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Jan26
«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'EÇA VOLTA A ATACAR' [ 19 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.
«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.
Manuel Pinto



(continuação)
«Em matéria da inteireza com que o naturalismo observa a vida, sem receio de fazer corar as meninas, estribando-se em Feuillet, pedagogo dos bons costumes para uso de donzelas, poderiam os românticos perguntar a Eça pela página do autor citado que assoalha axiomas tão escarlates.
É intuitivo que na ordem de argumentos aduzidos por Eça convinha Octave Feuillet, o romancista dos panos quentes e não os Goncourts, que faziam gala em escalpelizar as podridões sociais sem rebuço nem tamiz [*], e de quem é a frase relativa à candura das meninas da primeira comunhão.»


«Neste meio tempo, Camilo publicara Vulcões de Lama, onde um crasso naturalismo parece decantado da burla e achincalhe para ficar obra estrénua de escola.
Eça, quase simultâneamente, aparecia com a Relíquia, obra encantadora não obstante o compósito. De certo semelhante trabalho é um daqueles em que são mais visíveis as qualidades e defeitos do autor: uma ironia irreverente e procurada; uma prosa embaladora; pouca imaginação e muito espírito-santo de orelha; uma rapsódia com acordes alheios, destes que teimosamente mais que voluntariamente obssidiam o cérebro. Este livro em cuja tecitura se vêem passar as sombras eliseanas de P. Gattina, de Flaubert, de Renan, de Rollinat, foi desde logo objecto de acerbas críticas. Nas demais obras de Eça, este desplante em se enfeitar com as jóias dos outros está mais ou menos disfarçado. Aqui Eça não se deu a essa hipocrisia.»

«Camilo que estava à espreita das produções da escola realista, mandou adquirir a Relíquia, pois que Eça não lhe oferecia os seus vient de paraître e anotou-o. Logo no ante-rosto se lê no exemplar existente em Seide: «Tirante as descrições topográficas de alguns pontos da Palestina -- de certo exageradas por tintas fictícias -- este livro como romance é uma pochade, em que todos os caracteres são caricaturas e armadilhas às gargalhadas da baixa comédia. Os plágios são frequentes.»
(...) Na última página lançou um juízo severo: «Este livro tem duas partes: 1ª, porcaria, 2ª, maçada. É uma pochade à Paul de Kock: chalaças hiperbolicamente inverosímeis; uma vontade despótica de fazer rir à custa de tudo. Mas não é isso o que o torna um mau livro. É a falta absoluta de bom senso e de bom gosto. Pode considerar-se uma decadência por ter sido escrito depois dos Maias que deve ser melhor.»
«O singular é que a Relíquia, impregnada do tonus das Memórias de Judas de Petrucelli della Gattina, tenha sobrenadado à flor da literatura portuguesa; e que a obra paradigma tenha sossobrado com o nome do autor no mare-magnum das letras estrangeiras. Que absurdo destino é este, o dos livros, ou que estranho desnível de méritos há da nossa plana literária para a plana internacional?»

tamiz [*] (tamis)
“tamis”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
Disponível em:
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