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Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

30
Dez25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'BRASILEIRO ROMÂNTICO E REALISTA' [ 17 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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(Continuação)

«À data em que Eça escreveu o prefácio do Brasileiro Soares, 1886, tinha Camilo, sagitário por excelência, várias vezes despejado o carcás de flechas envenenadas contra a escola realista, algumas vezes alvejando Eça particularmente. Este mais ironista e menos sarcástico, mais discreto na vida das relações e menos combativo, mais desdenhoso que denodado, não perdia agora a ocasião de responder com o seu virote, acobertadamente ou não.»
 

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«O prefácio do Brasileiro Soares era dirigido ao peito de Camilo, e o paspalhão obsceno que Eça tinha na retina devia ser nem mais nem menos do que o barão do Rabaçal, Bento José Pereira de Montalegre, que esmalta com a sua pachouchice e retorcida armadura áurea o Eusébio Macário.»
 

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«Na meia dúzia de páginas que precedem o Brasileiro Soares, fulgura o monóculo olímpico e impertinente do escritor, e ouve-se o tinido melodioso e imprevisto da sua adjectivação sardónica e maliciosa. Todavia o discurso é mal articulado e para cúmulo falho de justiça e equanimidade. Não, o romantismo não construia o brasileiro única e exclusivamente consoante o figurino que Eça se apraz descortinar. Havia um ror deles desde o torna-viagem, que era sem dúvida o mais simpático e digno de respeito, e que nem sempre coincidia em representar o odre de vento que cobria a terra natal de não prestas. Sobre o seu contributo de formiga do vasto formigueiro emigratório assentava o equilíbrio económico das sete províncias mães. Os outros tipos, encarados no ângulo literário, tinham mais interesse, mas este era o são, o honrado, o lidimamente português em seu labor ímprobo e humildade.
Ora não foi este que Eça surgiu a defender da calúnia romântica no proscénio a que o atraiu Luís de Magalhães.»
 

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«Camilo, através da sua centena de romances, usou duns e doutros em barda. Virou-os do avesso, depois de pintá-los do direito, analisando-os com tenta ora faceciosa, ora cruel, segundo os vários prismas que podia oferecer o espectro. Fixou o sórdido e o generoso, o culto e o boçal, o soberbo e o modesto consoante as necessidades do drama, mas fugindo sempre a falsear o homem»

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«Percorrendo a galeria camiliana, basta que seja de fugida, que tipos de brasileiro se nos deparam? Na Mulher Fatal Carlos é um simples e poético bom rapaz: nem joanetes nem boçalidades; no Retrato de Ricardina o brasileiro é igualmente pessoa de bem, generosa e mesmo providencial: desprovido de joanetes e quanto a boçalidade nada; na Vingança sai-nos um émulo de Cagliostro, misteriosos e até equívoco: mas também ninguém dá fé dos seus joanetes nem da sua boçalidade; na Carlota Ângela tampouco o brasileiro, para mais civilizadíssimo, acusa joanetes ou bajoujice; nas Vinte horas de liteira perpassa um brasileiro que, mostrando-se fura-bolos,não deixa de ser sensato e apresentável; nas Estrelas propícias rompe-nos um brasileiro viajado, lido e mundano de todo: mãos finas, boas maneiras; na Filha do doutor Negro temos um autêntico brasileiro do Brasil, fero de alma, mas sem grotescos; no Comendador esse brasileiro torna-viagem é cheio de bondade e lisura: nada também de taras constitucionais; no Cego de Landim o brasileiro é uma incarnação do Vautrin, um Vautrin abeberado de vinho verde, mas ainda esse sem cachuchos nos dedos e sem as ridicularias anexas; no Eusébio Macário, como já notámos, nos Brilhantes do Brasileiro, na Brasileira de Prazins, de acordo, erguem-se esses famosos padrões da estupidez endinheirada, crassos de banhas, bestiais nos desejos, burlescos dos pés à cabeça, tais como Eça se aprouve classificá-los únicos e exclusivos da coorte[*] romântica. Quando muito, o sibarita de Bristol tolerava que variassem  a sua casaca de alpaca como Fregoli. Por dentro, em sua relojoaria e em seu dar horas, eram o sempre mesmo barão do Rabaçal.»
 
«Este foi um dos aleives, com que Camilo pôde bem, e de que era legítimo pedisse contas ao confrade mais novo e mais feliz, como gratuito que era.»
 

