo que introduzia na literatura indígena, com mais ou menos subserviência, os métodos de Zola e de Flaubert?
A seta, embora regulada a alça para alto, ia bater no peito do velho romancista de Seide, que arrancando-a ensanguentada, a remetia ao bisonho e leviano frecheiro.»
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«Nesta altura atravessava Camilo uma crise de nevrose aguda, a cada passo se julgando nos últimos dias da vida. Não tinha descanso em parte alguma. Só estava bem onde não estava. As insónias arrasavam-no. Ia de S. Miguel de Seide para Vizela, de Vizela para a Foz; fazia e desfazia as malas. Como tantos homens superiores, que a aura pública conduziu a um auto-centrismo exagerado, a ocupação principal para ele era a sua pessoa.»
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«O pior de tudo e mais certo é que começou a sentir os ameaços do mal que devia terminar na cegueira. O ano 78 passou safro para ele. Resultado de incómodos vários, da biliose, porventura do traumatismo moral provocado pelas primeiras obras dignas da escola nova, que abria caminho saltando a pés juntos sobre os escritores românticos.
Mas já o ano de 79 é para ele um ano de recuperação. Após o largo período de pousio reaparecia mais ardente e fecundo. Dir-se-ia que se retirara da liça a beber os bálsamos. De facto os seus trabalhos coetâneos acusam um lidador que corregeu as armas e se apurou no floreio. O Cancioneiro Alegre, ainda que estudo rápido e desenfastiado, esfusia de chiste e boa graça.»
... ... ...
«Depois ao cabo da refrega com toda uma moirama brava, do livro hecteróclito Sentimentalismo e História lança contra os realistas a charge suprema do Eusébio Macário. Mas este livro supera o seu objectivo. O gigante rompeu por todas as costuras a túnica pretexta que envergou ao tentar aquela empresa de ridículo, e produziu obra de fôlego.»
«... Ninguém duvida que este labor obedeceu a um plano de represália. Semi-deus (Camilo) em cólera, o seu gesto ficou assinalado para sempre. Como responderam os realistas? Eça meteu-se dentro do seu cómodo desdém e deixou passar. Com isso mais se devia enervar o gigante.»
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«Entretanto Eça de Queirós, primeiramente em Newcastle, depois em Bristol, compunha o Primo Basílio, inspirado de certo pela Madame Bovary...
«... Por essa altura remodelava o Crime do Padre Amaro, cuja silhueta principal, recortada sobre o francês, lhe acarretava, entre outros, os doestos de Camilo. O padre agora ficava ecumenicamente católico até para a bandalhice. E esboçava a Capital de que vieram a lume alguns capítulos. Escrevia ao mesmo tempo para os jornais do Brasil as Cartas de Inglaterra. De modo geral trabalhava paciente e tenazmente, com uma lentidão que não era dificuldade de escrever, mas lentidão em que se elaborava, como nas operações químicas a longo prazo, todo aquele artefacto de naturalidade, de estilo cristalino e brincado, de graça que parece produto espontâneo e é efeito dum longo e aturado labor.»
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«Era celibatário, morava numa casa enramalhetada de trepadeiras, e o cargo não lhe exigia grande fadiga. De modo geral, corria-lhe a vida suave e sem solavancos como o Avon que passava debaixo das suas janelas. Por este ligeiro escorço se vê quanto o seu destino era diferente do galeriano de S. Miguel de Seide, aquele sentado de modo sofrível à mesa do orçamento, bem aparentado, com um diploma licenciado para as honrarias, enquanto este, tendo postulado um cargo de comandante das guardas da Alfândega ou coisa parecida, nem essa pretensão viu realizada.»
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«No prefácio da quinta edição do Amor de Perdição, datado de S. Miguel de Seide, 1879, com irreprimível mordacidade, aqui e ali com um certo gongorismo no dizer que não é mais que uma atitude de tesura ao desafiar o adversário que está entrevendo ao longe, Camilo escrevia: "Se comparo o Amor de Perdição, cuja 5ª edição me parece um êxito fenomenal e extra-lusitano, com o Crime do Padre Amaro e o Primo Basílio, confesso, voluntariamente resignado, que para o esplendor destes livros foi preciso que a Arte se ataviasse dos primores lavrados no transcurso de dezasseis anos. O Amor de Perdição, visto à luz eléctrica do criticismo moderno, é um romance romântico, declamatório, com bastantes aleijões líricos e umas ideias celeradas que chegam a tocar no desaforo do sentimentalismo. Eu não cessarei de dizer mal desta novela, que tem a boçal inocência de não devassar alcovas, a fim de que as senhoras a possam ler nas salas, em presença de suas filhas ou de suas mães, e não precisem de esconder-se com o livro no seu quarto de banho. Dizem, porém, que o Amor de perdição fez chorar. Mau foi isso. Mas agora, como indemnização, faz rir; tornou-se cómico pela seriedade antiga, pelo rapozinho que lhe deixou o ranço das velhas histórias do Trancoso e do Padre Teodoro de Almeida. E por isso mesmo se reimprime. O bom senso público relê isto, compara com aquilo, e vinga-se barrufando com frouxos de riso realista as páginas que há dez anos aljofrava com lágrimas românticas."»
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«"Pois que estou a dobrar o cabo tormentório da morte, já não verei onde vai desaguar este enxurro, que rola no bojo a Ideia Novíssima. Como a honestidade é a alma da vida civil, e o decoro é o nó dos liames que atam a sociedade, lembra-me se vergonha e sociedade ruirão ao mesmo tempo por efeito de uma grande evolução-rigolboche. A lógica diz isto; mas a Providência, que usa mais da metafísica que da lógica, provavelmente fará outra coisa. Se, por virtude da metempsicose, eu reaparecer na sociedade do século XXI, talvez me regozije de ver outra vez as lágrimas em moda nos braços da retórica, e esta 5ª edição do Amor de Perdição quase esgotada."»
(continua)