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Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

07
Jan26

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'EÇA VOLTA A ATACAR' [ 18 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

 

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«Com um pequeno intervalo de semanas, rompia de Bristol nova investida contra o romantismo. Eça de Queirós aproveitava-se do ádito das obras, a que o chamavam como padrinho, à laia de plataforma de tiro. No Brasileiro Soares, primeiro, logo a seguir nos Azulejos do conde de Arnoso. Qualquer dos livros roçava pela mediocridade, mas tratava-se de amigos, de pessoas de tom, e Eça não sabia resistir à solicitude cortesã.
Pois nesse prefácio, a certa altura aponta baterias ao campo inimigo. Eça não era um polemista na vera acepção da palavra. Para o polemista, tal como o concebiam ao tempo, todo o floreio externo se damasquinava de zombaria, troça, ridicularização e verrina. Estes efeitos estavam fora de toda a possibilidade para um temperamento como o dele. No que levava a palma, era na ironia. Mas a ironia não suporta o embate do sarcasmo. A ironia é por sua natureza monovalente. Eça poderia escrever páginas superiores, sobre as quais o adversário acabasse por chafurdar na sua mesquinhez e insignificância, vencido e humilhado. Mas para a esgrima literária, tal como a praticava Camilo a cada passo, florete, partasana, moca se necessário fosse, não contassem com ele. Quando saía a combater fazia-o inopinadamente; despejava a sua aljava, onde havia graça, chiste, epigrama, agudeza, formas cromadas da ironia, e metia-se em copas. A farsa, a sátira, a descompostura não sabia o que fossem. Francamente combativo, jamais a sua combatividade o obrigou alguma vez a recarregar o adversário. Nisto era diferente de Camilo como da noite para o dia.»
 
 

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Escrevia Eça de preliminar a Azulejos:
«Não temes que o teu livro, flor de literatura, casta de aroma e de cor, seja tratado como um desses frutos podres que ama o naturalismo? Frutos medonhos que têm depravado o paladar das multidões, a um ponto que só eles apetecem e só eles se vendem, e já ninguém vai feirar aos gigos onde vermelham os frescos morangos acabados de colher no morangal do romantismo!? (...)»
«Mas como tu sabes, amigo, nesta capital do nosso Reino permanece a opinião cimentada a pedra e cal, entre leigos e entre letrados, que naturalismo ou, como a capital diz, realismo -- é grosseria e sujidade! Não tens tu reparado que quando um jornalista, copiando no seu jornal com pena hábil a parte da polícia, que é o roast-beef da imprensa um bruto que proferiu palavras imundas, nunca deixa de lhe chamar com uma ironia cujo brilho raro o enche de justo orgulho -- discípulo de Zola? -- Não tens notado que nos periódicos, quando se quer definir uma maneira especial de ser torpe, se emprega esta expressão consagrada -- à Zola? Não tens tu visto que, ao descrever um caso sórdido ou bestial, o homem da gazeta acrescenta sempre com um desdém grandioso: para contar bem como tudo se passou precisávamos saber manejar a pena de Zola? Assim é, assim é! Estranha maravilha da asneira! O nome do épico genial de Germinal e da Oeuvre serve para simbolizar tudo o que em actos e palavras é grosseiro e imundo! (...) Também em França e Inglaterra, há quinze anos, houve a mesma opinião sobre o naturalismo; também gritaram grosseria, sujidade os néscios e os malignos ao aparecerem essas vivas, rijas, fecundas, resplandecentes criações do Assomoir e de Nana.»
 

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«De tal sorte, que assistimos a esta cousa pavorosa: os discípulos do idealismo para não serem de todo esquecidos agacham-se melancolicamente e com lágrimas represas bezuntam-se de lodo! Sim, amigo, estes homens puros, vestidos de linho puro, que tão indignadamente nos arguiram de chafurdarmos num lameiro vêm agora pé ante pé enlabuzar-se com a nossa lama! Depois soerguendo bem alto a capa dos seus livros, onde escreveram em grossas letras este letreiro -- romance realista -- parece dizerem ao público, com um sorriso triste na face mascarada: -- Olhem também para nós, leiam-nos também a nós... Acreditem que também somos muitíssimo grosseiros e que também somos muitíssimo sujos.»

(continua)

30
Dez25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'BRASILEIRO ROMÂNTICO E REALISTA' [ 17 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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(Continuação)

«À data em que Eça escreveu o prefácio do Brasileiro Soares, 1886, tinha Camilo, sagitário por excelência, várias vezes despejado o carcás de flechas envenenadas contra a escola realista, algumas vezes alvejando Eça particularmente. Este mais ironista e menos sarcástico, mais discreto na vida das relações e menos combativo, mais desdenhoso que denodado, não perdia agora a ocasião de responder com o seu virote, acobertadamente ou não.»
 

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«O prefácio do Brasileiro Soares era dirigido ao peito de Camilo, e o paspalhão obsceno que Eça tinha na retina devia ser nem mais nem menos do que o barão do Rabaçal, Bento José Pereira de Montalegre, que esmalta com a sua pachouchice e retorcida armadura áurea o Eusébio Macário.»
 