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«Agora não deixa de ser curioso que Eça acusasse a escola romântica precisamente daquilo que tem de se lhe levar ao activo das virtudes: o obséquio a uma realidade, que, para mais, constituía um preceito realista, o estudo patológico-social de indivíduos ou de efemérides da vida colectiva; para o nosso caso, o estudo da pessoa multiforme e proteica que foi o brasileiro que Deus haja.»
 
 

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coorte [*] 
“coorte”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa. Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/coorte 


20
Nov25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'CAMILO ATACA EM TODA A LINHA' [ 12 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto
 

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(continuação)
 
«A polémica com Alexandre da Conceição pode considerar-se como o auge da contumélia entre românticos e realistas. Aquele, homem livre e culto, de entendimento tão atilado como cáustico, sabendo manejar a pena, em sua primavera literária um dos devotos de Camilo, caíra em sair à liça em defesa dos princípios novos. Incidentalmente resvalara -- e aqui está a sua falta -- a invocar com menos circunspecção ao homem que tinha tirado o idioma do torno fradesco para dotá-lo de agilidade e do sentido comesinho das coisas, ao passo que lhe restituía todos os tesouros inaproveitados do linguajar plebeu, dos modismos saborosos, das expressões dinâmicas, o que, antes dele, apenas Garrett intentara fazer. O fundibulário não arrumou com as sete pedras de David à testa do entremetido mas com sete vezes sete, e disparando sobre ele regou de metralha o arraial dos realistas. Já se sabia, enquanto lhe restasse fôlego, não era ele que deixava passar em claro ataque ou remoque. O zoilo que o mordesse acautelasse a dentuça.»
 

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«Esta polémica ficou nas letras portuguesas como o seu mais pitoresco e iracundo chinfrim, fértil em chalaça e tropos envenenados. Interessam-nos nela sobretudo as passagens em que, apontando a Alexandre, o tiro batia no príncipe do realismo nacional e seus partidários, umas vezes de raspão, outras vezes em cheio:
«Assevera o crítico que eu no Eusébio Macário tive por intuito confessado a pretensão de lançar o ridículo sobre a escola realista. O sr. Conceição decerto não pode citar frase minha que o justifique.» -- «No prefácio da segunda edição do Eusébio Macário escrevi: Cumpre-me declarar que não intentei ridicularizar a escola realista. Quando apareceram o Crime do Padre Amaro e o Primo Bazílio e os romances de Teixeira de Queiroz (Bento Moreno) admirei-os e escrevi ingenuamente o testemunho da minha admiração. Creio que hoje em dia novela escrita doutro feitio não vinga.»...
 

178.jpg«O Sr. Conceição diz que a Corja é uma banalidadePois que outra coisa há-de ser a minha novela senão uma frioleira? 0 meu romance não tem o desvanecimento de avantajar-se às «banalidades» da sua espécie. Assevera que eu me deixei obsecar (queria talvez escrever obcecar)por pequenas vaidades de seita até ao ponto de ter do autor do Primo Bazílio somente esta estreita compreensão: de que é apenas um romancista ridículo. Não me conformo indiferentemente com esta aleivosia porque admiro e releio os romances do Sr. Eça de Queiroz.»

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«No Cancioneiro Alegre, pág.11, digo do Primo Bazílio: «o romance mais doutrinal que ainda saiu dos prelos portugueses». Doutrinal escrevi como sinónimo de moralizador. Em minha consciência entendo que, se já houve livro que pudesse e devesse salvar uma mulher casada na aresta do abismo, é o Primo Bazílio. O Sr. Eça de Queiroz fez esse raro milagre, porque pintou o vício repulsivo e nojento. As mesmas delícias do delicto emporcalhou-as, pondo as angústias paralelas com as torpezas.» -- Isto não me parece que seja, na afirmação leviana do Sr. Conceição, considerar o Sr. Eça de Queiroz um romancista ridículo.» -- «Pois eu afirmei que não ridicularizara conscientemente a escola realista, entende que esta declaração é uma verdadeira duplicidade literária. Não percebo o que seja duplicidade literária, salvo se quer dizer que sou um celerado que escrevo de dois feitios, com dois estilos e dois processos.»
«Abro um parêntesis para uma pessoa discreta que me vai ler e deplorar. Esta substanciosa controvérsia com o Sr. A. da Conceição originou-se da injustiça com que fui acusado de hostilizar pela irrisão dois escritores que descrevem as coisas e as pessoas como elas são ou podem ser. Constatei com provas escritas que admirava os dois escritores realistas e outros da mesma falange; mas nem me perfilei imodestamente ao seu lado, nem me gabei de usar os modernos processos com conhecimento de causa. Pareceu-me que o realismo se podia exercitar sem estudos prévios, por ser fácil tarefa com observação e estilo descrever a verdade das coisas físicas e ter das morais uma intuspecção mais ou menos aproximada da realidade.»...
 

