Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro.
«Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]
Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro.
«Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]
«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.
Manuel Pinto
«A actividade literária de Camilo de 1880 para 1881 limita-se a pouco mais que à publicação da Corja. À semelhança do Eusébio Macário, deque é a segunda parte, saiu em volume incrustada noutros pequenos trabalhos, a que deu o título já adoptado na primeira miscelânea: História e Sentimentalismo, invertendo apenas a ordem dos assuntos. Fazendo-o, teve em vista aproveitar a aura granjeada, se não foi mero acaso ou o prazer de gozar o chassé-croisé, explicação possível com um indisciplinado como ele era.
A Corja, que é uma dose sublimada do realismo aviado na botica do Eusébio, anunciara-a já a Silva Pinto numa fraseologia facetamente intencional.»
«Camilo tinha o realismo trancado na garganta, ou melhor os praticantes nacionais de tal doutrina, que o ignoravam ou não lhe rendiam o preito que merecia a sua vida de cultor das letras, estrénuo e desvelado. Em consequência, não perdia ensejo de dar-lhes a picada de alfinete quando não era a faca metida aos peitos.»
«Por esta altura vinha a público o livro da Princesa RattazziLe Portugal à vol d'oiseau, em que por má informação dos cornacas, Camilo aparecia amesquinhado, a sua estatura objecto de tal apoucamento que mal se distinguia nas filas de terceira ordem dos escritores portugueses.»
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«Era uma injustiça clamorosa, mas decerto não tivera as maiores culpas a viajante. A culpa porém do delito estava individuada na sua pessoa, e Camilo respondeu com umas tantas páginas de irisado espírito, temperado aqui e ali de estrepitosíssima mofa: Portugal a voo de pássara.»
«O livro da pobre princesa deu no goto a Camilo e todavia não é dos mais caluniosos que se têm publicado sobre Portugal. Sente-se na autora a vontade de ser imparcial e agradecida à bizarria com que foi recebida. Todos os seus dislates são obra das interpostas pessoas que a certa altura desapareceram da plana e deixaram sair o livro sem o correctivo do lápis local. Somos levados a crer que um dos seus ciceroni e informadores tenha sido Alberto Braga que, não obstante haver oferecido um dos trabalhos a Camilo, não engraçava demais com ele. Com efeito, a Rattazzi fora hóspede do 1°barão de Joane (António Luís Machado Guimarães (1820-1882), cuja casa era para A. Braga, levado pela mão de Bernardino Luís Machado Guimarães (1851-1944) [*], o filho cadete, o albergue providencial.»
[*] Bernardino Machadoocupa o 3.º e 8.º lugares de mais alto magistrado da Nação, sendo eleito por duas vezes Presidente da República. No primeiro período, para o quadriénio de 1915 a 1919, e no segundo período, para o de 1925 a 1929. Não chegou a cumprir nenhum deles até final, abortados que foram, o primeiro pelo movimento de Sidónio Pais e o segundo pelo movimento militar do 28 de maio de 1926."
[*] Sogro de Aquilino Ribeiro. O casamento com a sua filha Jerónima Dantas Machado (1897-1987), ocorreu em Junho/1929, na cidade de Paris, onde estavam exilados.
«O Portugal a vol d'oiseau, além de não ser destituído duma certa vivacidade, de quando em quando prima na observação justa e sagaz. O diabo foi tocar no brio do velho escritor e toda aquela sua complexa textura de nervos, irradiante em ironias e motejos, vibrou:
«Eu cá estou encascado em cinco cobertores de papa, muito católicos segundo a adjectivação pontifical que se lhes dá. Vai-se-me petrificando o encéfalo e sinto no crânio os óculos do Adriano Machado de Abreu com as frialdades cruas, metálicas, comodiriao Eca de Queroz na ortografia da princesa vadia.»
