Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

30
Set25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'DO «CRIME DO PADRE AMARO» ÀS «NOVELAS DO MINHO»' [ 7 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

Manuel Pinto

0-1 capa 3ªediçao.jpg

0-3 LARGO.jpg

0-3 A Frente a Frente.jpg

(continuação)

149.jpgparte B.jpg

Do primeiro folhetim de Eça na Gazeta de Portugal, Sinfonia de abertura, à primeira edição do Crime do Padre Amaro medeiam cerca de dez anos. O mundo deu muita volta. Catervas de escritores e poetas se atropelaram e se desvaneceram na porfia de cada qual subir mais alto a escada de Jacob que leva à glória. É sabido que em Portugal o mais empolgante da competição literária se travou entre Camilo e Eça. Ramalho Ortigão está em meio como Agamémnon na guerra de Troia. Os papéis de protagonista reveem a Camilo e Eça, este vinte anos mais novo do que aquele, viajado pela estranja, munido dum diploma de bacharel, o que lhe confere na vida das relações uma mobilidade que não tinha o outro, aparentado depois do seu casamento com famílias influentes no meio social, dispondo de recursos materiais que Camilo tinha de cavar como um moiro dia a dia. Mas que armas damasquinadas não possuía o velho mandingueiro de S. Miguel de Seide, receitas ervadas, venenos subtis e irosa facúndia! Muito raramente os adversários desceram ao proscénio. Tampouco se ouvia o tinido dos seus passes de armas. Camilo aparecia ainda de quando em quando a fulgurar o seu florete percuciente. A correspondência vinda a lume com um e outros, depois do seu falecimento, entremostra-o apaixonado e ruminando uma cólera divinaEça não deu cavaco. Que o fizesse sistematicamente ou em obediência à sua índole de delicado, o silêncio foi uma das suas armas. Mas este silêncio diferido até o formidável argamassador do idioma e criador de tipos, que foi Camilo, constituiu, já o dissemos, a sua maior iniquidade literária. Todavia o entrechoque teria conduzido a outras avenidas, com proveito talvez para as letras pátrias, sem o alvoroço que se suscitou nos arraiais respectivos.
 
À volta de 1871 escrevia Camilo a um senhor Ferreira de Melo que graciosamente lhe carregava dados para o romance vindo a lume tempos depois, o Demónio do Ouro:
Como V.Exª. sabe, no dizer de Ponsard 'le vrai n'est pas toujour le beau. Acontece frequentemente que os acontecimentos verdadeiros, vazados na forma de novela, são desgraciosos, áridos e até impertinentes. Parece que o máximo de leitores desadora que lhe dêem a natureza tal qual ela é moralmente falando. E, além disso, sabe V.Exª que há coisas verdadeiras, mas por tal modo triviais que chegam a enfastiar quem mais se contenta do maravilhoso. Eu não costumo obtemperar com os paladares depravados pelas iguarias à francesa. Todo o meu intento, embora mal desempenhado, tem sido posto na descrição dos usos e costumes da nossa terra, antepondo à nota de recreativo a satisfação de verdadeiro, dando a todas as minhas novelas um colorido de verosimilhança.
Estas palavras pressupoem já uma atitude de contemporização para com a nova escola. Poderia mesmo chamar-se-lhes um programa de realismo moderado. Dali em diante, em verdade, desaparecem da galeria camiliana as velhas rábulas do romantismo com os exasperos de paixão, satanismo e revolta, os Simões Peixoto, Simões Botelho, Guilhermes do Amaral, Angélicas Florinda, Marianas, etc. etc. Os casos sociais que versa perdem a solenidade bironiana e o brilho zodiacal dos diamantes pretos. No Carrasco de Vítor Hugo José Alves, metamorfose da Infanta Capelista, as personagens adaptam-se às dimensões comuns, inclusive a luveira, em despeito da sua prosápia.
 


150.jpg

151.jpg

Na trilogia, o Regicida, a Filha do Regicida, e a Caveira da Mártir, impera o mesmo sentido das proporções e um respeito muito humano pela verdade, ainda quando fluindo contra o supedâneo do trono.
 

