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Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

31
Jan26

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'CAMILO CONTRA-ATACA' [ 21 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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(Continuação)

«A Relíquia essa é uma variegada urdidura de fios do estilo rendilhado de Edgard Quinet, cartonada em pedaços do velho cenário burlesco de Paul de Kock e Crébillon -- figurações e tramoias de peça mágica. A alma esplêndida do livro, metida em corpo assás deformado de gibosidades, é o sonho da Paixão de Jesus de Nazaré, um 5º Evangelho, sonhado pelo pulha Dom Rapôso, desbragado garoto.»
«Em que miolos tão reles, hipnotisados em todos os alcouces daquem e dalém mar, o refulgente frasista sugeriu um sonho de transcendente ascese com 150 páginas!... (...)»
 

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«Deixem, pois, acordar Homero, e esperem ver cumpridas as promessas do eminente artista. O forte cérebro do auctor do Crime do Padre Amaro pode convulsionar-se doentiamente em epilepsias de desconchavos; mas ameaçar desabamento, isso não. Ninguém se cansa em jornada plumitiva tão curta como tem sido a do sr. Eça.»
 
«Eu nunca disse deste estimável escritor senão coisas bonitas e nunca lhas direi senão justas, segundo o meu sentimento de justiça. Não obstante, o sr. Eça, e alguns seus amigos, -- que não podem festejá-lo a berros de entusiasmo sem incomodarem os vizinhos, e não o sabem acariciar sem escoucear os outros -- sempre que lhes vem a talho de foice implicam comigo, assacando-me aleivosias. Aqui está uma do sr. Eça, do General, que pelo feitio parece cabo de esquadra.»
 

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«A páginas XX e XXI do prefácio aos agradáveis Azulejos do meu talentoso amigo Bernardo de Pindela, lê-se esta dura sova: «Os discípulos do idealismo, para não serem de todo esquecidos, agacham-se melancolicamente e, com lágrimas represas, bezuntam-se também de lodo. Sim, amigo, estes homens puros, vestidos de linho puro, que tão indignadamente nos arguiram de chafurdarmos num lameiro, vêm agora pé ante pé enlabuzar-se com a nossa lama! Depois, erguendo bem alto as capas dos seus livros, onde escreveram em grossas letras este letreiro -- romance realista -- parece dizerem ao público, com um sorriso triste na face mascarrada: -- Olhem também para nós... Acreditem que também somos muitíssimo grosseiros e que também somos muitíssimo sujos!»
 
«Deus nos acuda!»
 
«Ora aquilo é comigo.O sr. Eça de Queiroz desembestou aquela frecha apontada ao meu peito inocente; mas alvejou com seu olho mais míope, ou sacrificou a verdade a umas pitorescas frases azedas e já bastante poídas que não valiam a pena do holocausto.»
 

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«Em primeiro lugareu nunca censurei a pouca limpeza dos livros do sr. Eça; e, sempre que de passagem os indiquei, foi para os elogiar incondicionalmente; porque para mim livros sujos são somente os mal escritos. Em segundo lugar, nenhuma novela minha se inculca na capa romance realista. Alguém arguiu, com razão, um meu editor que nos anúncios da 4ª página dos jornais especializava a factura realista da novela. Daí procedeu talvez o equívoco importuno e flagedor do sr. Eça de Queiroz. Se s. ex.ª me julgasse menos irracional do que o seu modo de ler os frontispícios dos meus livros sem os ver (eu é que vejo tudo quanto o insigne romancista imprime) duvidaria que eu fosse capaz dessa parvoiçada para chamar aos meus romances a atenção dos leitores de s. ex.ª. Credo! Pois eu precisaria, para ser visto, de me nivelar com a espádua literária do sr. Eça? Mas, se o fizesse, era essa a maneira de me tornar invisível como diz a sentença de não sei que grande sábio... Talvez seja do grande sr. Eça de Queiroz a sábia sentença.»
 

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«Estas palavras, que sem serem indignas de Camilo não acusam a forja admirável donde brotaram as áscuas [*] terríveis, homéricas, contra Alexandre da Conceição, o Pe. Rodrigues, o Dr. Calisto, no fundo representam a maior homenagem a que Eça poderia ambicionar na sua carreira de escritor.» 
Perladas de certa amargura, mesmo da acidez corrosiva do rancor, como quando se referem à Relíquia, vista por uma luneta tendenciosamente esfumada, trazem um preito sublimado ao inovador do romance em Portugal. Sim, o primeiro grande escritor público de Portugal rendia homenagem ao primeiro grande artista das letras pátrias. Como iria Eça recebê-la?»
 
