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Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

11
Fev26

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'A CARTA PÓSTUMA DE REPRESÁLIA' [23_(2/4)]. Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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(Continuação)

«Porque eu, falando de V. Ex.ª considero sempre a sua imaginação, a sua maneira de ver o mundo, o seu sentimento vivo ou confuso da realidade, o seu gosto, a sua arte de composição, a fraqueza ou a força do seu traço; e, pelo menos, admiro sem reserva em V. Ex.ª o ardente satírico, neto de Quevedo, que põe ao serviço da sua apaixonada misantropia o mais quente e o mais rico sarcasmo peninsular. E os seus amigos, esses, admiram apenas em V. Ex.ª secamente e pecamente o homem que em Portugal conhece mais termos do Dicionário!»

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«Sempre, «a todo o talho de fouce», em artigo, em local, em anúncio de partida, em felicitação de dia de anos, V. Ex.ª é pelos seus discípulos e amigos louvaminhado e turibulado -- como o grande homem do Vocábulo, esteio forte da Prosódia, restaurador da Ordem gramatical, supremo arquitecto das frases arcaicas, acima de tudo castiço e imaculadamente purista! E ainda mais na intimidade, os amigos de V. Ex.ª o celebram como o homem que melhor sabe descompor o seu semelhante! E isto tão obstinadamente murmurado ou clamado, que esta geração mais nova, para quem já vou sendo um velho e V. Ex,ª quáse um fantasma, não tendo como eu e os do meu tempo rido e chorado sobre os seus livros de paixão e de ironia, o imaginam a V. Ex.ª um intolerável caturra, de capote de frade, debruçado sobre um sebento Léxicon, a respigar termos obsoletos para com eles apedrejar todos os seus conterrâneos!»

 «A V. Ex.ª, crítico sagaz de si mesmo, melhor compete avaliar o que, neste vale de prosa e lágrimas, tem feito para merecer que os seus amigos, como os amigos de César no dia das Lupercais, teimem em lhes enterrar até aos ombros esta dupla e pesada coroa da  vernaculidade e da descompistura

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«A mim só me compete lamentar que a estas mofinas proporções tenha sido reduzido, pelo zelo crítico dos seus amigos, a larga individualidade que nos deu o Amor de Perdição. Mas ao mesmo tempo adquiro o direito de rogar a V. Ex.ª que, quando se queixar aos ventos e ao Chiado das pessoas que implicam consigo, como V. Ex.ª diz, ou que desdouram a sua glória, como eu traduzo, não se volte para mim e para os meus amigos -- mas olhe em torno de si para os seus admiradores, e para dentro de si mesmo, talvez.»

«A guerra de realistas e idealistas, causa primordial destas explicações, tornou-se já quáse tão desinteressante e sediça, meu prezado confrade, como a guerra dos clássicos e românticos, a das Duas Rosas, ou essoutra que, para vantagem única dos livreiros que editam Homero, dois povos semi-bárbaros tiveram a paciência de arrastar dez anos em torno duma vila da Ásia Menor, murada de adobe e tijolo. Renovar tão antiquada guerra nas gazetas é já um acto imperdoavelmente provinciano: mas mais provinciano ainda é estarmos nós aqui, com grãos de incenso nas mãos e pedras nas algibeiras, fazendo, através do grande mar, mútuas e lentas mesuras. V. Ex.ª de lá, de entre os seus sinceros arvoredos minhotos, ajanota as suas frases pelos figurinos de Filinto Elíseo, para me dizer gaguejando e com agri-doce generosidade: «O meu caro amigo tem muito talento, com excepção de escrever muita tolice.» E eu de cá, mais pérfido, porque habito as cidades, grito sem gaguejar e com polida efusão: «E o meu caro amigo tem ainda muito mais, sem excepção absolutamente nenhuma.»

 

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«É infantil. Antes desperdiçássemos o nosso tempo, preguiçando patriarcalmente, neste doce calor de Junho, sob a figueira e a vinha... Mas quê! V. Ex.ª que estava brincando funebremente, a fazer no soalho, com tochas de fósforos, uma procissãozinha de moribundos, ergue-se de repente, corre para o público, mesmo sem tirar o babeiro, e acusa-me, entre lágrimas de furor, de estar sempre a implicar consigo! Que havia eu de fazer, eu inocente e justo? Corro também para o público, mesmo de jaquetão de trabalho, e brado profusamente com as mãos sobre o peito: «Nunca! É falso! Jamais impliquei com ele, e não lhe quero senão bem!»

 

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«A culpa de toda esta inútil prosa é portanto toda sua; e para que ela se não prolongue mais, apresso-me, prezado confrade, a dizer-me de V. Ex.ª sincero e antigo admirador.
«Eça de Queiroz.»

«Esta carta foi escrita em seguida à leitura do Óbolo às crianças, no mês de Junho, como declara no texto -- neste doce calor de Junho -- e segundo a data de outra, dirigida a Luís de Magalhães, em que repisa por sinal uma das imagens:
«Não sei se V. leu nas Novidades uma prosa de Camilo, com frases muito janotas e arrebicadas todas pelo figurino de Filinto Elíseo, em que ele se queixava ferozmente de mim. Eu respondi-lhe numa epístola, destinada às Novidades, que (para ser modesto) não deixava de ter alguma pilhéria. Mas era muito longa, toda a lápis, tinha de ser copiada... e não tive paciência de a pôr em tinta limpa: de modo que guardei um discreto silêncio. Bristol 14 de Junho de 1887.»

