Em 20 de 184 páginas do número 17 dos Cadernos Aquilinianos, da responsabilidade do Centro de Estudos Aquilino Ribeiro (CEAR) do pólo de Viseu da Universidade Católica, é trazido a público um dos textos guardados entre os escritos que Aquilino Ribeiro pretendia incluir no livro autobiográfico "Tempos do Meu Tempo", que não chegou a ser publicado.
"Terá sido escrito em 1963, por isso é que não deixou o livro concluído, foi mesmo à beira da morte", explicou à Agência Lusa Henrique Almeida, director dos Cadernos Aquilinianos.
O escritor - nascido em 1885, em Carregal, concelho de Sernancelhe - faleceu a 07 de Maio de 1963, e uma comissão parlamentar foi incumbida da transladação dos seus restos mortais para o Panteão Nacional.
Segundo Henrique Almeida, o texto inédito foi cedido pelo filho de Aquilino Ribeiro, Aquilino Ribeiro Machado, e depois tratado pelo CEAR, "a partir de folhas dactilografadas e emendadas pelo autor".
Algumas dessas folhas anotadas pela mão do escritor vão mesmo ser reproduzidas no dossier de 20 páginas dos Cadernos Aquilinianos, que inclui também explicações introdutórias e ilustrações da época.
"Este texto retrata o período de 1927/28. É a continuação do relato da fuga do presídio do Fontelo (publicado no número 3, em 1995), a caminho de França. Costumamos dizer na brincadeira que é uma estreia mundial, porque, de facto, este texto nunca apareceu em parte alguma", sublinhou.
O investigador destacou algumas passagens curiosas do texto, como aquela em que o escritor, chegando a uma aldeia onde se encontraria com alguém que depois o levaria à fronteira, "estranha como é que aquela gente estava completamente fechada naquele mundo, sem conhecer sequer a aldeia ao lado".
"O João não sabia de nenhum caminho para Segões que, todavia, ficava do outro lado do monte. Vieram outros Joões e outros Maneis e nenhum atinou a responder à minha pergunta", relata Aquilino Ribeiro.
"Não estavam a caçoar comigo? Não estavam, por certo.
Considerando bem, compreendia-se: aquela serra, intransitável ao que era de agreste, servia de barreira entre as duas localidades vizinhas, distantes quatro quilómetros, não mais, e era como se tivessem a separá-las a cordilheira dos Andes", conclui.
Assim sendo, acrescenta ter arrancado "dali para fora, seguindo a direitura do nariz, como quem vai explorar mundo".
O número 17 dos Cadernos Aquilinianos dá continuidade à actualização da obra do "Mestre" Aquilino, assinalando também os 20 anos de CEAR, comemorados em 2006.
Segundo Henrique Almeida, esta revista somou ao longo de catorze anos "mais de 2.700 páginas", constituindo actualmente "uma referência incontornável de consulta para qualquer pesquisa da diversificada obra aquiliniana".
O CEAR faz votos de que a ida de Aquilino Ribeiro para o Panteão Nacional seja "uma oportunidade ímpar para elevar a sua dimensão literária e cultural à categoria de imortal", considerando este acto "uma homenagem que lhe é devida".
"Terá pois chegado a hora para recuperar com a maior dignidade a memória de um dos maiores cultores da literatura portuguesa de sempre", refere o estudioso.