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Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

13
Set25

AQUILINO RIBEIRO nasceu há 140 Anos: 13 de Setembro de 1885.

Aquilino Ribeiro: (Sernancelhe, 1885 -- Lisboa, 1963).

Manuel Pinto

  AQUILINO    

«Quem folhear os livros de Aquilino, encontra em regra, no verso de uma das primeiras páginas, a marca do autor. Essa marca é representada por uma águia, de asas abertas, encimada pela palavra "Aquilino". Sabendo nós que águia e Aquilino pertencem à mesma família, não nos causará estranheza que o romancista da Via Sinuosa e das Terras do Demo haja escolhido uma águia para marca do seu sinete. Estranheza poderá causar o facto de o romancista se chamar Aquilino -- nome tão raro como os corvos brancos. Mas, melhor ou pior, tudo tem neste mundo a sua explicação e por consequência, o nome de Aquilino não podia deixar de ter a sua. O escritor nasceu em 13 de Setembro de 1885. Nessa época, e se digo nessa época porque o calendário sob este aspecto não é imutável, o dia 13 de Setembro era consagrado a Santo Aquilino. A mãe do escritor, senhora muito religiosa, quis que o filho tivesse o nome do Santo do dia em que ele nasceu, e assim foi. Esta circunstância não veio a ter -- porque ocultá-lo? -- grande influência, sob o ponto de vista litúrgico, na vida espiritual do escritor. Se não temesse ser indiscreto, eu contaria mesmo que uma dama gentilíssima mandou, um dia, a Aquilino Ribeiro um registo de Santo Aquilino acompanhado de algumas profundas palavras de catequese. Aquilino sorriu e limitou-se a comentar:
    -- Se existe já um Santo Aquilino, para que é preciso outro?»
(... ... ...)
«Não é, porém, aquela águia de asas abertas, que constitui propriamente o ex-líbris de Aquilino Ribeiro. Aquela águia  não é senão a marca do  sinete  com que Aquilino chancela os exemplares das suas obras: o seu ex-líbris  é diferenteRepresenta um cavaleiro a galope, seguido fielmente, por um cão, e tendo esta frase por legenda«Alcança quem não cansa». Desenhou-o Leal da Câmara!
A simples citação deste nome evoca em todos nós um grande artista de múltiplas aptidões; mas evoca em mim -- e em Aquilino também -- um amigo inolvidável. Leal da Câmara

Luís de Oliveira Guimarães, «AQUILINO RIBEIRO - Através do seu Ex-Líbris» (1955)

 

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 O HOMEM E O EX-LÍBRIS 

«Portugal tem, desde Novembro de 1953, uma Academia de Ex-Líbris. A Academia tem a sua sede em Lisboa. Carlos Lobo de Oliveira, que doutamente preside à sua direcção, dizia-me uma tarde, que esta Academia não tinha senão vinte e cinco por cento de imortalidade. Trata-se duma modéstia respeitável que, entretanto, a matemática dos factos se permite contrariar. Poderá estabelecer-se uma percentagem para a mortalidade; para a imortalidade, não. Quando as instituições são imortais,  quando os homens são imortais, são imortais cem por cento: o que pode acontecer (e, frequentemente, acontece) é que a sua imortalidade cem por cento não dura senão algum tempo. O filho dum ilustre e espirituoso membro da Academia Francesa perguntava, uma vez, ao pai, com a cândida ingenuidade dos seus nove anos:
    -- O que é ser imortal, papá?
    -- É ser da Academia...
    -- E o papá é imortal, não é?
    -- Sou, -- enquanto for vivo!
Como quer que seja, esta Academia de Ex-Líbris, à qual desejo longa e profícua existência, merece o mais justificado respeito, não só pelas pessoas que a compõem, como pelos objectivos que a norteiam. Estas palavras -- devo acentuá-lo -- revestem-se de tanto maior imparcialidade quanto é certo que eu não sou ex-librista. No tempo em que escrevi as Saias Curtas -- há tanto tempo que as saias, desde então para cá, já desceram trinta centímetros e eu já envelheci trinta anos -- pensei em arranjar um ex-líbris. Cheguei mesmo a idealizá-lo. Representaria uma bonita rapariga a ler e a fumar, recostada num maple, com a perna cruzada mostrando a liga, e, à volta, esta legenda significativa: Per omnia soecula soecolorum. Felizmente a ideia não se converteu em realidade, e digo felizmente porque graves coisas teriam acontecido se eu colocasse este ex-líbris, por exemplo, no Monge de Cister ou no Eurico, o Presbítero. Tão austeros varões pediriam a intervenção da polícia ou (o que era mais provável e mais sério ainda) acabariam por perder a cabeça pela rapariga que eu, insensatamente, lhes metera debaixo da capa.»