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«Durante este duelo em que o achincalhe subiu aos tons mais homéricos na ira e no desforço, em que a palavra atingiu na pena, sobretudo, do impávido Camilo uma elasticidade comparável à dum chicote e o sarcasmo encontrou tintas novas imprevistas, Eça manteve-se no seu Bristol calado como um rato. Várias vezes posto em causa, em regra favoravelmente, não pestanejou sequer. Não há uma impressão, uma frase sua acerca desta desatinada rixa, e é pena. Seja como for, deveria ter admirado as inflexões novas que a língua tomara ao exprimir a fúria do rijo contendor. O curioso é que à medida que Alexandre da Conceição vibrava seus golpes e mais empertigava o arcabouço na investida contra o adversário, mais Camilo se avantajava em vigor e digamos ferocidade.»

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«Pois em este extraordinário encontro, único na história das letras portuguesas, o mutismo de Eça é significativo. Em todo o caso, em seu espírito penetrantíssimo, devia assentar com certeza absoluta o poder de dialéctica que Camilo punha nas discussões, seu inesgotável arsenal de golpes e contra-golpes, seus botes diabólicos, fulminantes, por vezes dum donaire a toda a prova e de direcção mortal. E, que os manes de Eça nos perdoem, se erramos, devia-lhe cobrar, mais que respeito, o seu medo. Sim, o seu medo.
 

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«Camilo, que ficara indeciso quanto à aceitação do público pelos produtos da nova escola e, talvez mais do que isso, intelectivamente titubeante, pois que o ano heróico do realismo para ele passara sáfaro como uma lande sem água, tendo-se refeito em 79 e 80 e lançado sucessivamente Eusébio Macário e a Corja, sorte de paródia e de passadiço para os novos métodos, escrevia a Chardron:
«Preciso de conhecer bem o espírito público na apreciação da Corja. Por enquanto não sei decidir, visto que a venda me parece ter sido pequena. Isto prova que as famílias estão atemorizadas.»
No fundo, Camilo admirava Eça. Num livro, hoje quase ignorado, Serões, de Pedro Ivo, que veio a lume em 1880, lia-se no verso do ante-rosto esta opinião lançada pelo próprio punho de Camilo
«É um bom livro; mas... veio depois do Primo Bazílio


12
Nov25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'CAMILO ATACA EM TODA A LINHA' [ 11 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

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«A actividade literária de Camilo de 1880 para 1881 limita-se a pouco mais que à publicação da Corja. À semelhança do Eusébio Macário, de que é a segunda parte, saiu em volume incrustada noutros pequenos trabalhos, a que deu o título já adoptado na primeira miscelânea: História e Sentimentalismo, invertendo apenas a ordem dos assuntos. Fazendo-o, teve em vista aproveitar a aura granjeada, se não foi mero acaso ou o prazer de gozar o chassé-croisé, explicação possível com um indisciplinado como ele era.
A Corja, que é uma dose sublimada do realismo aviado na botica do Eusébio, anunciara-a já a Silva Pinto numa fraseologia facetamente intencional.»

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172.jpg«Camilo tinha o realismo trancado na garganta, ou melhor os praticantes nacionais de tal doutrina, que o ignoravam ou não lhe rendiam o preito que merecia a sua vida de cultor das letras, estrénuo e desvelado. Em consequência, não perdia ensejo de dar-lhes a picada de alfinete quando não era a faca metida aos peitos.»

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«Por esta altura vinha a público o livro da Princesa Rattazzi Le Portugal à vol d'oiseau, em que por má informação dos cornacas, Camilo aparecia amesquinhado, a sua estatura objecto de tal apoucamento que mal se distinguia nas filas de terceira ordem dos escritores portugueses.»
... 
...
«Era uma injustiça clamorosa, mas decerto não tivera as maiores culpas a viajante. A culpa porém do delito estava individuada na sua pessoa, e Camilo respondeu com umas tantas páginas de irisado espírito, temperado aqui e ali de estrepitosíssima mofa: Portugal a voo de pássara.»
 

