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Set25
«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'DO «CRIME DO PADRE AMARO» ÀS «NOVELAS DO MINHO»' [ 7 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.
Manuel Pinto



(continuação)

Do primeiro folhetim de Eça na Gazeta de Portugal, Sinfonia de abertura, à primeira edição do Crime do Padre Amaro medeiam cerca de dez anos. O mundo deu muita volta. Catervas de escritores e poetas se atropelaram e se desvaneceram na porfia de cada qual subir mais alto a escada de Jacob que leva à glória. É sabido que em Portugal o mais empolgante da competição literária se travou entre Camilo e Eça. Ramalho Ortigão está em meio como Agamémnon na guerra de Troia. Os papéis de protagonista reveem a Camilo e Eça, este vinte anos mais novo do que aquele, viajado pela estranja, munido dum diploma de bacharel, o que lhe confere na vida das relações uma mobilidade que não tinha o outro, aparentado depois do seu casamento com famílias influentes no meio social, dispondo de recursos materiais que Camilo tinha de cavar como um moiro dia a dia. Mas que armas damasquinadas não possuía o velho mandingueiro de S. Miguel de Seide, receitas ervadas, venenos subtis e irosa facúndia! Muito raramente os adversários desceram ao proscénio. Tampouco se ouvia o tinido dos seus passes de armas. Camilo aparecia ainda de quando em quando a fulgurar o seu florete percuciente. A correspondência vinda a lume com um e outros, depois do seu falecimento, entremostra-o apaixonado e ruminando uma cólera divina. Eça não deu cavaco. Que o fizesse sistematicamente ou em obediência à sua índole de delicado, o silêncio foi uma das suas armas. Mas este silêncio diferido até o formidável argamassador do idioma e criador de tipos, que foi Camilo, constituiu, já o dissemos, a sua maior iniquidade literária. Todavia o entrechoque teria conduzido a outras avenidas, com proveito talvez para as letras pátrias, sem o alvoroço que se suscitou nos arraiais respectivos.
À volta de 1871 escrevia Camilo a um senhor Ferreira de Melo que graciosamente lhe carregava dados para o romance vindo a lume tempos depois, o Demónio do Ouro:
Como V.Exª. sabe, no dizer de Ponsard 'le vrai n'est pas toujour le beau. Acontece frequentemente que os acontecimentos verdadeiros, vazados na forma de novela, são desgraciosos, áridos e até impertinentes. Parece que o máximo de leitores desadora que lhe dêem a natureza tal qual ela é moralmente falando. E, além disso, sabe V.Exª que há coisas verdadeiras, mas por tal modo triviais que chegam a enfastiar quem mais se contenta do maravilhoso. Eu não costumo obtemperar com os paladares depravados pelas iguarias à francesa. Todo o meu intento, embora mal desempenhado, tem sido posto na descrição dos usos e costumes da nossa terra, antepondo à nota de recreativo a satisfação de verdadeiro, dando a todas as minhas novelas um colorido de verosimilhança.
Estas palavras pressupoem já uma atitude de contemporização para com a nova escola. Poderia mesmo chamar-se-lhes um programa de realismo moderado. Dali em diante, em verdade, desaparecem da galeria camiliana as velhas rábulas do romantismo com os exasperos de paixão, satanismo e revolta, os Simões Peixoto, Simões Botelho, Guilhermes do Amaral, Angélicas Florinda, Marianas, etc. etc. Os casos sociais que versa perdem a solenidade bironiana e o brilho zodiacal dos diamantes pretos. No Carrasco de Vítor Hugo José Alves, metamorfose da Infanta Capelista, as personagens adaptam-se às dimensões comuns, inclusive a luveira, em despeito da sua prosápia.


Na trilogia, o Regicida, a Filha do Regicida, e a Caveira da Mártir, impera o mesmo sentido das proporções e um respeito muito humano pela verdade, ainda quando fluindo contra o supedâneo do trono.

«É ocioso falar na Brasileira de Prazins em que se acentua de modo nítido o molde realista.
Indubitavelmente Camilo tinha cortado de vez com os narizes de cera da antiga literatura, idólatras do eu e monstros de ideais impossíveis, martirizados uns pelo sentimento da sua impotência, esmagados outros pela absurdez das suas ilusões, munidos tantos deles de asas de anjo ou demónio, e contaminados todos pelo imaginário mal do século.
As Novelas do Minho podem considerar-se um passadiço para os novos cânones e seria heresia supor que uma natureza estética, rica de seiva e de fantástico poder técnico, como Camilo, dado que aceitasse de boa mente os preceitos da doutrina, não cultivasse o género com honra; não chegasse mesmo a sumo-sacerdote. E é de admitir que o tivesse feito, se não fossem as inibições de ordem pessoal que se levantaram duma refrega suscitada tarde e a más horas, próprias dum país separado do resto da Europa pelos Pirenéus e com uma cultura que é forçoso localizar à boca crepuscular da Idade Média.
(continua)