Luís de Oliveira Guimarães, «AQUILINO RIBEIRO - Através do seu Ex-Líbris» (1955)

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Imagens extraídas do Livro:

 «AQUILINO EM PARIS» de Jorge Reis, Ensaio (1986).  "Vega e Jorge Reis"

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Aquilino Ribeiro – Parte I – RTP Arquivos

Primeira parte do documentário sobre a vida e obra do escritor Aquilino Ribeiro: "O homem político, democrata e amante da liberdade". Inclui imagens de arquivo e depoimentos diversos.

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/aquilino-ribeiro-parte-i-3/

 

Aquilino Ribeiro – Parte II – RTP Arquivos

Segunda parte do documentário sobre a vida e obra do escritor Aquilino Ribeiro: "Letras que dão voz ao povo. O amor pela terra, pelas suas gentes, pela vida". Inclui imagens de arquivo e depoimentos diversos.

«Aquilino possuía, como nenhum outro, a sabedoria da língua e dos segredos gramaticais e estilísticos: metáforas, sinédoques, parábolas, fábulas, analogias, um arsenal de conhecimentos que aplicava nos livros com alegre desenvoltura.»

Armando Baptista-Bastos

 

«Aquilino, no seu saber de amor feito, conhecedor profundo de aldeias e vilas, e suas gentes, campónios, fidalgos, brasileiros, padres, almocreves, da meseta lusitana, cantor do sol e da noite e dos próprios lobos companheiro. Romancista da inteligência e da coragem, da rebeldia mas também da astúcia, da paixão concentrada e também do desejo à solta, observador prodigioso, mestre da língua como nenhum outro escritor deste século.»

Urbano Tavares Rodrigues

 

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Entrevista transmitida no Rádio Clube Português, na rubrica "Perfil de um Artista", a 16 de Julho de 1957. Realização de Igrejas Caeiro.
 
 
(I) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 1/4)   duraçao: 9:50 m.
 

 

(II) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 2/4)

 
(III) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 3/4)
 

 
(IV) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 4/4)
 

 

… «A meia grosa de livros que escrevi foram de facto para mim, em tanto que obra de criação e exalçamento, como igual número de vinhas que plantasse. Nesta faina exaustiva tive de desatender à vida de relações, não cultivar como devia a amizade, remeter os meus à vis própria quando poderia com um pouco de arte, salamaleque, e o "quantum satis" da desvergonha cívica nacional, consagrada e triunfante, guindá-los a ministros ou banqueiros. Permiti ainda, levado na minha obsessão, que os gatunos oficiais e de mister me metessem as mãos nas algibeiras, os pirangas me ludibriassem, e toda a canzoada humana me ladrasse impunemente. Numa palavra, a vida utilitária, o arranjinho, a conveniência mundana nunca me roubaram um minuto de labor. Valeu a pena toda esta existência de sacrifício, de que ninguém se apercebeu, que ninguém me agradece, de que aliás ninguém me encomendou o sermão? Em minha consciência não sei responder.»...

Excerto da dedicatória do livro «Quando os Lobos Uivam» ao Dr. Francisco Pulido Valente, datada de Dezembro de 1958.

 

19
Abr25

«AQUILINO RIBEIRO - Através do seu Ex-Líbris», (1955) por Luís de Oliveira Guimarães

Luís de Oliveira Guimarães, «AQUILINO RIBEIRO - Através do seu Ex-Líbris» (1955)

Manuel Pinto
 
 
Nascimento de Luís de Oliveira Guimarães

«A 19 de Abril de 1900, nasceu o magistrado, escritor, dramaturgo, jornalista e humorista português Luís de Oliveira Guimarães.»