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«O livro da pobre princesa deu no goto a Camilo e todavia não é dos mais caluniosos que se têm publicado sobre Portugal. Sente-se na autora a vontade de ser imparcial e agradecida à bizarria com que foi recebida. Todos os seus dislates são obra das interpostas pessoas que a certa altura desapareceram da plana e deixaram sair o livro sem o correctivo do lápis local. Somos levados a crer que um dos seus ciceroni e informadores tenha sido Alberto Braga que, não obstante haver oferecido um dos trabalhos a Camilo, não engraçava demais com ele. Com efeito, a Rattazzi fora hóspede do 1°barão de Joane (António Luís Machado Guimarães (1820-1882), cuja casa era para A. Braga, levado pela mão de Bernardino Luís Machado Guimarães (1851-1944) [*], o filho cadete, o albergue providencial.»
 

[*] Bernardino Machado ocupa o 3.º e 8.º lugares de mais alto magistrado da Nação, sendo eleito por duas vezes Presidente da República. No primeiro período, para o quadriénio de 1915 a 1919, e no segundo período, para o de 1925 a 1929. Não chegou a cumprir nenhum deles até final, abortados que foram, o primeiro pelo movimento de Sidónio Pais e o segundo pelo movimento militar do 28 de maio de 1926."

[*] Sogro de Aquilino Ribeiro. O casamento com a sua filha Jerónima Dantas Machado (1897-1987), ocorreu em Junho/1929, na cidade de Paris, onde estavam exilados. 

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«O Portugal a vol d'oiseau, além de não ser destituído duma certa vivacidade, de quando em quando prima na observação justa e sagaz. O diabo foi tocar no brio do velho escritor e toda aquela sua complexa textura de nervos, irradiante em ironias e motejos, vibrou:
«Eu cá estou encascado em cinco cobertores de papa, muito católicos segundo a adjectivação pontifical que se lhes dá. Vai-se-me petrificando o encéfalo e sinto no crânio os óculos do Adriano Machado de Abreu com as frialdades cruas, metálicas, como diria o Eca de Queroz na ortografia da princesa vadia.»
 
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(Continua)

31
Out25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'EÇA IMPASSÍVEL E CAMILO IRADO' [ 10 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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(continuação)
 
«Camilo, no entanto, evitava a guerra. Não foram poucos os testemunhos de apreço literário, é verdade que a modo de parêntesis, que teve para com os adeptos da escola nova. Estes não se demoveram da sua atitude de retraimento. O velho trabalhador das letras não lhes interessava. Se o não lançavam às feras, afogavam-no em desprezível silêncio. Para um homem da fibra de Camilo, o menoscabo era mais ofensivo que o apostado enxovalho. Iam-lhas pagar com língua de palmo. E sacou do fueiro minhoto que as suas mãos volteavam com o mais resplendente gládio.»
 

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No Cancioneiro Alegre e na tréplica Os Críticos do Cancioneiro encontram-se estocadas de reverso, revelando tanta manha como brilho. Por exemplo:
... ... ...
... ... ...
«Rasgaram-se sobre o " Cancioneiro " as cataratas de lama que prenunciam o dilúvio das letras daquém e dalém-mar. -- Que eu saíra a insultar a Ideia Nova no verso e no romance, porque a minha ignorância me vedava as fronteiras que separam o velho romantismo da elaboração dos processos que fotografam a vida a um raio luminoso da ciência. -- Ignorância de quê? Das misérias indeclináveis que eles chamam as podridões? Das lágrimas a que eles dão como lenitivo a gargalhadas do velho e safado diabo das lendas? Eu conhecia tudo isto sem expositores francezes. 0 que eu não podia era atribuir à fisiologia, ao sangue, à fatalidade da raça, o que era da liberdade moral, do espírito, da educação, da consciência, da responsabilidade. Eu ia mais para as lágrimas do que para as náuseas. Mas o estigma indelével da minha ignorância é o plangente estilo de 1840, a frase sem o nervosismo, o ressalto moderno, duma correcção velha e fastidiosa, com uns boleios portugueses a trescalarem ao ranço das selectas. Daí o chamar-me desdenhosamente romântico o sr. R. Ortigão, e o sr. G. Junqueiro, o infante prodigioso, concedendo-me com magnanimidade alguma graduação na inactividade, reformou-me em «romancista subalterno», ao passo que os seus admiradores me expungiam da faina das letras militantes, arranjando resenhas acintosas de escritores em que o meu nome nem sequer lograva entrar na obscuridade dos romancistas falidos ou mortos com Arnaldo Gama e Rebelo da Silva.» 
 