«Quem folhear os livros de Aquilino, encontra em regra, no verso de uma das primeiras páginas, a marca do autor. Essa marca é representada por uma águia, de asas abertas, encimada pela palavra "Aquilino". Sabendo nós que águia e Aquilino pertencem à mesma família, não nos causará estranheza que o romancista da Via Sinuosa e das Terras do Demo haja escolhido uma águia para marca do seu sinete. Estranheza poderá causar o facto de o romancista se chamar Aquilino -- nome tão raro como os corvos brancos. Mas, melhor ou pior, tudo tem neste mundo a sua explicação e por consequência, o nome de Aquilino não podia deixar de ter a sua. O escritor nasceu em 13 de Setembro de 1885. Nessa época, e se digo nessa época porque o calendário sob este aspecto não é imutável, o dia 13 de Setembro era consagrado a Santo Aquilino. A mãe do escritor, senhora muito religiosa, quis que o filho tivesse o nome do Santo do dia em que ele nasceu, e assim foi. Esta circunstância não veio a ter -- porque ocultá-lo? -- grande influência, sob o ponto de vista litúrgico, na vida espiritual do escritor. Se não temesse ser indiscreto, eu contaria mesmo que uma dama gentilíssima mandou, um dia, a Aquilino Ribeiro um registo de Santo Aquilino acompanhado de algumas profundas palavras de catequese. Aquilino sorriu e limitou-se a comentar: -- Se existe já um Santo Aquilino, para que é preciso outro?» (... ... ...) «Não é, porém, aquela águia de asas abertas, que constitui propriamente o ex-líbris de Aquilino Ribeiro. Aquela águia não é senão a marca do sinete com que Aquilino chancela os exemplares das suas obras: o seu ex-líbris é diferente. Representa um cavaleiro a galope, seguido fielmente, por um cão, e tendo esta frase por legenda: «Alcança quem não cansa». Desenhou-o Leal da Câmara! A simples citação deste nome evoca em todos nós um grande artista de múltiplas aptidões; mas evoca em mim -- e em Aquilino também -- um amigo inolvidável. Leal da Câmara!»
Luís de Oliveira Guimarães, «AQUILINO RIBEIRO - Através do seu Ex-Líbris» (1955)
O HOMEM E O EX-LÍBRIS
«Portugal tem, desde Novembro de 1953, uma Academia de Ex-Líbris. A Academia tem a sua sede em Lisboa. Carlos Lobo de Oliveira, que doutamente preside à sua direcção, dizia-me uma tarde, que esta Academia não tinha senão vinte e cinco por cento de imortalidade. Trata-se duma modéstia respeitável que, entretanto, a matemática dos factos se permite contrariar. Poderá estabelecer-se uma percentagem para a mortalidade; para a imortalidade, não. Quando as instituições são imortais, quando os homens são imortais, são imortais cem por cento: o que pode acontecer (e, frequentemente, acontece) é que a sua imortalidade cem por cento não dura senão algum tempo. O filho dum ilustre e espirituoso membro da Academia Francesa perguntava, uma vez, ao pai, com a cândida ingenuidade dos seus nove anos: -- O que é ser imortal, papá? -- É ser da Academia... -- E o papá é imortal, não é? -- Sou, -- enquanto for vivo! Como quer que seja, esta Academia de Ex-Líbris, à qual desejo longa e profícua existência, merece o mais justificado respeito, não só pelas pessoas que a compõem, como pelos objectivos que a norteiam. Estas palavras -- devo acentuá-lo -- revestem-se de tanto maior imparcialidade quanto é certo que eu não sou ex-librista. No tempo em que escrevi as SaiasCurtas -- há tanto tempo que as saias, desde então para cá, já desceram trinta centímetros e eu já envelheci trinta anos -- pensei em arranjar um ex-líbris. Cheguei mesmo a idealizá-lo. Representaria uma bonita rapariga a ler e a fumar, recostada num maple, com a perna cruzada mostrando a liga, e, à volta, esta legenda significativa: Per omnia soecula soecolorum. Felizmente a ideia não se converteu em realidade, e digo felizmente porque graves coisas teriam acontecido se eu colocasse este ex-líbris, por exemplo, no Monge de Cister ou no Eurico, o Presbítero. Tão austeros varões pediriam a intervenção da polícia ou (o que era mais provável e mais sério ainda) acabariam por perder a cabeça pela rapariga que eu, insensatamente, lhes metera debaixo da capa.»