                       (19 de abril de 1900, na Quinta do Castelo, na vila do Espinhal (Penela) - 5 de maio de 1998, Lisboa)
 

Amante da ruralidade portuguesa e frequentador assíduo dos bastidores intelectuais dos centros urbanos, privou com os vultos mais marcantes dessa época e soube traduzir, nas suas inúmeras crónicas, conferências e livros, quer a singeleza da cultura tradicional portuguesa, quer o fino espírito dos intelectuais do seu tempo.
Lembrar a sua figura frágil e a sua palavra entusiasmante, a vivacidade da sua personalidade pública e o seu afectuoso trato no espaço familiar é, por isso, um dever que cumprimos com grande júbilo.
Para a Família é uma oportunidade extremamente gratificante de dar a conhecer a pessoa através do seu espólio, podendo, deste modo, reviver o privilégio que foi privar com uma individualidade ímpar e contribuir para a preservação da sua memória.
                   Paula Oliveira Guimarães

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O HOMEM E O EX-LÍBRIS

«Portugal tem, desde Novembro de 1953, uma Academia de Ex-Líbris. A Academia tem a sua sede em Lisboa. Carlos Lobo de Oliveira, que doutamente preside à sua direcção, dizia-me uma tarde, que esta Academia não tinha senão vinte e cinco por cento de imortalidade. Trata-se duma modéstia respeitável que, entretanto, a matemática dos factos se permite contrariar. Poderá estabelecer-se uma percentagem para a mortalidade; para a imortalidade, não. Quando as instituições são imortais,  quando os homens são imortais, são imortais cem por cento: o que pode acontecer (e, frequentemente, acontece) é que a sua imortalidade cem por cento não dura senão algum tempo. O filho dum ilustre e espirituoso membro da Academia Francesa perguntava, uma vez, ao pai, com a cândida ingenuidade dos seus nove anos:
    -- O que é ser imortal, papá?
    -- É ser da Academia...
    -- E o papá é imortal, não é?
    -- Sou, -- enquanto for vivo!
Como quer que seja, esta Academia de Ex-Líbris, à qual desejo longa e profícua existência, merece o mais justificado respeito, não só pelas pessoas que a compõem, como pelos objectivos que a norteiam. Estas palavras -- devo acentuá-lo -- revestem-se de tanto maior imparcialidade quanto é certo que eu não sou ex-librista. No tempo em que escrevi as Saias Curtas -- há tanto tempo que as saias, desde então para cá, já desceram trinta centímetros e eu já envelheci trinta anos -- pensei em arranjar um ex-líbris. Cheguei mesmo a idealizá-lo. Representaria uma bonita rapariga a ler e a fumar, recostada num maple, com a perna cruzada mostrando a liga, e, à volta, esta legenda significativa: Per omnia soecula soecolorum. Felizmente a ideia não se converteu em realidade, e digo felizmente porque graves coisas teriam acontecido se eu colocasse este ex-líbris, por exemplo, no Monge de Cister ou no Eurico, o Presbítero. Tão austeros varões pediriam a intervenção da polícia ou (o que era mais provável e mais sério ainda) acabariam por perder a cabeça pela rapariga que eu, insensatamente, lhes metera debaixo da capa.»

 

 