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«Desta passagem como de tantas outras ressuma o despeito, bem justificado, do grande lidador das letras, desdenhado pelos novos e petulantes adeptos do realismo. Eram réus duma injustiça flagrante e é bem humano que o peito de Camilo sangrasse. De certo que a nova escola trazia valores apreciáveis, não vislumbrados pelo romantismo, filhos duma visão mais certa, indeformada, da vida mas seus asseclas, por muito geniais que fossem, não haviam sido os inventores. Com que direito se arrogavam em seus hierofantes, como se tivessem eles apenas o privilégio? A receita, além de não ser hermética, não representava exclusivo deles. E todavia davam a entender que a defendiam como alçada de que eram os únicos e encartados representantes.
Camilo não levava à paciência semelhante presunção. Em verdade, que há de mais eterno numa escola, aquilo que ela pode acusar de singular sobre outra, ou antes o quid que constitui património comum, beleza de forma ou de essência, transmitido de geração para geração? Como aqueles atletas, chamados retiários, que, ao lançar a rede, colhiam lutadores dignos e pigmeus, Camilo junca o chão de batalha de corpos de toda a estatura.»
 

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«A propósito de Sentimentalismo e História, em que rebrilha a jóia de humor e sainete, mais que paródia, mais que sátira aos processos realistas, quase obra perfeita da nova-escola, escreve a Adelino Neves de Melo, que lhe dá informações sobre Cipriano Jardim com quem se propôs ajustar contas:
«O Eusébio Macário é uma brincadeira. Falava-se aí dum realismo que a ser aquilo que eu fiz já V. Ex.ª vê que é coisa fácil de fazer. Mas o naturalismo não é o Primo Basílio: é o Père Goriot, é o Lys dans la vallée, é todo o Balzac; os nossos imitadores criaram uma adjectivação absurda e entenderam que a evolução era aquilo.»
 

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«Camilo, depois de Eusébio Macário, desmascara as suas baterias. Na correspondência com os amigos particulares não cala mais a aversão. Onde haja um adversário da Escola Nova, lisonjeia-o e aplaude-o. Assim procede para com Silva Pinto. Duma carta datada de 29 de Novembro de 79, depois do consabido apiedamento sobre si próprio quanto à saúde e fim próximo, lá vem este remate, com a picada venenosa da vespa depois do zumbido à roda da vítima:
«Tenho gostado muito do seu modo de desmantelar o pseudo-realismo do estilo à Eça. Parece-me que você continua a pacífica destruição que eu comecei, e dou-lhe a minha palavra de honra que desmantela pelo ridículo a escola.»
 
20
Out25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'EÇA IMPASSÍVEL E CAMILO IRADO' [ 9 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

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«No perfil de Ramalho Ortigão publicado nas Notas Contemporâneas, datado de 1878, pulsa-se o pouco respeito que merecia a Eça o romantismo e com ele os seus cultores. Por integração de partes, Camilo devia sentir-se atingido. O seu nome não é pronunciado, mas responde à auscultação.
Era legítimo que Eça fizesse tábua rasa de quantos escritores havia em Portugal ao tempo que introduzia na literatura indígena, com mais ou menos subserviência, os métodos de Zola e de Flaubert?
A seta, embora regulada a alça para alto, ia bater no peito do velho romancista de Seide, que arrancando-a ensanguentada, a remetia ao bisonho e leviano frecheiro.»

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«Nesta altura atravessava Camilo uma crise de nevrose aguda, a cada passo se julgando nos últimos dias da vida. Não tinha descanso em parte alguma. Só estava bem onde não estava. As insónias arrasavam-no. Ia de S. Miguel de Seide para Vizela, de Vizela para a Foz; fazia e desfazia as malas. Como tantos homens superiores, que a aura pública conduziu a um auto-centrismo exagerado, a ocupação principal para ele era a sua pessoa.»


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«O pior de tudo e mais certo é que começou a sentir os ameaços do mal que devia terminar na cegueira. O ano 78 passou safro para ele. Resultado de incómodos vários, da biliose, porventura do traumatismo moral provocado pelas primeiras obras dignas da escola nova, que abria caminho saltando a pés juntos sobre os escritores românticos.

Mas já o ano de 79 é para ele um ano de recuperação. Após o largo período de pousio reaparecia mais ardente e fecundo. Dir-se-ia que se retirara da liça a beber os bálsamos. De facto os seus trabalhos coetâneos acusam um lidador que corregeu as armas e se apurou no floreio. O Cancioneiro Alegre, ainda que estudo rápido e desenfastiado, esfusia de chiste e boa graça.»