152.jpg

«É ocioso falar na Brasileira de Prazins em que se acentua de modo nítido o molde realista.
Indubitavelmente Camilo tinha cortado de vez com os narizes de cera da antiga literatura, idólatras do eu e monstros de ideais impossíveis, martirizados uns pelo sentimento da sua impotência, esmagados outros pela absurdez das suas ilusões, munidos tantos deles de asas de anjo ou demónio, e contaminados todos pelo imaginário mal do século.
As Novelas do Minho podem considerar-se um passadiço para os novos cânones e seria heresia supor que uma natureza estética, rica de seiva e de fantástico poder técnico, como Camilo, dado que aceitasse de boa mente os preceitos da doutrina, não cultivasse o género com honra; não chegasse mesmo a sumo-sacerdote. E é de admitir que o tivesse feito, se não fossem as inibições de ordem pessoal que se levantaram duma refrega suscitada tarde e a más horas, próprias dum país separado do resto da Europa pelos Pirenéus e com uma cultura que é forçoso localizar à boca crepuscular da Idade Média.
 

(continua)

 

23
Set25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'DO «CRIME DO PADRE AMARO» ÀS «NOVELAS DO MINHO»' [ 6 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

1-CAPA A.jpg

0-3 LARGO.jpg

0-3 B Frente a Frente.jpg

143.jpg

144.jpg

«Uma crítica sagaz da personalidade literária de Eça procuraria, mais que plágios ou decalques, a fonte da sua inspiração. A muitos escritores é necessário que venha de fora, como toque de graça, o verbum, ou a palavra mágica, como entendia M.me de Staël. O Mandarim é o produto dum lugar comum do adagiário francês: tuer le mandarin. Mas o modo de transmissão em naturezas ricas de sensibilidade como Eça deve ser vário e multiforme.
O anúncio nada mais que o anúncio da Faute de l' Abbé Mouret pode muito bem ter provocado a faísca espiritual que determinou o Crime do Padre Amaro. A leitura de Gattina e de Renan, dado o substratum comum de gostos e tendências, pode explicar também a génese da Relíquia. De resto, toda a obra de imaginação supõe um núcleo originário, extrínseco ao artista, com maior ou menor desenvolvimento. Em Eça, excepcionalmente dotado para as operações da forma, isto é, psique ordenadora por excelência, a faculdade estética precisava destes contactos providenciais, desta impregnação verbal para exercer-se. Mas fica por isso desvaliado? É uma modalidade de escritor, e por ela se aparta de Camilo, mais subjectivo, dominado por forças íntimas doutra espécie, tirando mais do próprio peito que do mundo externo a greda com que foi amassando o seu povoadíssimo guinhol.»
 

145.jpg

«Numa carta ao Visconde de Ouguela, Camilo dizia: Já leste o Crime do Padre Amaro de Eça de Queirós? Li alguns capítulos na Revista Ocidental e achei excelente. Vi anunciado agora o romance em livro. Este rapaz vem tomar a vanguarda a todos os romancistas. É um admirável observador e, conquanto faça pouco caso das imunidades da língua, tem arte de fazer admiráveis defeitos.
A diferença que há nas duas versões, é que a do livro representa já uma decantação. Aqui perde, além ganha, mas no geral sublima-se.»
 

146.jpg

147.jpg

148.jpg

149.jpgparte A.jpg

«Uma vez assim castigado, o Crime do Padre Amaro queda uma jóia lavrada de primeiro fulgor na literatura portuguesa. Noutra carta se refere Camilo ao Crime depois de escorreito da ganga: Estou lendo o romance, que é bastante diverso do que eu lera na Revista Ocidental. Tem admirável paciência de observação plástica; mas, dentro dos tecidos musculares, figura-se-me que vê mal. Quanto à linguagem, às impropriedades reflexo de Flaubert, não estranho nem as abomino; o que me escandaliza são os velhos erros de gramática e os barbarismos, que não usam os satânicos franceses na sua língua. Este livro seria perfeito se o Eça conhecesse a língua um pouco estafada e gordurosa de Luís de Sousa.»
 