AQUILINO   

«Quem folhear os livros de Aquilino, encontra em regra, no verso de uma das primeiras páginas, a marca do autor. Essa marca é representada por uma águia, de asas abertas, encimada pela palavra "Aquilino". Sabendo nós que águia e Aquilino pertencem à mesma família, não nos causará estranheza que o romancista da Via Sinuosa e das Terras do Demo haja escolhido uma águia para marca do seu sinete. Estranheza poderá causar o facto de o romancista se chamar Aquilino -- nome tão raro como os corvos brancos. Mas, melhor ou pior, tudo tem neste mundo a sua explicação e por consequência, o nome de Aquilino não podia deixar de ter a sua. O escritor nasceu em 13 de Setembro de 1885. Nessa época, e se digo nessa época porque o calendário sob este aspecto não é imutável, o dia 13 de Setembro era consagrado a Santo Aquilino. A mãe do escritor, senhora muito religiosa, quis que o filho tivesse o nome do Santo do dia em que ele nasceu, e assim foi. Esta circunstância não veio a ter -- porque ocultá-lo? -- grande influência, sob o ponto de vista litúrgico, na vida espiritual do escritor. Se não temesse ser indiscreto, eu contaria mesmo que uma dama gentilíssima mandou, um dia, a Aquilino Ribeiro um registo de Santo Aquilino acompanhado de algumas profundas palavras de catequese. Aquilino sorriu e limitou-se a comentar:
    -- Se existe já um Santo Aquilino, para que é preciso outro?»
(... ... ...)
«Não é, porém, aquela águia de asas abertas, que constitui propriamente o ex-líbris de Aquilino Ribeiro. Aquela águia não é senão a marca do sinete com que Aquilino chancela os exemplares das suas obras: o seu ex-líbris é diferente. Representa um cavaleiro a galope, seguido fielmente, por um cão, e tendo esta frase por legenda: «Alcança quem não cansa». Desenhou-o Leal da Câmara!
A simples citação deste nome evoca em todos nós um grande artista de múltiplas aptidões; mas evoca em mim -- e em Aquilino também -- um amigo inolvidável. Leal da Câmara!»

                                                                                       *

«Examinando o ex-líbris de Aquilino, facilmente se colherá a filosofia que dele transparece. Não se torna, com efeito, difícil adivinhar que aquele cavaleiro, aquele cão e aquela legenda significam, na sua expressão alegórica, que, neste mundo, quem se cansar depressa nunca ou quase nunca alcança. É a velha história do cavaleiro e do dorminhoco. Certo caminhante, indo de jornada, encontrou uma fonte, sentou-se junto dela e adormeceu profundamente. A dada altura, foi despertado pelo tropear dum cavalo e viu um cavaleiro, esbelto e fogoso, parar junto da fonte, apear-se, beber água, dar de beber ao animal e preparar-se, rapidamente, para retomar a sua marcha:
    -- Aonde ides com tanta pressa? -- perguntou-lhe o dorminhoco, bocejando.
E o cavaleiro respondeu, logo partindo a galope:
    -- Aonde tu nunca irás, se continuares aí, dormindo!
Sim! Na vida em regra, só os que não cansam, alcançam. Ao olhar o ex-líbris de Aquilino Ribeiro, ao observar aquele cavaleiro, e o  cão e a legenda que o acompanham, vejo eu (e, por certo, todos vêem) não uma mera fantasia gráfica, embora conceituosa, mas uma síntese simbólica da infatigável existência, física e espiritual, sempre fiel a si mesma, do próprio Aquilino. Já, há quarenta anos, no prefácio do "Jardim das Tormentas", Carlos Malheiro Dias descrevia Aquilino fustigando o corcel com a sua rédea de bronze e caminhando, veloz, de feltro ao vento, sem um desfalecimento, sem um abandono, na ânsia de chegar ao Ideal, porventura inatingível, que ele próprio criara. Há quem diga que o Ideal e a Ilusão se assemelham às folhas das árvores que vão caindo, uma a uma, quando a nossa vida se aproxima do Inverno. Sem dúvida, --  excepto para certos espíritos privilegiados. Para esses, existe sempre Primavera. Conta-se, alegoricamente, que, um dia, em plena invernia, um velho poeta, envolto numa capa, caminhava, sob a neve. Nisto, deparou-se-lhe uma rapariga. o poeta sorriu-lhe, perguntou-lhe se ainda ficava longe a cidade e, em seguida, pediu-lhe licença para lhe oferecer uma flor.
    -- Flores com este tempo? -- interrogou a pequena, rindo.
    -- Para os que sonham, mesmo sendo velhos, há sempre flores.
E, abrindo a capa, tirou de um molho de rosas, que levava, uma rosa, ofereceu-a à rapariga e continuou o seu caminho»

(... ... ...) 