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«Na meia dúzia de páginas que precedem o Brasileiro Soares, fulgura o monóculo olímpico e impertinente do escritor, e ouve-se o tinido melodioso e imprevisto da sua adjectivação sardónica e maliciosa. Todavia o discurso é mal articulado e para cúmulo falho de justiça e equanimidade. Não, o romantismo não construia o brasileiro única e exclusivamente consoante o figurino que Eça se apraz descortinar. Havia um ror deles desde o torna-viagem, que era sem dúvida o mais simpático e digno de respeito, e que nem sempre coincidia em representar o odre de vento que cobria a terra natal de não prestas. Sobre o seu contributo de formiga do vasto formigueiro emigratório assentava o equilíbrio económico das sete províncias mães. Os outros tipos, encarados no ângulo literário, tinham mais interesse, mas este era o são, o honrado, o lidimamente português em seu labor ímprobo e humildade.
Ora não foi este que Eça surgiu a defender da calúnia romântica no proscénio a que o atraiu Luís de Magalhães.»
 

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«Camilo, através da sua centena de romances, usou duns e doutros em barda. Virou-os do avesso, depois de pintá-los do direito, analisando-os com tenta ora faceciosa, ora cruel, segundo os vários prismas que podia oferecer o espectro. Fixou o sórdido e o generoso, o culto e o boçal, o soberbo e o modesto consoante as necessidades do drama, mas fugindo sempre a falsear o homem»

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«Percorrendo a galeria camiliana, basta que seja de fugida, que tipos de brasileiro se nos deparam? Na Mulher Fatal Carlos é um simples e poético bom rapaz: nem joanetes nem boçalidades; no Retrato de Ricardina o brasileiro é igualmente pessoa de bem, generosa e mesmo providencial: desprovido de joanetes e quanto a boçalidade nada; na Vingança sai-nos um émulo de Cagliostro, misteriosos e até equívoco: mas também ninguém dá fé dos seus joanetes nem da sua boçalidade; na Carlota Ângela tampouco o brasileiro, para mais civilizadíssimo, acusa joanetes ou bajoujice; nas Vinte horas de liteira perpassa um brasileiro que, mostrando-se fura-bolos,não deixa de ser sensato e apresentável; nas Estrelas propícias rompe-nos um brasileiro viajado, lido e mundano de todo: mãos finas, boas maneiras; na Filha do doutor Negro temos um autêntico brasileiro do Brasil, fero de alma, mas sem grotescos; no Comendador esse brasileiro torna-viagem é cheio de bondade e lisura: nada também de taras constitucionais; no Cego de Landim o brasileiro é uma incarnação do Vautrin, um Vautrin abeberado de vinho verde, mas ainda esse sem cachuchos nos dedos e sem as ridicularias anexas; no Eusébio Macário, como já notámos, nos Brilhantes do Brasileiro, na Brasileira de Prazins, de acordo, erguem-se esses famosos padrões da estupidez endinheirada, crassos de banhas, bestiais nos desejos, burlescos dos pés à cabeça, tais como Eça se aprouve classificá-los únicos e exclusivos da coorte[*] romântica. Quando muito, o sibarita de Bristol tolerava que variassem  a sua casaca de alpaca como Fregoli. Por dentro, em sua relojoaria e em seu dar horas, eram o sempre mesmo barão do Rabaçal.»
 
«Este foi um dos aleives, com que Camilo pôde bem, e de que era legítimo pedisse contas ao confrade mais novo e mais feliz, como gratuito que era.»
 

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«Agora não deixa de ser curioso que Eça acusasse a escola romântica precisamente daquilo que tem de se lhe levar ao activo das virtudes: o obséquio a uma realidade, que, para mais, constituía um preceito realista, o estudo patológico-social de indivíduos ou de efemérides da vida colectiva; para o nosso caso, o estudo da pessoa multiforme e proteica que foi o brasileiro que Deus haja.»
 
 

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coorte [*] 
“coorte”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa. Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/coorte 


27
Dez25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'BRASILEIRO ROMÂNTICO E REALISTA' [ 16 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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«Discursivamente ficou dito tudo o que o problema literário, já não dizemos económico, comportava? Supomos que não.
Por todo o século XIX e primeiro quartel do XX, o brasileiro era um quarto estado  em Portugal. Devia ensinar-se nas escolas a seguinte nomenclatura das classes: clero, nobreza, povo e brasileiro. Hoje já se não nota a prevalência do brasileiro. Uma sorte de cataclismo varreu a prestimosa e imensa instituição e o país está estropiado em sua orgânica. 
Escapou algum exemplar para amostra? Provavelmente, não. Mercê de muitas e várias causas, entre as quais deve ter preponderado a guerra, estancou de todo o carreiro de formigas que descrevia através do Atlântico a horda portuguesa com seus sacos de chita e baús encoirados de pêlo para fora e arabescos e iniciais de brocha amarela. Estancou, e é de crer que se não renove jamais no seu movimento recíproco de fluxo e refluxo. Não há dúvida que muita gente por essas províncias além está à espera que lhe seja possível emigrar. Se se abrissem os portos, seria um êxodo à antiga. Êxodo fatal. Uma boa maioria da que sai não volta ao berço. Além da terra portuguesa estar cada vez mais áspera para o habitante, mostra-se do mesmo passo imprópria à super-população.»
 