(continua)
31
Ago25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'ROMÂNTICOS E REALISTAS' [ 4 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

0-1 capa 3ªediçao.jpg

0-3 LARGO.jpg

0-3 IMelhorFrente a Frente.jpg

(continuação)
 
«Em 1870 publicou Eça de braço dado com Ramalho o Mistério da Estrada de Cintra, romance literariamente banal que não encerra nada que possa acreditá-lo como ponto de partida duma renovação literária. Em França, onde está necessariamente a nossa tábua de referências, esse livro passaria baralhado com a variada produção capa-espada de Ponson du Terrail e companhia. A essa data tinha Camilo já dado a lume Coração, cabeça e estômago, de que, diga-se a título de curiosidade pura, está traduzida para francês a terceira parte sob o título de Mariage de Silvestre. Este trabalho originalíssimo, sim, poderia considerar-se como marco miliário no caminho do naturalismo e padrão duma nova era. Sob o ponto de vista de observação e de linguagem vale incomparavelmente mais que o Mistério da Estrada de Cintra que beneficiou do espavento que lhe proporcionou a Gazeta com publicá-lo em folhetins e, corolariamente, do consenso público, terreno movediço em que não pode estear-se um critério de qualidade.
Pois não obstante o seu medíocre estofo, ausência de novidade impressiva, Camilo diria dele, é verdade que em carta datada de 1886 dirigida a António Maria Pereira, editor dum e doutro: Já lhe agradeci e li o Mistério da Estrada de Cintra. Achei-o admirável pelas brilhantes audácias de linguagem. Foi esse livro que iniciou a reforma das milícias literárias indígenas, a tropa fandanga de que eu fui cabo de esquadra...»
 

133 B.jpg

134.jpg

135.jpg

«Em 1871 a bela e já celebrada comandita Eça e Ramalho lança o panfleto mensal das Farpas. O número de Maio abre com o balanço da vida portuguesa, da autoria do primeiro, e prossegue no domínio da intelectualidade: Olhemos agora a literatura. A literatura -- a poesia e romance -- sem ideia, sem originalidade, convencional, hipócrita, falsíssima, não exprime nada: nem a tendência colectiva da sociedade nem o temperamento individual do escritor. Tudo em torno dela se transformou, só ela ficou imóvel. De modo que, pasmada e alheada, nem ela compreende o seu tempo, nem ninguém a compreende a ela.»
 

136.jpg

«De resto quando um sujeito consegue ter assim escrito três romances, a consciência pública reconhece que ele tem servido a causa do progresso e dá-se-lhe a pasta da Fazenda.»
 

137.jpg

«Os virotes não eram lançados particularmente contra Camilo que não compusera apenas três novelas e não só não era ministro de Estado como lhe fora negado um mísero emprego na Alfândega. Mas, despedidos para o monte, apanhava por tabela! De resto a crítica errava a pontaria, atirando aos pés para a pobre e ingénua literatura portuguesa tão medrosa no patológico como respeitadora da moral.
Aceitamos de boa mente que Camilo tenha resvalado algumas vezes aos dislates abrangidos pelo anátema com que Eça fulminou a republiqueta literária. Mas essas quebras resgatou-as de sobejo na sua obra pluriforme, onde a observação justa do real supera aos arremedos do artifício, o verdadeiro drama humano ao especioso, a fala colhida no tráfego da vida corrente com seu carácter, seus módulos, seus filamentos tácteis de ser animado, ao verbo empalhado, incolor ou fictício, sobretudo, oh, sobretudo à ingresia formada, metade por pedanteria, metade por ignorância, com vozes estrangeiras.
O trecho não alvejava Camilo, mas na omissão, que mais não fosse, do seu nome, residia uma crítica afrontosa pelo que tinha de injustamente negativo. Essa omissão ia-se adensando de ano para ano, enovelada em grosso e feio pecado.»
 