«Uma tarde, encontrava-se Carlos Malheiro Dias trabalhando no seu gabinete de director da Ilustração Portuguesa quando lhe anunciaram a visita de Aquilino Ribeiro, que ele não conhecia pessoalmente ainda. Mandou-o imediatamente entrar, e preparou-se para receber, senão um revolucionário tremendo, de façanhuda lavallière preta, capaz de incendiar o mundo com a ponta dum cigarro, pelo menos um boémio insubmisso envolto numa ampla capa aventureira. Qual não foi, porém, a sua desvanecedora surpresa ao deparar-se-lhe um rapaz risonho, correctíssimo, olhos castanhos, duma grande doçura idealista, vestindo um fato claro e ostentando o mais pacífico e o mais comunicativo dos sorrisos. Conversaram largamente. Acerca de política? Um pouco. Mas, sobretudo, acerca de literatura. Meia hora depois de Aquilino ter saído, entrou Rocha Martins.
    -- Sabe quem aqui esteve há pouco? -- perguntou-lhe Malheiro Dias.
    -- Não.
    -- O Aquilino Ribeiro.
    -- E que lhe pareceu o rapaz?
    -- Pareceu-me que tem boa pinta e, se fizer uma revolução, há-de ser nas letras!»

*

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31
Jan25

EFEMÉRIDES: Anos de 1906, 1907, 1908. Vídeos RTP

Bibliografia: Manuel Mendes: «Aquilino Ribeiro-a obra e o homem»; Jorge Reis: «Páginas do Exílio»1º

Manuel Pinto

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(ii) Jorge Reis, “AQUILINO, Páginas do Exílio (1908 a 1914), Cartas e Crónicas de Paris”, 1º volume. Vega (1987)

 

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(i) Manuel Mendes, “Aquilino Ribeiro: a obra e o homem” (2ª edição), Editora Arcádia (1987)

 

Ano 1906   (i)

Vem residir para Lisboa. Primeiramente para a Rua do Crucifixo, depois Rua das Pedras Negras e mais tarde Rua do Carrião. E em que se ocupava? «Moina, jornalismo, o ambiente republicano revolucionário», que o escritor pinta nas Lápides Partidas.

Escreve na Vanguarda de Sebastião de Magalhães Lima, onde publica os seus primeiros artigos. Traduz Il Santo de Fogazzaro, publicado pelo editor José Barros, e em seguida começa a redigir o romance em fascículos, A Filha do Jardineiro, cujo primeiro capítulo é da sua autoria, o segundo da autoria de José Ferreira da Silva, que mais tarde seria ministro das Obras Públicas da República, romance este que ficou no terceiro capítulo, da lavra de Aquilino.

(i) Manuel Mendes, “Aquilino Ribeiro: a obra e o homem” (2ª edição), Editora Arcádia (1987)

Ano 1906  (ii)

  • Chega a Lisboa e a fim de ganhar a vida, submete uns escritos à Vanguarda, de Magalhães Lima, ao mesmo tempo que traduz Il Santo, de Fogazzaro e dá início a um romance, A Filha do Jardineiro.

(ii) Jorge Reis, “AQUILINO, Páginas do Exílio (1908 a 1914), Cartas e Crónicas de Paris”, 1º volume. Vega (1987)