Luís de Oliveira Guimarães, «AQUILINO RIBEIRO - Através do seu Ex-Líbris» (1955)
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Imagens extraídas do Livro:
«AQUILINO EM PARIS» de Jorge Reis, Ensaio (1986). "Vega e Jorge Reis"
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Aquilino Ribeiro – Parte I – RTP Arquivos
Primeira partedo documentário sobre a vida e obra do escritorAquilino Ribeiro: "O homem político, democrata e amante da liberdade".Inclui imagens de arquivo e depoimentos diversos.
Segunda partedo documentário sobre a vida e obra do escritorAquilinoRibeiro:"Letras que dão voz ao povo. O amor pela terra, pelas suas gentes, pela vida".Inclui imagens de arquivo e depoimentos diversos.
«Aquilino possuía, como nenhum outro, a sabedoria da língua e dos segredos gramaticais e estilísticos: metáforas, sinédoques, parábolas, fábulas, analogias, um arsenal de conhecimentos que aplicava nos livros com alegre desenvoltura.»
Armando Baptista-Bastos
«Aquilino, no seu saber de amor feito, conhecedor profundo de aldeias e vilas, e suas gentes, campónios, fidalgos, brasileiros, padres, almocreves, da meseta lusitana, cantor do sol e da noite e dos próprios lobos companheiro. Romancista da inteligência e da coragem, da rebeldia mas também da astúcia, da paixão concentrada e também do desejo à solta, observador prodigioso, mestre da língua como nenhum outro escritor deste século.»
Urbano Tavares Rodrigues
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Entrevista transmitida no Rádio Clube Português, na rubrica "Perfil de um Artista", a 16 de Julho de 1957. Realização de Igrejas Caeiro.
(I) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 1/4) duraçao: 9:50 m.
(II) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 2/4)
(III) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 3/4)
(IV) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 4/4)
… «A meia grosa de livros que escrevi foram de facto para mim, em tanto que obra de criação e exalçamento, como igual número de vinhas que plantasse. Nesta faina exaustiva tive de desatender à vida de relações, não cultivar como devia a amizade, remeter os meus à vis própria quando poderia com um pouco de arte, salamaleque, e o "quantumsatis" da desvergonha cívica nacional, consagrada e triunfante, guindá-los a ministros ou banqueiros. Permiti ainda, levado na minha obsessão, que os gatunos oficiais e de mister me metessem as mãos nas algibeiras, os pirangas me ludibriassem, e toda a canzoada humana me ladrasse impunemente. Numa palavra, a vida utilitária, o arranjinho, a conveniência mundana nunca me roubaram um minuto de labor. Valeu a pena toda esta existência de sacrifício, de que ninguém se apercebeu, que ninguém me agradece, de que aliás ninguém me encomendou o sermão? Em minha consciência não sei responder.»...
Excerto da dedicatória do livro «Quando os Lobos Uivam» ao Dr. Francisco Pulido Valente, datada de Dezembro de 1958.
«A Sociedade Portuguesa de Escritores, sob a presidência de Ferreira de Castro, nomeia uma comissão encarregada de festejar o quinquagésimo aniversário da publicação do seu primeiro livro: Jardimdas Tormentas. Aquilino Ribeiro adoece inesperadamente no decorrer destas homenagens. Ao meio-dia e trinta do dia 27 de Maio, no Hospital da CUF, de Lisboa, morre aquele que é justamente considerado um dos maiores escritores de língua portuguesa de todos os tempos.»
