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«Discursivamente ficou dito tudo o que o problema literário, já não dizemos económico, comportava? Supomos que não.
Por todo o século XIX e primeiro quartel do XX, o brasileiro era um quarto estado em Portugal. Devia ensinar-se nas escolas a seguinte nomenclatura das classes: clero, nobreza, povo e brasileiro. Hoje já se não nota a prevalência do brasileiro. Uma sorte de cataclismo varreu a prestimosa e imensa instituição e o país está estropiado em sua orgânica.
Escapou algum exemplar para amostra? Provavelmente, não. Mercê de muitas e várias causas, entre as quais deve ter preponderado a guerra, estancou de todo o carreiro de formigas que descrevia através do Atlântico a horda portuguesa com seus sacos de chita e baús encoirados de pêlo para fora e arabescos e iniciais de brocha amarela. Estancou, e é de crer que se não renove jamais no seu movimento recíproco de fluxo e refluxo. Não há dúvida que muita gente por essas províncias além está à espera que lhe seja possível emigrar. Se se abrissem os portos, seria um êxodo à antiga. Êxodo fatal. Uma boa maioria da que sai não volta ao berço. Além da terra portuguesa estar cada vez mais áspera para o habitante, mostra-se do mesmo passo imprópria à super-população.»
«No século XVIII um corregedor de Viseu dizia para o sábio Linck em digressão botânica pelas comarcas interiores: "Portugal é pequenino, mas é um torrão de açúcar". Ora, persistindo igualmente pequeno, ou mesmo diminuto, salvo o espaço geográfico, o que possuía de doce, de blandífluo ao paladar, derreteu-se deploravelmente.»
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«Acontece que sendo cada vez mais frouxos os laços nativos, se roboram em contraste os vínculos que prendem o íncola à nova terra. Contentemo-nos em saber que no cadinho prodigioso de raças que é o Brasil, cadinho ainda em ebulição, o contingente português ir-se-á renovando de modo a manter a categoria de primeiro elemento no «substractum» étnico de que há-de provir em definitiva o tipo histórico brasileiro.»
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«Com a mutação que se operou no domínio económico-social, baralharam-se da mesma forma os dados do problema literário. O brasileiro foi uma mina nas letras pátrias, rica e inesgotável como as do Rand. Camilo extraiu daí alguns dos seus diamantes pretos, e o próprio Eça, que arremeteu quixotescamente contra os literatos que não punham escrúpulo algum em requentar essa olha podrida, por lá fez transitar o pandilha do Basílio e o abalisado e bem falante senhor Castro Gomes.»
«Hoje ninguém lê o Brasileiro Soares de Luís de Magalhães. Ninguém o conhece, embora o romance não seja chalado de todo. Mas quantos lêem português conhecem o prefácio de Eça que saiu inserto nas Notas Contemporâneas. Ao contrário do que se infere das páginas do paraninfo, o protagonista em nada destoa do tipo clássico, crédulo, boçal, matéria de logro, espertado em sua luxúria serodia, e que para coincidir em absoluto com o padrão severamente romântico dá um tiro no peito, desvairado em seu amor traído. As personagens que gravitam à volta deste Soares, como os trocatintas do Levante à volta de Pluto, são mais postiças umas que as outras, a começar pela heroína, aquela Ermelinda, talhada à contra-luz de Eça, que punha sempre pecadoras em suas intrigas, mas que, além de pintá-las com tintas suaves, nunca por nunca deixaria de cercá-las da sua infinita piedade. E condição sine qua non, pode dizer-se, nunca lhes faltava com a sua graça.»
«Luís de Magalhães tirou esta Ermelinda da ignorância edénica duma aldeola minhota, insuflando-lhe a moral de megera num belo físico de hetaira [ * ]. Só por isto o livro devia desagradar a Eça, que punha uma grande dignidade em contracenar com perversos e sobretudo em julgá-los. E estamos a ver o escritor embaraçado naquela manhã de Bristol em que o correio lhe pôs em cima da mesa o manuscrito a prefaciar do seu amigo.»
«Luís de Magalhães, além de persona grata, era grande influente na sociedade portuguesa, por conseguinte destes trunfos que, mais não seja, um homem precavido, sem deixar de ser digno, vai com obsequiosa solicitude conservando de reserva para um apuro, uma adversidade imprevista.»
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«O brasileiro em questão não é, bem entendido, o habitante do Brasil, mas o nosso desgraçado compatriota que, obrigado pela miséria da lura, abalou para a terra tropical, mourejou, penou, levou muito pontapé na bunda, casou com a sinhá, filha do patrão, ou não casou, mas de qualquer modo enriqueceu e, voltando um dia a penates, trouxe toda a sua ignávia antiga, acrescida das múltiplas pechas do engorgitamento. É lógico, próprio da condição humana que assim venha a suceder, e está mesmo previsto no livro sapiencial dos Provérbios: Se queres conhecer o vilão, mete-lhe a vara na mão. A vara, está sabido, deu-lha o dinheiro.»
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(continua)
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hetaira [ * ]
“hetaira”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa. Disponível em:
https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/hetaira