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Ano 1907    (i)
É um ano agitado na vida portuguesa, pelo tumultuar da paixão política. O Partido Republicano toma a ofensiva contra as velhas e anquilosadas instituições. Comícios, polémicas nos jornais, duelos, encerramento manu militari do Parlamento, greve académica em Coimbra, lei celerada, uma explosão na Estrela, outra na Rua do Carrião. Esta ocorreu no quarto de Aquilino. Na véspera fora abordado em pleno Rossio por Luz de Almeida:
  -- Temos de retirar do consultório do Dr. Gonçalves Lopes a metralha que lá tem. A polícia anda desconfiada com ele. Não podia recebê-la no seu quarto?
  -- A dona da casa é uma grande bisbilhoteira. Nada lhe escapa…
  -- Por dois ou três dias…?
  -- É muita coisa?
  -- Dois caixotitos…
Foram ainda nesse mesmo dia às costas de dois galegos, e tiveram de voltar pelo mesmo caminho porque nem eu estava em casa nem a criada fora prevenida para os receber. Limitara-se a despachá-los:
  -- Para aqui não é nada. Vêm enganados.
Voltaram no dia seguinte, domingo, pela manhã. Não eram dois caixotitos, eram dois caixotões.
«Depois do meio-dia -- conta Aquilino – apareceram o Dr. Goncalves Lopes, professor do Liceu do Carmo, e Belmonte de Lemos, com loja de algibebe, creio, na Rua dos Fanqueiros. Brusquant a minha expectativa, abriram os caixotes, tiraram os explosivos para cima da minha pequena mesa de trabalho, e puseram-se a manipulá-los. A certa altura deu-se a terrível explosão que vitimou os dois, ocupados na operação. Não fui atingido e compreende-se, encontrava-me às espaldas, a ver por cima dos ombros deles como faziam.»
Dado o alarme, é preso e levado para a Esquadra do Caminho Novo, de cujo cárcere, uma casa-mata, se evade na noite de 12 de Janeiro. Este acontecimento teve retumbância política. Viveu escondido em Lisboa, durante algum tempo.
(i) Manuel Mendes, “Aquilino Ribeiro: a obra e o homem” (2ª edição), Editora Arcádia (1987)

 

Ano 1907  (ii)

  • Entra para um canteiro da Carbonária e é admitido no corpo redactorial da Vanguarda. Colabora igualmente na Voz Pública, do Porto, e em A BEIRA, de Viseu.
  • Tendo aceitado esconder um caixote de bombas no seu quarto de hóspede, na Rua do Carrião, no dia 17 de Novembro, foi preso por bombista devido à explosão dos engenhos infernais, que custou a vida ao Dr. Gonçalves Lopes.

(ii) Jorge Reis, “AQUILINO, Páginas do Exílio (1908 a 1914), Cartas e Crónicas de Paris”, 1º volume. Vega (1987)

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Ano 1908   (i)

Em Maio, segue clandestinamente para Paris, tendo ido tomar o Sud ao Entroncamento. Nesta cidade reside seis anos, convivendo com artistas e escritores, naquela atmosfera que descreve no livro sobre Leal da Câmara, seu companheiro e compadre.

(i) Manuel Mendes, “Aquilino Ribeiro: a obra e o homem” (2ª edição), Editora Arcádia (1987)

Ano 1908  (ii)

  • Consegue evadir-se do calabouço do Caminho Novo, na madrugada de 12 de Janeiro, e escondido «nas águas-furtadas dum prédio pombalino a 150 metros da Parreirinha pelas escadinhas de S. Francisco», trava conhecimento com Anatole France e publica, na Ilustração Portuguesa de 27 de Abril, uma crónica intitulada «As Feiras».
  • A 31 de Maio, toma em Lisboa o comboio ronceiro para o Entroncamento a fim de, no dia seguinte, «com valise e monóculo a armar ao janota», subir para o Sud-Express e seguir para Paris. Chega à Cidade-Luz a 3 de Junho e é acolhido pelo pintor Manuel Jardim, na Rue Pierre Nicole, no «coruto de Montparnasse», a dois passos da Clôserie des Lilas e do Bul Bulier.

(ii) Jorge Reis, “AQUILINO, Páginas do Exílio (1908 a 1914), Cartas e Crónicas de Paris”, 1º volume. Vega (1987)

 

Outras Efemérides :

Ano 1906  (ii)

  • João Franco é nomeado chefe de governo.
  • Brito Camacho funda o jornal A LUTA.

Ano 1907  (ii)

  • Golpe de Estado de João Franco: a ditadura.
  • Criação em Coimbra de um Centro Académico de Democracia Cristã (CADC) destinado a combater em nome da monarquia e da Igreja as ideias republicanas.
  • Grande actividade dos meios libertários. Explosões em Lisboa.

Ano 1908  (ii)

  • O regicídio.
  • 1º Congresso Nacional do Livre Pensamento.
  • Fundação do Diário sindicalista A Greve e do semanário anarquista O Protesto.