... ... ...

«Depois ao cabo da refrega com toda uma moirama brava, do livro hecteróclito Sentimentalismo e História lança contra os realistas a charge suprema do Eusébio Macário. Mas este livro supera o seu objectivo. O gigante rompeu por todas as costuras a túnica pretexta que envergou ao tentar aquela empresa de ridículo, e produziu obra de fôlego.»

«... Ninguém duvida que este labor obedeceu a um plano de represália. Semi-deus (Camilo) em cólera, o seu gesto ficou assinalado para sempre. Como responderam os realistas? Eça meteu-se dentro do seu cómodo desdém e deixou passar. Com isso mais se devia enervar o gigante.»

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«Entretanto Eça de Queirós, primeiramente em Newcastle, depois em Bristol, compunha o Primo Basílio, inspirado de certo pela Madame Bovary...

«... Por essa altura remodelava o Crime do Padre Amaro, cuja silhueta principal, recortada sobre o francês, lhe acarretava, entre outros, os doestos de Camilo. O padre agora ficava ecumenicamente católico até para a bandalhice. E esboçava a Capital de que vieram a lume alguns capítulos. Escrevia ao mesmo tempo para os jornais do Brasil as Cartas de Inglaterra. De modo geral trabalhava paciente e tenazmente, com uma lentidão que não era dificuldade de escrever, mas lentidão em que se elaborava, como nas operações químicas a longo prazo, todo aquele artefacto de naturalidade, de estilo cristalino e brincado, de graça que parece produto espontâneo e é efeito dum longo e aturado labor.»

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«Era celibatário, morava numa casa enramalhetada de trepadeiras, e o cargo não lhe exigia grande fadiga. De modo geral, corria-lhe a vida suave e sem solavancos como o Avon que passava debaixo das suas janelas. Por este ligeiro escorço se vê quanto o seu destino era diferente do galeriano de S. Miguel de Seide, aquele sentado de modo sofrível à mesa do orçamento, bem aparentado, com um diploma licenciado para as honrarias, enquanto este, tendo postulado um cargo de comandante das guardas da Alfândega ou coisa parecida, nem essa pretensão viu realizada.»

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«No prefácio da quinta edição do Amor de Perdição, datado de S. Miguel de Seide, 1879, com irreprimível mordacidade, aqui e ali com um certo gongorismo no dizer que não é mais que uma atitude de tesura ao desafiar o adversário que está entrevendo ao longe, Camilo escrevia: "Se comparo o Amor de Perdição, cuja 5ª edição me parece um êxito fenomenal e extra-lusitano, com o Crime do Padre Amaro e o Primo Basílio, confesso, voluntariamente resignado, que para o esplendor destes livros foi preciso que a Arte se ataviasse dos primores lavrados no transcurso de dezasseis anos. O Amor de Perdição, visto à luz eléctrica do criticismo moderno, é um romance romântico, declamatório, com bastantes aleijões líricos e umas ideias celeradas que chegam a tocar no desaforo do sentimentalismo. Eu não cessarei de dizer mal desta novela, que tem a boçal inocência de não devassar alcovas, a fim de que as senhoras a possam ler nas salas, em presença de suas filhas ou de suas mães, e não precisem de esconder-se com o livro no seu quarto de banho. Dizem, porém, que o Amor de perdição fez chorar. Mau foi isso. Mas agora, como indemnização, faz rir; tornou-se cómico pela seriedade antiga, pelo rapozinho que lhe deixou o ranço das velhas histórias do Trancoso e do Padre Teodoro de Almeida. E por isso mesmo se reimprime. O bom senso público relê isto, compara com aquilo, e vinga-se barrufando com frouxos de riso realista as páginas que há dez anos aljofrava com lágrimas românticas."»

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«"Pois que estou a dobrar o cabo tormentório da morte, já não verei onde vai desaguar este enxurro, que rola no bojo a Ideia Novíssima. Como a honestidade é a alma da vida civil, e o decoro é o nó dos liames que atam a sociedade, lembra-me se vergonha e sociedade ruirão ao mesmo tempo por efeito de uma grande evolução-rigolboche. A lógica diz isto; mas a Providência, que usa mais da metafísica que da lógica, provavelmente fará outra coisa. Se, por virtude da metempsicose, eu reaparecer na sociedade do século XXI, talvez me regozije de ver outra vez as lágrimas em moda nos braços da retórica, e esta 5ª edição do Amor de Perdição quase esgotada."»

(continua)

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