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Alcança quem não cansa

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.» [Aquilino Ribeiro]

Alcança quem não cansa

20
Nov25

«CAMILO E EÇA FRENTE A FRENTE»: 'CAMILO ATACA EM TODA A LINHA' [ 12 ] . Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto
 

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(continuação)
 
«A polémica com Alexandre da Conceição pode considerar-se como o auge da contumélia entre românticos e realistas. Aquele, homem livre e culto, de entendimento tão atilado como cáustico, sabendo manejar a pena, em sua primavera literária um dos devotos de Camilo, caíra em sair à liça em defesa dos princípios novos. Incidentalmente resvalara -- e aqui está a sua falta -- a invocar com menos circunspecção ao homem que tinha tirado o idioma do torno fradesco para dotá-lo de agilidade e do sentido comesinho das coisas, ao passo que lhe restituía todos os tesouros inaproveitados do linguajar plebeu, dos modismos saborosos, das expressões dinâmicas, o que, antes dele, apenas Garrett intentara fazer. O fundibulário não arrumou com as sete pedras de David à testa do entremetido mas com sete vezes sete, e disparando sobre ele regou de metralha o arraial dos realistas. Já se sabia, enquanto lhe restasse fôlego, não era ele que deixava passar em claro ataque ou remoque. O zoilo que o mordesse acautelasse a dentuça.»
 

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«Esta polémica ficou nas letras portuguesas como o seu mais pitoresco e iracundo chinfrim, fértil em chalaça e tropos envenenados. Interessam-nos nela sobretudo as passagens em que, apontando a Alexandre, o tiro batia no príncipe do realismo nacional e seus partidários, umas vezes de raspão, outras vezes em cheio:
«Assevera o crítico que eu no Eusébio Macário tive por intuito confessado a pretensão de lançar o ridículo sobre a escola realista. O sr. Conceição decerto não pode citar frase minha que o justifique.» -- «No prefácio da segunda edição do Eusébio Macário escrevi: Cumpre-me declarar que não intentei ridicularizar a escola realista. Quando apareceram o Crime do Padre Amaro e o Primo Bazílio e os romances de Teixeira de Queiroz (Bento Moreno) admirei-os e escrevi ingenuamente o testemunho da minha admiração. Creio que hoje em dia novela escrita doutro feitio não vinga.»...
 

178.jpg«O Sr. Conceição diz que a Corja é uma banalidadePois que outra coisa há-de ser a minha novela senão uma frioleira? 0 meu romance não tem o desvanecimento de avantajar-se às «banalidades» da sua espécie. Assevera que eu me deixei obsecar (queria talvez escrever obcecar)por pequenas vaidades de seita até ao ponto de ter do autor do Primo Bazílio somente esta estreita compreensão: de que é apenas um romancista ridículo. Não me conformo indiferentemente com esta aleivosia porque admiro e releio os romances do Sr. Eça de Queiroz.»

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«No Cancioneiro Alegre, pág.11, digo do Primo Bazílio: «o romance mais doutrinal que ainda saiu dos prelos portugueses». Doutrinal escrevi como sinónimo de moralizador. Em minha consciência entendo que, se já houve livro que pudesse e devesse salvar uma mulher casada na aresta do abismo, é o Primo Bazílio. O Sr. Eça de Queiroz fez esse raro milagre, porque pintou o vício repulsivo e nojento. As mesmas delícias do delicto emporcalhou-as, pondo as angústias paralelas com as torpezas.» -- Isto não me parece que seja, na afirmação leviana do Sr. Conceição, considerar o Sr. Eça de Queiroz um romancista ridículo.» -- «Pois eu afirmei que não ridicularizara conscientemente a escola realista, entende que esta declaração é uma verdadeira duplicidade literária. Não percebo o que seja duplicidade literária, salvo se quer dizer que sou um celerado que escrevo de dois feitios, com dois estilos e dois processos.»
«Abro um parêntesis para uma pessoa discreta que me vai ler e deplorar. Esta substanciosa controvérsia com o Sr. A. da Conceição originou-se da injustiça com que fui acusado de hostilizar pela irrisão dois escritores que descrevem as coisas e as pessoas como elas são ou podem ser. Constatei com provas escritas que admirava os dois escritores realistas e outros da mesma falange; mas nem me perfilei imodestamente ao seu lado, nem me gabei de usar os modernos processos com conhecimento de causa. Pareceu-me que o realismo se podia exercitar sem estudos prévios, por ser fácil tarefa com observação e estilo descrever a verdade das coisas físicas e ter das morais uma intuspecção mais ou menos aproximada da realidade.»...
 

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«Durante este duelo em que o achincalhe subiu aos tons mais homéricos na ira e no desforço, em que a palavra atingiu na pena, sobretudo, do impávido Camilo uma elasticidade comparável à dum chicote e o sarcasmo encontrou tintas novas imprevistas, Eça manteve-se no seu Bristol calado como um rato. Várias vezes posto em causa, em regra favoravelmente, não pestanejou sequer. Não há uma impressão, uma frase sua acerca desta desatinada rixa, e é pena. Seja como for, deveria ter admirado as inflexões novas que a língua tomara ao exprimir a fúria do rijo contendor. O curioso é que à medida que Alexandre da Conceição vibrava seus golpes e mais empertigava o arcabouço na investida contra o adversário, mais Camilo se avantajava em vigor e digamos ferocidade.»

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«Pois em este extraordinário encontro, único na história das letras portuguesas, o mutismo de Eça é significativo. Em todo o caso, em seu espírito penetrantíssimo, devia assentar com certeza absoluta o poder de dialéctica que Camilo punha nas discussões, seu inesgotável arsenal de golpes e contra-golpes, seus botes diabólicos, fulminantes, por vezes dum donaire a toda a prova e de direcção mortal. E, que os manes de Eça nos perdoem, se erramos, devia-lhe cobrar, mais que respeito, o seu medo. Sim, o seu medo.
 

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«Camilo, que ficara indeciso quanto à aceitação do público pelos produtos da nova escola e, talvez mais do que isso, intelectivamente titubeante, pois que o ano heróico do realismo para ele passara sáfaro como uma lande sem água, tendo-se refeito em 79 e 80 e lançado sucessivamente Eusébio Macário e a Corja, sorte de paródia e de passadiço para os novos métodos, escrevia a Chardron:
«Preciso de conhecer bem o espírito público na apreciação da Corja. Por enquanto não sei decidir, visto que a venda me parece ter sido pequena. Isto prova que as famílias estão atemorizadas.»
No fundo, Camilo admirava Eça. Num livro, hoje quase ignorado, Serões, de Pedro Ivo, que veio a lume em 1880, lia-se no verso do ante-rosto esta opinião lançada pelo próprio punho de Camilo
«É um bom livro; mas... veio depois do Primo Bazílio


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