(ii) Jorge Reis, “AQUILINO, Páginas do Exílio (1908 a 1914), Cartas e Crónicas de Paris”, 1º volume. Vega (1987)

 

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Ep. 1
https://www.rtp.pt/play/p250/e301131/o-dia-do-regicidio

Ep. 2
https://www.rtp.pt/play/p250/e301121/o-dia-do-regicidio

Ep. 3
https://www.rtp.pt/play/p250/e301158/o-dia-do-regicidio

Ep. 4
https://www.rtp.pt/play/p250/e301279/o-dia-do-regicidio

Ep. 5
https://www.rtp.pt/play/p250/e301646/o-dia-do-regicidio

Ep. 6
https://www.rtp.pt/play/p250/e301767/o-dia-do-regicidio

 

 

13
Set24

AQUILINO RIBEIRO nasceu há 139 anos: 13-09-1885.

Aquilino Ribeiro: (Sernancelhe, 1885 -- Lisboa, 1963).

Manuel Pinto

Imagens extraídas do Livro:

 AQUILINO EM PARIS de Jorge Reis, Ensaio (1986).  "Vega e Jorge Reis"

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Aquilino Ribeiro – Parte I – RTP Arquivos

Primeira parte do documentário sobre a vida e obra do escritor Aquilino Ribeiro: "O homem político, democrata e amante da liberdade". Inclui imagens de arquivo e depoimentos diversos.

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/aquilino-ribeiro-parte-i-3/

 

Aquilino Ribeiro – Parte II – RTP Arquivos

Segunda parte do documentário sobre a vida e obra do escritor Aquilino Ribeiro: "Letras que dão voz ao povo. O amor pela terra, pelas suas gentes, pela vida". Inclui imagens de arquivo e depoimentos diversos.

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«Aquilino possuía, como nenhum outro, a sabedoria da língua e dos segredos gramaticais e estilísticos: metáforas, sinédoques, parábolas, fábulas, analogias, um arsenal de conhecimentos que aplicava nos livros com alegre desenvoltura.»

Armando Baptista-Bastos

 

«Aquilino, no seu saber de amor feito, conhecedor profundo de aldeias e vilas, e suas gentes, campónios, fidalgos, brasileiros, padres, almocreves, da meseta lusitana, cantor do sol e da noite e dos próprios lobos companheiro. Romancista da inteligência e da coragem, da rebeldia mas também da astúcia, da paixão concentrada e também do desejo à solta, observador prodigioso, mestre da língua como nenhum outro escritor deste século.»

Urbano Tavares Rodrigues

 

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Aquilino por Abel Manta (1936) col particular.jpgRetrato de Aquilino Ribeiro (1936) por Abel Manta.

Por ABEL MANTA 1A.jpgRetrato de Aquilino Ribeiro por Abel Manta

 
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Entrevista transmitida no Rádio Clube Português, na rubrica "Perfil de um Artista", a 16 de Julho de 1957. Realização de Igrejas Caeiro.
 
(I) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 1/4)   duraçao: 9:50 m.

(II) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 2/4)

(III) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 3/4)

(IV) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 4/4)

… «A meia grosa de livros que escrevi foram de facto para mim, em tanto que obra de criação e exalçamento, como igual número de vinhas que plantasse. Nesta faina exaustiva tive de desatender à vida de relações, não cultivar como devia a amizade, remeter os meus à vis própria quando poderia com um pouco de arte, salamaleque, e o "quantum satis" da desvergonha cívica nacional, consagrada e triunfante, guindá-los a ministros ou banqueiros. Permiti ainda, levado na minha obsessão, que os gatunos oficiais e de mister me metessem as mãos nas algibeiras, os pirangas me ludibriassem, e toda a canzoada humana me ladrasse impunemente. Numa palavra, a vida utilitária, o arranjinho, a conveniência mundana nunca me roubaram um minuto de labor. Valeu a pena toda esta existência de sacrifício, de que ninguém se apercebeu, que ninguém me agradece, de que aliás ninguém me encomendou o sermão? Em minha consciência não sei responder.»...

Excerto da dedicatória do livro «Quando os Lobos Uivam» ao Dr. Francisco Pulido Valente, datada de Dezembro de 1958.

 

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