(continua)

07
Ago25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'ROMÂNTICOS E REALISTAS' [ 3 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

1-CAPA A.jpg

 

0-3 LARGO.jpg

 

0-3 B Frente a Frente.jpg

«Anos de 1866, 67, 68 termina Eça a sua formatura em Direito, estreia-se na Gazeta de Portugal, cozinha o Distrito de Évora, ensaia a lira satânica de Baudelaire. E flana, flana por Lisboa. A experiência da capital vem-lhe dessa data. Os decadentes e irregulares que traz ao tablado, em especial no Primo Basílio, nos Maias, e toda a sub-galeria dos romances póstumos, personagens quase todas dealbadas da ganga nativa nas águas do Sena, são transposições da sua vida de sociedade.»

125.jpg

126.jpg

«Esses três anos, não falando no período morto que vai até 1869, consumi-los-á em vagabundagem, num vago cenáculo, literatizando como sempre à francesa, até a altura em que de monóculo entalado no orbe do olho e uma grande curiosidade na alma embarca com o conde de Rezende para a Terra Santa. Viagem farta de pitoresco e de perspectiva, fornecerá o tema, por um ror de tempo, às tertúlias literárias. O nome de Eça passa a voar nas asas da fama, os cultores da anedota havendo pilhado um filão.»
 

127.jpg

 
«Entretanto Camilo vai assentando pedra após pedra na prodigiosa torre, mais que Babel, que é a sua obra. S. Miguel de Seide é um estaleiro. Trabalham a derreter os miolos, instados pelas necessidades da vida, tanto o escritor como Ana Plácido. A seguir à Enjeitada, romance francamente mau, em que presumo vislumbrar a mesma tessitura feminina da Luz coada por ferros, talvez retocado e limado pelo escritor, apareceu o Judeu, a Queda dum Anjo, duma altitude nunca antes atingida em Portugal, o Santo da Montanha com uma boa parte castiça e superior, o Senhor do Paço de Ninães, não menos sobranceiro, os Mistérios de Fafe, em que estua uma prosa viril e dúctil, dobrada nas suas mãos como o ferro nas tenazes do bom ferreiro de Guimarães, o Retrato de Ricardina que rasga uma janela de céu azul e chão de neve no terrível e feio mundo. Para falar apenas nos livros capitais daqueles três anos de intensa safra. O lutador está a entrar na última década da sua actividade e produz como as macieiras do seu quintalinho dão maçãs. Às cestadas. Por todo o Portugal, levado pelas gazetas, pelos livros a dois tostões, pelos folhetos de polémica e os ventos suscitados, o seu nome corre. Não há ninguém dotado de percepção alfabética, digamos, que não descortine, como a um seareiro prometáico, o trabalhador a cobrir infatigavelmente com a sua letrinha miúda e rectilínea resmas e resmas de papel branco.
Em Évora, em Lisboa, em Leiria, alguma vez o escritor incipiente e snob se aperceberia deste Caim das letras? Sentiria alguma vez pulsar a alma multíplice, cheia de falhas, mas até nelas grandioso, deste colosso? Não no-lo diz quando é tão prolixo nas suas inclinações e fatacazes. E é lamentável que em cérebro tão peregrino como o de Eça não brotasse uma admiração espontânea, impulsiva, ardorosa pelo veterano do romance, já que o coração lhe havia, mercê dos maus boléus das fadas, estancado para os reptos da generosidade sem troco. E nós hoje, porque a plana literária se nos defronta em perspectiva rasa e emareada de preconcebimentos, não compreendemos o silêncio de Eça. A demarcar o percurso triunfo triunfal do romancista da Relíquia, falta um artigo, uma saudação, um brado de entusiasmo pelo escritor que fora naufragar na verde e anojadiça terra minhota, falta-lhe, sim, esse ex-voto, tal emblema de Hermes na via dum César.»
 
 

128.jpg

«E entre os merecidos respeitos não há Aristarco que não coloque Camilo, o maior.»
 

129.jpg

130.jpg

131.jpg

132.jpg

133 A.jpg

 « ...o certo é que Eça, considerando o romance em coma, excluía Camilo do número dos reanimadores, pois que era tarde para a carreira deste o fazê-lo e equivaleria simultâneamente a negá-lo supondo-o investido de semelhante empresa. E é clamorosa a injustiça de tal conceito contra quem vinha praticando com exaustão e com relevo aquele género literário.»
 