(continua)

04
Fev26

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'A CARTA PÓSTUMA DE REPRESÁLIA' [22_(1/4)] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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Nos escritos inéditos de Eça de Queirós, os primeiros publicados após a sua morte, aparece uma carta a Camilo Castelo Branco, que tem muito que se lhe diga. Reza assim:

 
«Exmo. Sr.  Um tardio correio troxe-me ontem um número, já quáse velho, das Novidades, com um artigo, Nota à Procissão dos Moribundos, em que V. Ex.ª, resmungando e rabujando, se queixa ao público de que eu e os meus amigos " implicavam consigo, sempre que isso vem a talho de foice, e lhe assacamos aleivosias". Como exemplo deste indecoroso hábito, cita V. Ex.ª um período da minha carta a Bernardo Pindela nos Azulejos, em que eu alegremente me rio dos discípulos do Romantismo que, depois de clamarem contra certos escritores como realistas e chafurdadores do lodo, apenas imaginam que o público só esse lodo apetece para seu consumo intelectual, se apressam a escrever na capa dos seus livros: romance realista, para que o público, aliciado pelo rótulo, os compre também a eles, e os leia também a eles... E V. Ex.ª, meu caro confrade, acrescenta logo com a mais consciente certeza: "Ora isto é comigo!"»

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«Suponha que um dia, numa novela, V. Ex.ª descreve, com o seu vernáculo e torneado relevo, certo animal de longas orelhas felpudas, de rabo tosco, de anca surrada pela albarda, que orneia e que abunda em Cacilhas... E suponha ainda que, ao ler essa colorida página, eu exclamo, apalpando-me ansiosamente por todo o corpo: «Grandes orelhas, rabo tosco, anca pelada... É comigo!» Que diria V. Ex.ª, meu prezado confrade?

V. Ex.ª balbuciaria aturdido: «Eu não sei, eu vivo longe... Se as suas orelhas são assim longas, e se o albardão o despelou, há realmente concordância... Mas na verdade creia que, mencionando esse animal venerável, não me raiou no ânimo a mais ténue, remota intenção...» Assim, embaraçado e surpreso, diria V. Ex.ª. E assim eu digo. V. Ex.ª deve conhecer melhor que eu, que sou distraído e vivo longe, as capas dos seus livros: se V. Ex.ª para atrair a multidão nelas colou, ou consentiu que os seus editores colassem, esse rótulo: 'romance realista' -- por não poderem legalmente adorná-las com esse outro mais cativante: 'romance obsceno'-- então de certo aquilo é consigo. Mas a intransigente verdade me força a confessar que, escrevendo esse período da carta a Bernardo Pindela, eu não pensava no autor da Corja. Se eu quisesse acusar dessa abjecta concessão às exigências da venda um homem que há trinta anos é ilustre na literatura portuguesa -- teria escrito o nome todo de V. Ex.ª sem omitir um só título. Há personalidades a quem, por isso mesmo que são fortes, se não alude timoratamente e de longe. Já deste modo se pensava na Corte de El-rei Artur: "Se queres falar de Percival, dize bem alto: Percival, e tira a espada." Assim gritava esse cavaleiro, flor dos bons, na velha cidade de Camerlon, uma tarde em que havia algazarra e ciúmes junto à Tavola Redonda. Não se trata de certo aqui de compridas espadas a desembainhar. Mas não deixa de ficar bem a um débil homem de letras, como eu, o seguir essa lição de lealdade e valor dada pelo possante homem de armas Percival.»

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«Assim o exemplo aduzido por V. Ex.ª para demonstrar o meu escandaloso hábito de -- implicar consigo-- é realmente mal escolhido. Mas permanece, todavia, a queixa, feita ao público, com tanta rabujice e com tanto azedume, de que -- eu e os meus amigos, sempre que isso vem a talho de foice, lhe assacamos aleivosias.»

« Aleivosias é um termo formidável e sombrio que, se me não engana o vetusto e único Dicionário que me ampara nesta dura labutacão do estilo significa -- «maldade cometida traiçoeiramente com mostras de amizade, insídia, perfídia, maquinação contra a vida e reputação de alguém, etc.» Tudo isto é pavoroso. Mas eu suponho que, sob essas vagas palavras de implicação e aleivosia, V. Ex.ª quer muito simplesmente queixar-se de que eu e os meus amigos o não consideramos um escritor tão ilustre, com um tão alto lugar nas letras portuguesas como o costumam considerar os amigos de V. Ex.ª. Ora aqui V. Ex.ª se ilude singularmente.»

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«Eu nunca tive, é certo, a oportunidade deleitável de apreciar, nem em copioso artigo, nem sequer em curta linha, a obra de  V. Ex.ª. Mas sou meridional, portanto loquaz. Por vezes, entre amigos e fumando a 'cigarette', tem vindo «a talho de fouce» conversar sobre a personalidade literária de V. Ex.ª. E, louvado seja Apolo aurinitente, sempre me exprimi sobre o autor do ' Esqueleto' dum modo que é irrecusavelmente mais digno dele e da sua obra do que esse outro estranho modo por que o costumam decantar aqueles que se ufanam já na palestra, já na imprensa, de serem seus amigos e discípulos.»

(continua)

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