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Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

30
Nov25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'A PERSISTENTE IMPUGNAÇÃO' [ 14 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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(Continuação)

«Naquele galão de pouco mais de dois anos, passou Camilo o período crucial da sua vida. Estava quase cego. Morria-lhe a nora, aquela menina de 17 anos, ingénua e simples, em cujo rapto cooperara e que devia trazer consigo à volta de 300 contos. Nuno cedo desbarataria esta fortuna, decerto ajudado pelo pai, que não era homem para ter o escrúpulo de reparar para estas frioleiras da moral comum, mormente que se tratava do que era do filho e que ajudara até certo ponto a angariar.»
 

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«... A noite mental de Jorge cerrava-se cada vez mais. Em torno dele, quando mais carecia de carinho, de reconforto, a matilha dos críticos, açulada pelos mestres naturalistas, soltava um babaréu [1] crescente de impropérios e necedades.»
«Negava-se, com rotundíssimo desaforo, chapado de estupidez, a obra de meio século do grande escritor. A alma de Camilo era um oceano de vagas de ódio, de ressentimento, de dor e náusea. Era possível exigir equanimidade de semelhante báratro?»
 

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«Para reforço do que temos alegado em matéria da admiração, digamos, subjectiva de Camilo por Eça, existem ainda as pequenas notas ao livro de Sampaio Bruno, A Geração Nova, lavradas de seu punho.»
«Na altura do estudo em que o ensaísta versa o tema do naturalismo português, Camilo observa:
   «Eça nasceu filho ilegítimo. Foi dado clandestinamente a uma ama em V. do Conde. Aí esteve aos 6 ou 7 anos, sem conhecer os pais que o chamaram a si depois de casarem tendo outros filhos. Eça foi sempre o menos querido dos seis irmãos, e também o menos amorável com os pais.»
«Segundo Sampaio foi durante a estada em Leiria que Eça conheceu «a falsidade das literaturas, mentirosas pela convenção». A redacção incorrecta presta-se a que Camilo arranque dos seus sarcasmos: «Sim, foi Leiria que lhe mostrou a falsidade das literaturas. Ó grande Leiria, bebo à tua! Deste-nos o romance naturalista». 
 

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«A este ciclo de fogo alternante, ora de salva, jocoso e trocista, ora espaçado, mas violento, com as suas pausas de lassitude e rendição ao mérito do adversário, pertence a poesia inserta nas Repúblicas, cuja direcção literária Tomás Ribeiro endossara a Camilo. O atleta da Cavalaria de Sebenta não era poeta na verdadeira acepção do termoPoesia implica em quem tem esse dom a preexistência duma velatura psíquica através da qual os olhos vêem o mundo diferente do que ele é. Para melhor, por via de regra, mas infalivelmente singular. «Camilo encontrava sempre a lia verdadeira quando enterrava a sonda em seus penetrais ou se librava [2] nos ares como a águia.»

 

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babaréu [1]
“babaréu”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/babaréu 

librava [2] 
“librar”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/librar

 

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«Todavia, as vezes que o versejador passava a lira ao sarcasta, nem sempre era destituído de veia, uma veia amargosa, à Juvenal. A composição que se segue, sem ousar a obra de relevo, denota certo sainete e dicacidade:

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«Poesia implica em quem tem esse dom a preexistência duma velatura psíquica através da qual os olhos vêem o mundo diferente do que ele é. Para melhor, por via de regra, mas infalivelmente singular.»

 

31
Ago25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'ROMÂNTICOS E REALISTAS' [ 4 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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(continuação)
 
«Em 1870 publicou Eça de braço dado com Ramalho o Mistério da Estrada de Cintra, romance literariamente banal que não encerra nada que possa acreditá-lo como ponto de partida duma renovação literária. Em França, onde está necessariamente a nossa tábua de referências, esse livro passaria baralhado com a variada produção capa-espada de Ponson du Terrail e companhia. A essa data tinha Camilo já dado a lume Coração, cabeça e estômago, de que, diga-se a título de curiosidade pura, está traduzida para francês a terceira parte sob o título de Mariage de Silvestre. Este trabalho originalíssimo, sim, poderia considerar-se como marco miliário no caminho do naturalismo e padrão duma nova era. Sob o ponto de vista de observação e de linguagem vale incomparavelmente mais que o Mistério da Estrada de Cintra que beneficiou do espavento que lhe proporcionou a Gazeta com publicá-lo em folhetins e, corolariamente, do consenso público, terreno movediço em que não pode estear-se um critério de qualidade.
Pois não obstante o seu medíocre estofo, ausência de novidade impressiva, Camilo diria dele, é verdade que em carta datada de 1886 dirigida a António Maria Pereira, editor dum e doutro: Já lhe agradeci e li o Mistério da Estrada de Cintra. Achei-o admirável pelas brilhantes audácias de linguagem. Foi esse livro que iniciou a reforma das milícias literárias indígenas, a tropa fandanga de que eu fui cabo de esquadra...»
 

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«Em 1871 a bela e já celebrada comandita Eça e Ramalho lança o panfleto mensal das Farpas. O número de Maio abre com o balanço da vida portuguesa, da autoria do primeiro, e prossegue no domínio da intelectualidade: Olhemos agora a literatura. A literatura -- a poesia e romance -- sem ideia, sem originalidade, convencional, hipócrita, falsíssima, não exprime nada: nem a tendência colectiva da sociedade nem o temperamento individual do escritor. Tudo em torno dela se transformou, só ela ficou imóvel. De modo que, pasmada e alheada, nem ela compreende o seu tempo, nem ninguém a compreende a ela.»
 

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«De resto quando um sujeito consegue ter assim escrito três romances, a consciência pública reconhece que ele tem servido a causa do progresso e dá-se-lhe a pasta da Fazenda.»
 

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«Os virotes não eram lançados particularmente contra Camilo que não compusera apenas três novelas e não só não era ministro de Estado como lhe fora negado um mísero emprego na Alfândega. Mas, despedidos para o monte, apanhava por tabela! De resto a crítica errava a pontaria, atirando aos pés para a pobre e ingénua literatura portuguesa tão medrosa no patológico como respeitadora da moral.
Aceitamos de boa mente que Camilo tenha resvalado algumas vezes aos dislates abrangidos pelo anátema com que Eça fulminou a republiqueta literária. Mas essas quebras resgatou-as de sobejo na sua obra pluriforme, onde a observação justa do real supera aos arremedos do artifício, o verdadeiro drama humano ao especioso, a fala colhida no tráfego da vida corrente com seu carácter, seus módulos, seus filamentos tácteis de ser animado, ao verbo empalhado, incolor ou fictício, sobretudo, oh, sobretudo à ingresia formada, metade por pedanteria, metade por ignorância, com vozes estrangeiras.
O trecho não alvejava Camilo, mas na omissão, que mais não fosse, do seu nome, residia uma crítica afrontosa pelo que tinha de injustamente negativo. Essa omissão ia-se adensando de ano para ano, enovelada em grosso e feio pecado.»
 

(continua)

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