Muito divago sobre a missão do escritor. Como tudo neste Mundo é, na minha opinião, desprovido de finalidade e talvez até de senso, não é fácil assinalar um fim ao escritor. Que realize o mundo de beleza que traz em si, e é já alguma coisa. Quanto ao mais, que seja o que lhe apetecer, desde que não arme em fariseu, e não esteja nunca contra os simples de braço dado com os trafulhas, nem contra os fracos de braço dado com os poderosos. Nada me fará sacrificar aos gostos nem aos caprichos do público. Desejaria que a minha obra passasse as fronteiras, mas não sou impaciente nem sôfrego. Isso acontecerá se eu o merecer. Não é o espírito por natureza irradiante?
«Muito divago sobre a missão do escritor. Como tudo neste Mundo é, na minha opinião, desprovido de finalidade e talvez até de senso, não é fácil assinalar um fim ao escritor. Que realize o mundo de beleza que traz em si, e é já alguma coisa. Quanto ao mais, que seja o que lhe apetecer, desde que não arme em fariseu, e não esteja nunca contra os simples de braço dado com os trafulhas, nem contra os fracos de braço dado com os poderosos. Nada me fará sacrificar aos gostos nem aos caprichos do público. Desejaria que a minha obra passasse as fronteiras, mas não sou impaciente nem sôfrego. Isso acontecerá se eu o merecer. Não é o espírito por natureza irradiante?»
Aquilino Ribeiro, «Solilóquio Autobiográfico Literário» em "Aquilino Ribeiro: a Obra e o Homem" de Manuel Mendes
Programa apresentado pelo escritor Luís de Sttau Monteiro dedicado a Aquilino Ribeiro, com entrevistas a Jerónima Machado Ribeiro e a Aquilino Ribeiro Machado, respetivamente viúva e filho do escritor, e também a alguns populares que o conheceram.
Nome do Programa: Aquilino Ribeiro
Nome da série: O Homem é um Mundo
Locais: Lisboa
Personalidades: Luís de Sttau Monteiro, Jerónima Machado Ribeiro, Aquilino Ribeiro Machado, Fernando Lopes-Graça
Temas: Artes e Cultura, Sociedade
Canal: RTP 1
Menções de responsabilidade: Autor: Luís Sttau Monteiro. Produtor: Leonel Brito.
Tipo de conteúdo: Programa
Cor:Cor
Som:Mono
Relação do aspeto:4:3 PAL
Resumo Analítico Retratos pictóricos e fotografias de Aquilino Ribeiro; Sttau Monteiro entrevista José Correia Cunha, empregado do café "A Brasileira", sobre o seu contacto com Aquilino; Jerónima Machado Ribeiro recorda o primeiro encontro e a convivência com o marido alternado com fotografias. Aquilino Ribeiro Machado refere aspetos de Aquilino Ribeiro enquanto pai e a influência que teve na sua vida política e Jerónima Machado Ribeiro refere alguns aspetos quotidianos destacando as visitas do marido à Livraria Bertrand; Sttau Monteiro entrevista Armando Martins da Costa e Adelino Pires, funcionários da Bertrand, sobre as idas do escritor à livraria. Sttau Monteiro entrevista Alda Cardoso,empregada do consultório médico dePulido Valente, sobre os encontros entre escritores e/ou intelectuais que se realizavam no consultório; jornalista Mário Neves refere aspetos da personalidade de Aquilino e as últimas recordações que detém do escritor; Sttau Monteiro entrevista Fernando Lopes Graça, maestro e compositor, sobre como conheceu Aquilino e recorda projeto de colaboração musical e literária entre ambos.
MÁRIO NEVES, a partir do minuto 23, lê a última "lição" de Aquilino Ribeiro, consubstanciada na seguinte frase:
Meus queridos camaradas, olhem sempre em frente, olhem para o sol, não tenham medo de errar sendo originais, iconoclastas, anti, o mais anti que puderem, e verdadeiros, fugindo aos velhos caminhos trilhados de pé posto e a todas as conjuras dos velhos do Restelo. Cultivem a inquietação como uma fonte de renovamento.