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Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

24
Nov25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'A PERSISTENTE IMPUGNAÇÃO' [ 13 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

 

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«Neste transcurso de 80-81, sobressaltos e azares tornaram a vida de Camilo um inferno. Ainda e sempre o que mais o assoberbava, além da loucura de Jorge, cujos desatinos iam até o fogo posto, eram as necessidades prementes de pecúnia.»
[...]
«Os sucessos brilhantes da literatura realista, se não lhe empeceram a pena, não deixaram de o perturbar. Estacou, estamos a vê-lo estático, como o viandante que entreviu outro caminho correr paralelo com o seu, na aparência de melhor trilho. Mas a pausa foi de pouca dura. Breve se desmascaravam as posições de parte a parte e, Camilo, sempre que apanhava os adversários ao alcance da pontaria, que era certeira, abria fogo.»
 

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«É por esta altura que os seus padecimentos físicos se agravam. Fugia-lhe a vista. De noite, para trabalhar, precisava de acender muitas velas. A sua banca lembrava um altar na exposição do Santíssimo. As luzes que assim estrelavam o ambiente acabavam por causar-lhe intoleráveis dores de cabeça. Mas porfiava de pena em punho, uma pena melhorada agora, pode dizer-se, de todas as aquisições estéticas, arrebanhadas na corrente realista. Além do Perfil do Marquês de Pombal, e dos Narcóticos, de crónicas a torto e a direito, compôs a Brasileira de Prazins, onde se encontram caldeados em tão justa proporção o seu poder forte de descritivo e arte de dar o movimento com o respeito pelas justas dimensões dos homens e seu exacto complexo social. Tanto no formal dos figurantes como na sondagem psicológica, Camilo recorria agora a outro processo que não o da termometria romântica do coração.»

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«Camilo, -- dissemo-lo atrás -- ia enriquecendo a sua técnica com os valores trazidos pela nova escola. A Brasileira de Prazins é o exemplo frisante. Mas não o confessava. Tudo menos isso. De modo que a contumélia no fundo reduzia-se a uma testilha de oficiais do mesmo ofício desavindos e rancorosos.
Camilo nunca deixava de ler Eça, sempre que os prelos lhe traziam obra nova ou reimpressa. No ante-rosto da segunda edição do Crime do Padre Amaro encontrou-se esta acidulada nota: «3ª leitura em 1882. Este romance, na 1ª edição, leu-se com prazer; na 2ª com algum fastio. O autor para comprazer com a sociedade burguesa criou o episódio do padre bom que não tem cor alguma, e p. se afirmar zolaísta fez a filha do sineiro, que é enfadonha e inverosímil. C. Cat.º Branco».
 
«Na pág. 66, a propósito do cónego Dias estar em 1846 provido no curato de Santo Ildefonso, observa: «Stº Ildefonso é abadia. O abade em 46 era um Guim.ês irmão do conde de Bulhão.»
 
«Na pág. 134, Eça fala na tentação de Santo António no deserto. Camilo emenda: «Antão».

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«A págs. 209-210, marginou a carta de Amaro, comentando à altura da primeira linha: «Tola coisa». E no período: «Se tu soubesses como eu te quero, querida Améliazinha, que até às vezes me parece que te poderia comer aos bocadinhos». -- escreveu: «Parva inverosimilhança».
 
«A págs. 229, perante o prevera do texto, Camilo rabisca um ponto de admiração e acrescenta: «Prevera conjuga-se como ver. Previra».
[...]

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«Pág. 674, final do livro: -- «Admirável. Obra prima q. há-de resistir como um bronze a todas as evoluções destruidoras das escolas e da moda. C. C. Br.º».
«Camilo era versátil, como se conclui da primeira nota em relação à derradeira, daí o não oferecerem as suas opiniões um critério irrepreensível. Todavia, assim breves, contraditórias, lançadas sem preconcebimento à margem do livro, consoante a impressão que lhe ia causando a leitura, representam um preito à obra de Eça. 'Coram populo' desdenha dos métodos da nova escola, embora esteja compenetrado da sua superioridade e tão imbuído deles que os vai praticando nos escritos, com o ar ostensivamente hipócrita de anojado.»
[...]

 

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«Tanto Camilo estava rendido aos processos novos que numa carta ao editor Eduardo da Costa Santos, ao passo que debatia os direitos de autor do General Carlos Ribeiro e anunciava o projecto da publicação mensal: Serões de S. Miguel de Seide, terminava a carta: «No mês de Dezembro tenciono dar-lhe um volume (realista) Eva Cotta. Vai Eva e não Georgina por escolha de D. Ana. Gosto da pequenez do título».
 
(continua)
07
Ago25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'ROMÂNTICOS E REALISTAS' [ 3 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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«Anos de 1866, 67, 68 termina Eça a sua formatura em Direito, estreia-se na Gazeta de Portugal, cozinha o Distrito de Évora, ensaia a lira satânica de Baudelaire. E flana, flana por Lisboa. A experiência da capital vem-lhe dessa data. Os decadentes e irregulares que traz ao tablado, em especial no Primo Basílio, nos Maias, e toda a sub-galeria dos romances póstumos, personagens quase todas dealbadas da ganga nativa nas águas do Sena, são transposições da sua vida de sociedade.»

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«Esses três anos, não falando no período morto que vai até 1869, consumi-los-á em vagabundagem, num vago cenáculo, literatizando como sempre à francesa, até a altura em que de monóculo entalado no orbe do olho e uma grande curiosidade na alma embarca com o conde de Rezende para a Terra Santa. Viagem farta de pitoresco e de perspectiva, fornecerá o tema, por um ror de tempo, às tertúlias literárias. O nome de Eça passa a voar nas asas da fama, os cultores da anedota havendo pilhado um filão.»
 

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«Entretanto Camilo vai assentando pedra após pedra na prodigiosa torre, mais que Babel, que é a sua obra. S. Miguel de Seide é um estaleiro. Trabalham a derreter os miolos, instados pelas necessidades da vida, tanto o escritor como Ana Plácido. A seguir à Enjeitada, romance francamente mau, em que presumo vislumbrar a mesma tessitura feminina da Luz coada por ferros, talvez retocado e limado pelo escritor, apareceu o Judeu, a Queda dum Anjo, duma altitude nunca antes atingida em Portugal, o Santo da Montanha com uma boa parte castiça e superior, o Senhor do Paço de Ninães, não menos sobranceiro, os Mistérios de Fafe, em que estua uma prosa viril e dúctil, dobrada nas suas mãos como o ferro nas tenazes do bom ferreiro de Guimarães, o Retrato de Ricardina que rasga uma janela de céu azul e chão de neve no terrível e feio mundo. Para falar apenas nos livros capitais daqueles três anos de intensa safra. O lutador está a entrar na última década da sua actividade e produz como as macieiras do seu quintalinho dão maçãs. Às cestadas. Por todo o Portugal, levado pelas gazetas, pelos livros a dois tostões, pelos folhetos de polémica e os ventos suscitados, o seu nome corre. Não há ninguém dotado de percepção alfabética, digamos, que não descortine, como a um seareiro prometáico, o trabalhador a cobrir infatigavelmente com a sua letrinha miúda e rectilínea resmas e resmas de papel branco.
Em Évora, em Lisboa, em Leiria, alguma vez o escritor incipiente e snob se aperceberia deste Caim das letras? Sentiria alguma vez pulsar a alma multíplice, cheia de falhas, mas até nelas grandioso, deste colosso? Não no-lo diz quando é tão prolixo nas suas inclinações e fatacazes. E é lamentável que em cérebro tão peregrino como o de Eça não brotasse uma admiração espontânea, impulsiva, ardorosa pelo veterano do romance, já que o coração lhe havia, mercê dos maus boléus das fadas, estancado para os reptos da generosidade sem troco. E nós hoje, porque a plana literária se nos defronta em perspectiva rasa e emareada de preconcebimentos, não compreendemos o silêncio de Eça. A demarcar o percurso triunfo triunfal do romancista da Relíquia, falta um artigo, uma saudação, um brado de entusiasmo pelo escritor que fora naufragar na verde e anojadiça terra minhota, falta-lhe, sim, esse ex-voto, tal emblema de Hermes na via dum César.»
 
 

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«E entre os merecidos respeitos não há Aristarco que não coloque Camilo, o maior.»
 

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 « ...o certo é que Eça, considerando o romance em coma, excluía Camilo do número dos reanimadores, pois que era tarde para a carreira deste o fazê-lo e equivaleria simultâneamente a negá-lo supondo-o investido de semelhante empresa. E é clamorosa a injustiça de tal conceito contra quem vinha praticando com exaustão e com relevo aquele género literário.»
 

(continua)

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