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áscuas [*] 
“áscua”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
 
24
Nov25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'A PERSISTENTE IMPUGNAÇÃO' [ 13 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

 

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«Neste transcurso de 80-81, sobressaltos e azares tornaram a vida de Camilo um inferno. Ainda e sempre o que mais o assoberbava, além da loucura de Jorge, cujos desatinos iam até o fogo posto, eram as necessidades prementes de pecúnia.»
[...]
«Os sucessos brilhantes da literatura realista, se não lhe empeceram a pena, não deixaram de o perturbar. Estacou, estamos a vê-lo estático, como o viandante que entreviu outro caminho correr paralelo com o seu, na aparência de melhor trilho. Mas a pausa foi de pouca dura. Breve se desmascaravam as posições de parte a parte e, Camilo, sempre que apanhava os adversários ao alcance da pontaria, que era certeira, abria fogo.»
 

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«É por esta altura que os seus padecimentos físicos se agravam. Fugia-lhe a vista. De noite, para trabalhar, precisava de acender muitas velas. A sua banca lembrava um altar na exposição do Santíssimo. As luzes que assim estrelavam o ambiente acabavam por causar-lhe intoleráveis dores de cabeça. Mas porfiava de pena em punho, uma pena melhorada agora, pode dizer-se, de todas as aquisições estéticas, arrebanhadas na corrente realista. Além do Perfil do Marquês de Pombal, e dos Narcóticos, de crónicas a torto e a direito, compôs a Brasileira de Prazins, onde se encontram caldeados em tão justa proporção o seu poder forte de descritivo e arte de dar o movimento com o respeito pelas justas dimensões dos homens e seu exacto complexo social. Tanto no formal dos figurantes como na sondagem psicológica, Camilo recorria agora a outro processo que não o da termometria romântica do coração.»

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«Camilo, -- dissemo-lo atrás -- ia enriquecendo a sua técnica com os valores trazidos pela nova escola. A Brasileira de Prazins é o exemplo frisante. Mas não o confessava. Tudo menos isso. De modo que a contumélia no fundo reduzia-se a uma testilha de oficiais do mesmo ofício desavindos e rancorosos.
Camilo nunca deixava de ler Eça, sempre que os prelos lhe traziam obra nova ou reimpressa. No ante-rosto da segunda edição do Crime do Padre Amaro encontrou-se esta acidulada nota: «3ª leitura em 1882. Este romance, na 1ª edição, leu-se com prazer; na 2ª com algum fastio. O autor para comprazer com a sociedade burguesa criou o episódio do padre bom que não tem cor alguma, e p. se afirmar zolaísta fez a filha do sineiro, que é enfadonha e inverosímil. C. Cat.º Branco».
 
«Na pág. 66, a propósito do cónego Dias estar em 1846 provido no curato de Santo Ildefonso, observa: «Stº Ildefonso é abadia. O abade em 46 era um Guim.ês irmão do conde de Bulhão.»
 
«Na pág. 134, Eça fala na tentação de Santo António no deserto. Camilo emenda: «Antão».

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«A págs. 209-210, marginou a carta de Amaro, comentando à altura da primeira linha: «Tola coisa». E no período: «Se tu soubesses como eu te quero, querida Améliazinha, que até às vezes me parece que te poderia comer aos bocadinhos». -- escreveu: «Parva inverosimilhança».
 
«A págs. 229, perante o prevera do texto, Camilo rabisca um ponto de admiração e acrescenta: «Prevera conjuga-se como ver. Previra».
[...]

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«Pág. 674, final do livro: -- «Admirável. Obra prima q. há-de resistir como um bronze a todas as evoluções destruidoras das escolas e da moda. C. C. Br.º».
«Camilo era versátil, como se conclui da primeira nota em relação à derradeira, daí o não oferecerem as suas opiniões um critério irrepreensível. Todavia, assim breves, contraditórias, lançadas sem preconcebimento à margem do livro, consoante a impressão que lhe ia causando a leitura, representam um preito à obra de Eça. 'Coram populo' desdenha dos métodos da nova escola, embora esteja compenetrado da sua superioridade e tão imbuído deles que os vai praticando nos escritos, com o ar ostensivamente hipócrita de anojado.»
[...]

 

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«Tanto Camilo estava rendido aos processos novos que numa carta ao editor Eduardo da Costa Santos, ao passo que debatia os direitos de autor do General Carlos Ribeiro e anunciava o projecto da publicação mensal: Serões de S. Miguel de Seide, terminava a carta: «No mês de Dezembro tenciono dar-lhe um volume (realista) Eva Cotta. Vai Eva e não Georgina por escolha de D. Ana. Gosto da pequenez do título».
 
(continua)
20
Nov25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'CAMILO ATACA EM TODA A LINHA' [ 12 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto
 

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(continuação)
 
«A polémica com Alexandre da Conceição pode considerar-se como o auge da contumélia entre românticos e realistas. Aquele, homem livre e culto, de entendimento tão atilado como cáustico, sabendo manejar a pena, em sua primavera literária um dos devotos de Camilo, caíra em sair à liça em defesa dos princípios novos. Incidentalmente resvalara -- e aqui está a sua falta -- a invocar com menos circunspecção ao homem que tinha tirado o idioma do torno fradesco para dotá-lo de agilidade e do sentido comesinho das coisas, ao passo que lhe restituía todos os tesouros inaproveitados do linguajar plebeu, dos modismos saborosos, das expressões dinâmicas, o que, antes dele, apenas Garrett intentara fazer. O fundibulário não arrumou com as sete pedras de David à testa do entremetido mas com sete vezes sete, e disparando sobre ele regou de metralha o arraial dos realistas. Já se sabia, enquanto lhe restasse fôlego, não era ele que deixava passar em claro ataque ou remoque. O zoilo que o mordesse acautelasse a dentuça.»
 

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«Esta polémica ficou nas letras portuguesas como o seu mais pitoresco e iracundo chinfrim, fértil em chalaça e tropos envenenados. Interessam-nos nela sobretudo as passagens em que, apontando a Alexandre, o tiro batia no príncipe do realismo nacional e seus partidários, umas vezes de raspão, outras vezes em cheio:
«Assevera o crítico que eu no Eusébio Macário tive por intuito confessado a pretensão de lançar o ridículo sobre a escola realista. O sr. Conceição decerto não pode citar frase minha que o justifique.» -- «No prefácio da segunda edição do Eusébio Macário escrevi: Cumpre-me declarar que não intentei ridicularizar a escola realista. Quando apareceram o Crime do Padre Amaro e o Primo Bazílio e os romances de Teixeira de Queiroz (Bento Moreno) admirei-os e escrevi ingenuamente o testemunho da minha admiração. Creio que hoje em dia novela escrita doutro feitio não vinga.»...
 

178.jpg«O Sr. Conceição diz que a Corja é uma banalidadePois que outra coisa há-de ser a minha novela senão uma frioleira? 0 meu romance não tem o desvanecimento de avantajar-se às «banalidades» da sua espécie. Assevera que eu me deixei obsecar (queria talvez escrever obcecar)por pequenas vaidades de seita até ao ponto de ter do autor do Primo Bazílio somente esta estreita compreensão: de que é apenas um romancista ridículo. Não me conformo indiferentemente com esta aleivosia porque admiro e releio os romances do Sr. Eça de Queiroz.»

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«No Cancioneiro Alegre, pág.11, digo do Primo Bazílio: «o romance mais doutrinal que ainda saiu dos prelos portugueses». Doutrinal escrevi como sinónimo de moralizador. Em minha consciência entendo que, se já houve livro que pudesse e devesse salvar uma mulher casada na aresta do abismo, é o Primo Bazílio. O Sr. Eça de Queiroz fez esse raro milagre, porque pintou o vício repulsivo e nojento. As mesmas delícias do delicto emporcalhou-as, pondo as angústias paralelas com as torpezas.» -- Isto não me parece que seja, na afirmação leviana do Sr. Conceição, considerar o Sr. Eça de Queiroz um romancista ridículo.» -- «Pois eu afirmei que não ridicularizara conscientemente a escola realista, entende que esta declaração é uma verdadeira duplicidade literária. Não percebo o que seja duplicidade literária, salvo se quer dizer que sou um celerado que escrevo de dois feitios, com dois estilos e dois processos.»
«Abro um parêntesis para uma pessoa discreta que me vai ler e deplorar. Esta substanciosa controvérsia com o Sr. A. da Conceição originou-se da injustiça com que fui acusado de hostilizar pela irrisão dois escritores que descrevem as coisas e as pessoas como elas são ou podem ser. Constatei com provas escritas que admirava os dois escritores realistas e outros da mesma falange; mas nem me perfilei imodestamente ao seu lado, nem me gabei de usar os modernos processos com conhecimento de causa. Pareceu-me que o realismo se podia exercitar sem estudos prévios, por ser fácil tarefa com observação e estilo descrever a verdade das coisas físicas e ter das morais uma intuspecção mais ou menos aproximada da realidade.»...
 

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«Durante este duelo em que o achincalhe subiu aos tons mais homéricos na ira e no desforço, em que a palavra atingiu na pena, sobretudo, do impávido Camilo uma elasticidade comparável à dum chicote e o sarcasmo encontrou tintas novas imprevistas, Eça manteve-se no seu Bristol calado como um rato. Várias vezes posto em causa, em regra favoravelmente, não pestanejou sequer. Não há uma impressão, uma frase sua acerca desta desatinada rixa, e é pena. Seja como for, deveria ter admirado as inflexões novas que a língua tomara ao exprimir a fúria do rijo contendor. O curioso é que à medida que Alexandre da Conceição vibrava seus golpes e mais empertigava o arcabouço na investida contra o adversário, mais Camilo se avantajava em vigor e digamos ferocidade.»

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«Pois em este extraordinário encontro, único na história das letras portuguesas, o mutismo de Eça é significativo. Em todo o caso, em seu espírito penetrantíssimo, devia assentar com certeza absoluta o poder de dialéctica que Camilo punha nas discussões, seu inesgotável arsenal de golpes e contra-golpes, seus botes diabólicos, fulminantes, por vezes dum donaire a toda a prova e de direcção mortal. E, que os manes de Eça nos perdoem, se erramos, devia-lhe cobrar, mais que respeito, o seu medo. Sim, o seu medo.
 

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«Camilo, que ficara indeciso quanto à aceitação do público pelos produtos da nova escola e, talvez mais do que isso, intelectivamente titubeante, pois que o ano heróico do realismo para ele passara sáfaro como uma lande sem água, tendo-se refeito em 79 e 80 e lançado sucessivamente Eusébio Macário e a Corja, sorte de paródia e de passadiço para os novos métodos, escrevia a Chardron:
«Preciso de conhecer bem o espírito público na apreciação da Corja. Por enquanto não sei decidir, visto que a venda me parece ter sido pequena. Isto prova que as famílias estão atemorizadas.»
No fundo, Camilo admirava Eça. Num livro, hoje quase ignorado, Serões, de Pedro Ivo, que veio a lume em 1880, lia-se no verso do ante-rosto esta opinião lançada pelo próprio punho de Camilo
«É um bom livro; mas... veio depois do Primo Bazílio


12
Nov25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'CAMILO ATACA EM TODA A LINHA' [ 11 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

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«A actividade literária de Camilo de 1880 para 1881 limita-se a pouco mais que à publicação da Corja. À semelhança do Eusébio Macário, de que é a segunda parte, saiu em volume incrustada noutros pequenos trabalhos, a que deu o título já adoptado na primeira miscelânea: História e Sentimentalismo, invertendo apenas a ordem dos assuntos. Fazendo-o, teve em vista aproveitar a aura granjeada, se não foi mero acaso ou o prazer de gozar o chassé-croisé, explicação possível com um indisciplinado como ele era.
A Corja, que é uma dose sublimada do realismo aviado na botica do Eusébio, anunciara-a já a Silva Pinto numa fraseologia facetamente intencional.»

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172.jpg«Camilo tinha o realismo trancado na garganta, ou melhor os praticantes nacionais de tal doutrina, que o ignoravam ou não lhe rendiam o preito que merecia a sua vida de cultor das letras, estrénuo e desvelado. Em consequência, não perdia ensejo de dar-lhes a picada de alfinete quando não era a faca metida aos peitos.»

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«Por esta altura vinha a público o livro da Princesa Rattazzi Le Portugal à vol d'oiseau, em que por má informação dos cornacas, Camilo aparecia amesquinhado, a sua estatura objecto de tal apoucamento que mal se distinguia nas filas de terceira ordem dos escritores portugueses.»
... 
...
«Era uma injustiça clamorosa, mas decerto não tivera as maiores culpas a viajante. A culpa porém do delito estava individuada na sua pessoa, e Camilo respondeu com umas tantas páginas de irisado espírito, temperado aqui e ali de estrepitosíssima mofa: Portugal a voo de pássara.»
 

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«O livro da pobre princesa deu no goto a Camilo e todavia não é dos mais caluniosos que se têm publicado sobre Portugal. Sente-se na autora a vontade de ser imparcial e agradecida à bizarria com que foi recebida. Todos os seus dislates são obra das interpostas pessoas que a certa altura desapareceram da plana e deixaram sair o livro sem o correctivo do lápis local. Somos levados a crer que um dos seus ciceroni e informadores tenha sido Alberto Braga que, não obstante haver oferecido um dos trabalhos a Camilo, não engraçava demais com ele. Com efeito, a Rattazzi fora hóspede do 1°barão de Joane (António Luís Machado Guimarães (1820-1882), cuja casa era para A. Braga, levado pela mão de Bernardino Luís Machado Guimarães (1851-1944) [*], o filho cadete, o albergue providencial.»
 

[*] Bernardino Machado ocupa o 3.º e 8.º lugares de mais alto magistrado da Nação, sendo eleito por duas vezes Presidente da República. No primeiro período, para o quadriénio de 1915 a 1919, e no segundo período, para o de 1925 a 1929. Não chegou a cumprir nenhum deles até final, abortados que foram, o primeiro pelo movimento de Sidónio Pais e o segundo pelo movimento militar do 28 de maio de 1926."

[*] Sogro de Aquilino Ribeiro. O casamento com a sua filha Jerónima Dantas Machado (1897-1987), ocorreu em Junho/1929, na cidade de Paris, onde estavam exilados. 

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«O Portugal a vol d'oiseau, além de não ser destituído duma certa vivacidade, de quando em quando prima na observação justa e sagaz. O diabo foi tocar no brio do velho escritor e toda aquela sua complexa textura de nervos, irradiante em ironias e motejos, vibrou:
«Eu cá estou encascado em cinco cobertores de papa, muito católicos segundo a adjectivação pontifical que se lhes dá. Vai-se-me petrificando o encéfalo e sinto no crânio os óculos do Adriano Machado de Abreu com as frialdades cruas, metálicas, como diria o Eca de Queroz na ortografia da princesa vadia.»
 
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(Continua)

20
Out25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'EÇA IMPASSÍVEL E CAMILO IRADO' [ 9 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

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«No perfil de Ramalho Ortigão publicado nas Notas Contemporâneas, datado de 1878, pulsa-se o pouco respeito que merecia a Eça o romantismo e com ele os seus cultores. Por integração de partes, Camilo devia sentir-se atingido. O seu nome não é pronunciado, mas responde à auscultação.
Era legítimo que Eça fizesse tábua rasa de quantos escritores havia em Portugal ao tempo que introduzia na literatura indígena, com mais ou menos subserviência, os métodos de Zola e de Flaubert?
A seta, embora regulada a alça para alto, ia bater no peito do velho romancista de Seide, que arrancando-a ensanguentada, a remetia ao bisonho e leviano frecheiro.»

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«Nesta altura atravessava Camilo uma crise de nevrose aguda, a cada passo se julgando nos últimos dias da vida. Não tinha descanso em parte alguma. Só estava bem onde não estava. As insónias arrasavam-no. Ia de S. Miguel de Seide para Vizela, de Vizela para a Foz; fazia e desfazia as malas. Como tantos homens superiores, que a aura pública conduziu a um auto-centrismo exagerado, a ocupação principal para ele era a sua pessoa.»


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«O pior de tudo e mais certo é que começou a sentir os ameaços do mal que devia terminar na cegueira. O ano 78 passou safro para ele. Resultado de incómodos vários, da biliose, porventura do traumatismo moral provocado pelas primeiras obras dignas da escola nova, que abria caminho saltando a pés juntos sobre os escritores românticos.

Mas já o ano de 79 é para ele um ano de recuperação. Após o largo período de pousio reaparecia mais ardente e fecundo. Dir-se-ia que se retirara da liça a beber os bálsamos. De facto os seus trabalhos coetâneos acusam um lidador que corregeu as armas e se apurou no floreio. O Cancioneiro Alegre, ainda que estudo rápido e desenfastiado, esfusia de chiste e boa graça.»

... ... ...

«Depois ao cabo da refrega com toda uma moirama brava, do livro hecteróclito Sentimentalismo e História lança contra os realistas a charge suprema do Eusébio Macário. Mas este livro supera o seu objectivo. O gigante rompeu por todas as costuras a túnica pretexta que envergou ao tentar aquela empresa de ridículo, e produziu obra de fôlego.»

«... Ninguém duvida que este labor obedeceu a um plano de represália. Semi-deus (Camilo) em cólera, o seu gesto ficou assinalado para sempre. Como responderam os realistas? Eça meteu-se dentro do seu cómodo desdém e deixou passar. Com isso mais se devia enervar o gigante.»

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«Entretanto Eça de Queirós, primeiramente em Newcastle, depois em Bristol, compunha o Primo Basílio, inspirado de certo pela Madame Bovary...

«... Por essa altura remodelava o Crime do Padre Amaro, cuja silhueta principal, recortada sobre o francês, lhe acarretava, entre outros, os doestos de Camilo. O padre agora ficava ecumenicamente católico até para a bandalhice. E esboçava a Capital de que vieram a lume alguns capítulos. Escrevia ao mesmo tempo para os jornais do Brasil as Cartas de Inglaterra. De modo geral trabalhava paciente e tenazmente, com uma lentidão que não era dificuldade de escrever, mas lentidão em que se elaborava, como nas operações químicas a longo prazo, todo aquele artefacto de naturalidade, de estilo cristalino e brincado, de graça que parece produto espontâneo e é efeito dum longo e aturado labor.»

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«Era celibatário, morava numa casa enramalhetada de trepadeiras, e o cargo não lhe exigia grande fadiga. De modo geral, corria-lhe a vida suave e sem solavancos como o Avon que passava debaixo das suas janelas. Por este ligeiro escorço se vê quanto o seu destino era diferente do galeriano de S. Miguel de Seide, aquele sentado de modo sofrível à mesa do orçamento, bem aparentado, com um diploma licenciado para as honrarias, enquanto este, tendo postulado um cargo de comandante das guardas da Alfândega ou coisa parecida, nem essa pretensão viu realizada.»

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«No prefácio da quinta edição do Amor de Perdição, datado de S. Miguel de Seide, 1879, com irreprimível mordacidade, aqui e ali com um certo gongorismo no dizer que não é mais que uma atitude de tesura ao desafiar o adversário que está entrevendo ao longe, Camilo escrevia: "Se comparo o Amor de Perdição, cuja 5ª edição me parece um êxito fenomenal e extra-lusitano, com o Crime do Padre Amaro e o Primo Basílio, confesso, voluntariamente resignado, que para o esplendor destes livros foi preciso que a Arte se ataviasse dos primores lavrados no transcurso de dezasseis anos. O Amor de Perdição, visto à luz eléctrica do criticismo moderno, é um romance romântico, declamatório, com bastantes aleijões líricos e umas ideias celeradas que chegam a tocar no desaforo do sentimentalismo. Eu não cessarei de dizer mal desta novela, que tem a boçal inocência de não devassar alcovas, a fim de que as senhoras a possam ler nas salas, em presença de suas filhas ou de suas mães, e não precisem de esconder-se com o livro no seu quarto de banho. Dizem, porém, que o Amor de perdição fez chorar. Mau foi isso. Mas agora, como indemnização, faz rir; tornou-se cómico pela seriedade antiga, pelo rapozinho que lhe deixou o ranço das velhas histórias do Trancoso e do Padre Teodoro de Almeida. E por isso mesmo se reimprime. O bom senso público relê isto, compara com aquilo, e vinga-se barrufando com frouxos de riso realista as páginas que há dez anos aljofrava com lágrimas românticas."»

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«"Pois que estou a dobrar o cabo tormentório da morte, já não verei onde vai desaguar este enxurro, que rola no bojo a Ideia Novíssima. Como a honestidade é a alma da vida civil, e o decoro é o nó dos liames que atam a sociedade, lembra-me se vergonha e sociedade ruirão ao mesmo tempo por efeito de uma grande evolução-rigolboche. A lógica diz isto; mas a Providência, que usa mais da metafísica que da lógica, provavelmente fará outra coisa. Se, por virtude da metempsicose, eu reaparecer na sociedade do século XXI, talvez me regozije de ver outra vez as lágrimas em moda nos braços da retórica, e esta 5ª edição do Amor de Perdição quase esgotada."»

(continua)

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