«No século XVIII um corregedor de Viseu dizia para o sábio Linck em digressão botânica pelas comarcas interiores: "Portugal é pequenino, mas é um torrão de açúcar". Ora,  persistindo igualmente pequeno, ou mesmo diminuto, salvo o espaço geográfico, o que possuía de doce, de blandífluo ao paladar, derreteu-se deploravelmente.»
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«Acontece que sendo cada vez mais frouxos os laços nativos, se roboram em contraste os vínculos que prendem o íncola à nova terra. Contentemo-nos em saber que no cadinho prodigioso de raças que é o Brasil, cadinho ainda em ebulição, o contingente português ir-se-á renovando de modo a manter a categoria de primeiro elemento no  «substractum» étnico de que há-de provir em definitiva o tipo histórico brasileiro

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«Com a mutação que se operou no domínio económico-social, baralharam-se da mesma forma os dados do problema literário. O brasileiro foi uma mina nas letras pátrias, rica e inesgotável como as do Rand. Camilo extraiu daí alguns dos seus diamantes pretos, e o próprio Eça, que arremeteu quixotescamente contra os literatos que não punham escrúpulo algum em requentar essa olha podrida, por lá fez transitar o pandilha do Basílio e o abalisado e bem falante senhor Castro Gomes.»
 
«Hoje ninguém lê o Brasileiro Soares de Luís de Magalhães. Ninguém o conhece, embora o romance não seja chalado de todo. Mas quantos lêem português conhecem o prefácio de Eça que saiu inserto nas Notas Contemporâneas. Ao contrário do que se infere das páginas do paraninfo, o protagonista em nada destoa do tipo clássico, crédulo, boçal, matéria de logro, espertado em sua luxúria serodia, e que para coincidir em absoluto com o padrão severamente romântico dá um tiro no peito, desvairado em seu amor traído. As personagens que gravitam à volta deste Soares, como os trocatintas do Levante à volta de Pluto, são mais postiças umas que as outras, a começar pela heroína, aquela Ermelinda, talhada à contra-luz de Eça, que punha sempre pecadoras em suas intrigas, mas que, além de pintá-las com tintas suaves, nunca por nunca deixaria de cercá-las da sua infinita piedade. E condição sine qua non, pode dizer-se, nunca lhes faltava com a sua graça.»
 
«Luís de Magalhães tirou esta Ermelinda da ignorância edénica duma aldeola minhota, insuflando-lhe a moral de megera num belo físico de hetaira [ * ]. Só por isto o livro devia desagradar a Eça, que punha uma grande dignidade em contracenar com perversos e sobretudo em julgá-los. E estamos a ver o escritor embaraçado naquela manhã de Bristol em que o correio lhe pôs em cima da mesa o manuscrito a prefaciar do seu amigo.»
«Luís de Magalhães, além de persona grata, era grande influente na sociedade portuguesa, por conseguinte destes trunfos que, mais não seja, um homem precavido, sem deixar de ser digno, vai com obsequiosa solicitude conservando de reserva para um apuro, uma adversidade imprevista.»
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«O brasileiro em questão não é, bem entendido, o habitante do Brasil, mas o nosso desgraçado compatriota que, obrigado pela miséria da lura, abalou para a terra tropical, mourejou, penou, levou muito pontapé na bunda, casou com a sinhá, filha do patrão, ou não casou, mas de qualquer modo enriqueceu e, voltando um dia a penates, trouxe toda a sua ignávia antiga, acrescida das múltiplas pechas do engorgitamento. É lógico, próprio da condição humana que assim venha a suceder, e está mesmo previsto no livro sapiencial dos Provérbios: Se queres conhecer o vilão, mete-lhe a vara na mão. A vara, está sabido, deu-lha o dinheiro.»
 

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(continua)

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hetaira [ * ]
“hetaira”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa. Disponível em:
 https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/hetaira 


10
Dez25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'EÇA DE QUEIRÓS DESCE À LIÇA' [ 15 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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«Em 1886 vinha a lume o Brasileiro Soares de Luís de Magalhães. Apadrinhava-o Eça de Queirós com o prefácio, datado em Bristol de Maio do mesmo ano. Desse prefácio, como a generalidade se entressacha  na teia espiritual das relações entre ele e Camilo, recortamos as passagens essenciais. Em verdade o dissecado não é o Brasileiro Soares, mas o romantismo. Alvejando a velha escola, procurava tocar Camilo. Tirante este, que vulto se enxergava no arraial? Só ele pintou, e com que tintas, uma copiosa galeria de brasileiros, por natureza destinados a figurantes do seu guinhol, porque social e economicamente eles detinham o primado em Portugal... A pena de Eça é fulgurante, mas nem sempre o golpe, ao despedir-se, irradia o lume simpático, o lume clarinho da boa e incontroversa razão.»
...
...

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