(continua)

23
Jul25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'PRIMEIROS ESCRITOS' [ 1 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

capa 1.jpg

capa 2.jpg

0-3 LARGO.jpg

 

0-3 B Frente a Frente.jpg

111.jpg

«Quando em 1866 surgiu na Gazeta de Portugal o nome de Eça de Queirós, a revista estava em franco declínio. Descortina-se isso hoje perfeitamente com a nitidez de visão de que beneficiam as coisas espirituais a distância. Estava em franco declínio e tal facto explica o acolhimento que acertou receber Eça, estreante de prosa apocalíptica, destituída de bom senso e de gramática, mascavada de francesia -- bárbara veio a titulá-la um seu compilador e figura relevante do cenáculo.
Na Gazeta pontificava António Feliciano de Castilho, hierofante na reverência que lhe tributavam e ele exigia, e, ainda que meteoricamente, aparecia Camilo com um destes retalhos de prosa que ofuscavam todo o resto.»

112.jpg

«A revista em decadência, a meter água, de colunas em branco, as colunas dos hebdomadários à míngua de colaboração, longas e desesperadoras como léguas das velhas, pegou do manuscrito que lhe levava o inesperado samaritano (Eça) sem lhe provar sequer o travor. A estreia devia ter sido bafejada por estes ventos mornos do descampado.
Riam-se dele? Sim, riam-se dele, uns com a conspícua suficiência de quem eram, outros bolónios de todo. Parece que o próprio director, António Augusto Teixeira de Vasconcelos, o não tomava muito a sério. Realmente não se podia conceber nada de mais rebarbativo para o tempo que a forma das Notas Marginais : ...

... ... ...

Este fraseado que arrepelava a sintaxe e o siso do discurso: "rasgavam com os ossos dos cotovelos as carnes moles" e "voluptuosidades mais mórbidas que os orvalhos da lua" era para fazer dar pulos de sagúi ao velho bonzo do Castilho e arrancar uma gargalhada de gozo, se a hipocondria o não atanazasse, ao cenobita de Seide.»

113.jpg

114.jpg

«Camilo, é verdade, começou a olhar para o jovem criminoso com ar divertido. Embora espírito alevantado e sensível a todas as radiações novas, mas com centro de gravidade no senso comum, nada mais natural que se sentisse em relação a ele como Hércules perante um súbdito da rainha Pigas. Em carta dirigida a Castilho, datada de 1866, quando Eça já ia levado imperturbavelmente Gazeta em fora, lavrando em todos os números o mesmo pechisbeque, perpassa um breve frouxo de mofa: "Esperemos a primavera. Olhe que isto aqui está frio. O quintal está plantado de couve, fava e ervilha. O sol tem umas frialdades moles, como diz um Eça de Queirós nos folhetins da Gazeta de Portugal"

115.jpg

«Camilo, anos andados, lançava, sim, uma profecia que equivale à diagnose segura da carreira que Eça mal começava de tentear: "Este rapaz vem  tomar a vanguarda de todos os romancistas". Palpita no intuspectivo de tais palavras a fatalidade inexorável a que está adstrita a evolução das coisas. Mas com elas também é certo que o gigante queria exprimir que tão pouco tinha medo de competições como das sombras que subiam do Orco para o tragar.»

116.jpg

117.jpg

«Não é menos fora de dúvida que um escritor da craveira de Camilo olhe com mais curiosidade para o nascer do sol do que para o ocaso. Todos os que apareciam a bater um coturno singular ou com ares de novo no proscénio das letras o interessavam. Aos cadáveres embalsamados da Acrópole tratava, sim, com obséquio formal. Nem sempre lhe era despiciendo o seu pitoresco; a sua experiência filológica; a sua cortesia circunspecta; a seriedade por vezes cómica das suas dramatis personae.
Embora a correspondência trocada pareça testemunhar comércio útil e fervoroso com este e aquele, nada no fundo mais fátuo. Camilo era um homem que possuía em grau muito inferior o poder de iludir-se.»
...
«Sempre que o móbil pessoal, estima ou desafecto, não lhe influenciava a pena, o parecer e crítica de Camilo eram modelos de acuidade e de observação».

 

(continua)

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Favoritos

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2023
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub