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Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

14
Jan26

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'EÇA VOLTA A ATACAR' [ 19 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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(continuação)
 
«Em matéria da inteireza com que o naturalismo observa a vida, sem receio de fazer corar as meninas, estribando-se em Feuillet, pedagogo dos bons costumes para uso de donzelas, poderiam os românticos perguntar a Eça pela página do autor citado que assoalha axiomas tão escarlates.
É intuitivo que na ordem de argumentos aduzidos por Eça convinha Octave Feuillet, o romancista dos panos quentes e não os Goncourts, que faziam gala em escalpelizar as podridões sociais sem rebuço nem tamiz [*], e de quem é a frase relativa à candura das meninas da primeira comunhão.» 
 

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«Neste meio tempo, Camilo publicara Vulcões de Lama, onde um crasso naturalismo parece decantado da burla e achincalhe para ficar obra estrénua de escola. 
Eça, quase simultâneamente, aparecia com a Relíquia, obra encantadora não obstante o compósito. De certo semelhante trabalho é um daqueles em que são mais visíveis as qualidades e defeitos do autor: uma ironia irreverente e procurada; uma prosa embaladora; pouca imaginação e muito espírito-santo de orelha; uma rapsódia com acordes alheios, destes que teimosamente mais que voluntariamente obssidiam o cérebro. Este livro em cuja tecitura se vêem passar as sombras eliseanas de P. Gattina, de Flaubert, de Renan, de Rollinat, foi desde logo objecto de acerbas críticas. Nas demais obras de Eça, este desplante em se enfeitar com as jóias dos outros está mais ou menos disfarçado. Aqui Eça não se deu a essa hipocrisia.»
 

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«Camilo que estava à espreita das produções da escola realista, mandou adquirir a Relíquia, pois que Eça não lhe oferecia os seus vient de paraître e anotou-o. Logo no ante-rosto se lê no exemplar existente em Seide: «Tirante as descrições topográficas de alguns pontos da Palestina -- de certo exageradas por tintas fictícias -- este livro como romance é uma pochade, em que todos os caracteres são caricaturas e armadilhas às gargalhadas da baixa comédia. Os plágios são frequentes.»
 
(...) Na última página lançou um juízo severo: «Este livro tem duas partes: 1ª, porcaria, 2ª, maçada. É uma pochade à Paul de Kock: chalaças hiperbolicamente inverosímeis; uma vontade despótica de fazer rir à custa de tudo. Mas não é isso o que o torna um mau livro. É a falta absoluta de bom senso e de bom gosto. Pode considerar-se uma decadência por ter sido escrito depois dos Maias que deve ser melhor.»
 
«O singular é que a Relíquia, impregnada do tonus das Memórias de Judas de Petrucelli della Gattina, tenha sobrenadado à flor da literatura portuguesa; e que a obra paradigma tenha sossobrado com o nome do autor no mare-magnum das letras estrangeiras. Que absurdo destino é este, o dos livros, ou que estranho desnível de méritos há da nossa plana literária para a plana internacional?»
 
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tamiz [*] (tamis)
 “tamis”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
      Disponível em: 
 
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07
Ago25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'ROMÂNTICOS E REALISTAS' [ 3 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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«Anos de 1866, 67, 68 termina Eça a sua formatura em Direito, estreia-se na Gazeta de Portugal, cozinha o Distrito de Évora, ensaia a lira satânica de Baudelaire. E flana, flana por Lisboa. A experiência da capital vem-lhe dessa data. Os decadentes e irregulares que traz ao tablado, em especial no Primo Basílio, nos Maias, e toda a sub-galeria dos romances póstumos, personagens quase todas dealbadas da ganga nativa nas águas do Sena, são transposições da sua vida de sociedade.»

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«Esses três anos, não falando no período morto que vai até 1869, consumi-los-á em vagabundagem, num vago cenáculo, literatizando como sempre à francesa, até a altura em que de monóculo entalado no orbe do olho e uma grande curiosidade na alma embarca com o conde de Rezende para a Terra Santa. Viagem farta de pitoresco e de perspectiva, fornecerá o tema, por um ror de tempo, às tertúlias literárias. O nome de Eça passa a voar nas asas da fama, os cultores da anedota havendo pilhado um filão.»
 

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«Entretanto Camilo vai assentando pedra após pedra na prodigiosa torre, mais que Babel, que é a sua obra. S. Miguel de Seide é um estaleiro. Trabalham a derreter os miolos, instados pelas necessidades da vida, tanto o escritor como Ana Plácido. A seguir à Enjeitada, romance francamente mau, em que presumo vislumbrar a mesma tessitura feminina da Luz coada por ferros, talvez retocado e limado pelo escritor, apareceu o Judeu, a Queda dum Anjo, duma altitude nunca antes atingida em Portugal, o Santo da Montanha com uma boa parte castiça e superior, o Senhor do Paço de Ninães, não menos sobranceiro, os Mistérios de Fafe, em que estua uma prosa viril e dúctil, dobrada nas suas mãos como o ferro nas tenazes do bom ferreiro de Guimarães, o Retrato de Ricardina que rasga uma janela de céu azul e chão de neve no terrível e feio mundo. Para falar apenas nos livros capitais daqueles três anos de intensa safra. O lutador está a entrar na última década da sua actividade e produz como as macieiras do seu quintalinho dão maçãs. Às cestadas. Por todo o Portugal, levado pelas gazetas, pelos livros a dois tostões, pelos folhetos de polémica e os ventos suscitados, o seu nome corre. Não há ninguém dotado de percepção alfabética, digamos, que não descortine, como a um seareiro prometáico, o trabalhador a cobrir infatigavelmente com a sua letrinha miúda e rectilínea resmas e resmas de papel branco.
Em Évora, em Lisboa, em Leiria, alguma vez o escritor incipiente e snob se aperceberia deste Caim das letras? Sentiria alguma vez pulsar a alma multíplice, cheia de falhas, mas até nelas grandioso, deste colosso? Não no-lo diz quando é tão prolixo nas suas inclinações e fatacazes. E é lamentável que em cérebro tão peregrino como o de Eça não brotasse uma admiração espontânea, impulsiva, ardorosa pelo veterano do romance, já que o coração lhe havia, mercê dos maus boléus das fadas, estancado para os reptos da generosidade sem troco. E nós hoje, porque a plana literária se nos defronta em perspectiva rasa e emareada de preconcebimentos, não compreendemos o silêncio de Eça. A demarcar o percurso triunfo triunfal do romancista da Relíquia, falta um artigo, uma saudação, um brado de entusiasmo pelo escritor que fora naufragar na verde e anojadiça terra minhota, falta-lhe, sim, esse ex-voto, tal emblema de Hermes na via dum César.»
 
 

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«E entre os merecidos respeitos não há Aristarco que não coloque Camilo, o maior.»
 

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 « ...o certo é que Eça, considerando o romance em coma, excluía Camilo do número dos reanimadores, pois que era tarde para a carreira deste o fazê-lo e equivaleria simultâneamente a negá-lo supondo-o investido de semelhante empresa. E é clamorosa a injustiça de tal conceito contra quem vinha praticando com exaustão e com relevo aquele género literário.»
 

(continua)

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